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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A sucessora de Cássia Eller

Jessica Rabbit


Sérgio Maggio

A cantora Shyane acaba de chegar a Brasília. Ela veio de São Paulo motivada por um sonho: ser a nova Cássia Eller da cidade. A ideia surgiu numa madrugada, no Bar dos Amigos, lá no Largo do Arouche, em São Paulo. A artista da noite foi assistir ao show de amigas travestis quando encontrou um abastado casal gay brasiliense em férias. Entre uma e outra cerveja, viraram, os três, amigos de infância. Shyane, atenta, pôde ouvir as fantásticas histórias de como surgiu o furacão Cássia nos bares da Asa Norte.
Não pensou duas vezes. Assim que se despediu daquele amável casal de namorados, ela se dirigiu para a Rodoviária de São Paulo e comprou uma passagem no expresso Brasília. Estaria no Cerrado no dia seguinte. Correu para o apartamento, pegou as melhores roupas da noite, um portfólio de bares onde tocou na Augusta e na Consolação, a mala de maquiagem e um Ipod com a seleção de seu repertório para impressionar os jornalistas de plantão. Um deles, o casal deu a dica, tratava-se de Irlam Rocha Lima, que, segundo a dupla, era uma espécie de Midas candango.
Quando Shyane desembarcou, chovia litros sobre a cidade. Ela, mística, interpretou a banal tempestade de janeiro como um sinal claro da natureza, que limpava e abria os caminhos. Ali mesmo, na Rodoferroviária, trocou de roupa, passou um batom e seguiu, como uma diva, para os bares indicados pelos amigos de noitada paulistana. Resolveu chamar um táxi, daquele de 30%, aliás, outra dica preciosa da dupla. A primeira parada: os famosos bares da 408 Norte. Ali, com toda pose de diva contemporânea, ela sentou-se na cadeira, pediu uma água com gás e tomou o primeiro choque de realidade.
De olhos arregalados, ouviu que o músico da noite em Brasília virou um ser em extinção, perseguido pela vizinhança impaciente. Mais: os bares com som ao vivo são caçados como lebres pelos órgãos de fiscalização do GDF. Dificilmente, teria um espaço na cidade que, ao longo de sua curta história, revelou joias exportadas para o Brasil, como Cássia Eller, Zélia Duncan, Renata Arruda, Gisa Pittan, Rubi, Dhi Ribeiro, Luciana Luppy e Indiana Nomma, entre outras tantas boas vozes que aqui residem. “Ixi, se eu fosse a senhora, voltaria correndo para São Paulo. Aqui, o músico da noite está estudando para concurso público”, aconselhou um garçom amigo.
O mundo rachou em dois diante de Shyane. Ela ainda tentou em vão uma entrevista exclusiva com Irlam Rocha Lima, mas o repórter do Correio estava na festa de lançamento do carnaval de Salvador. O jeito era voltar para Sampa ainda naquele longo dia. Comprou a passagem para as quatro da madrugada, mas, antes, resolveu dar a última cartada. Foi para o Setor Comercial Sul, ligou o seu microfone em duas pequenas caixas de som e começou a cantar sobre a base musical das canções do Ipod. A esperança era de que algum olheiro passasse por ali. Sob chuviscos insistentes, Shyane interpretou Adele, Elizeth Cardoso, Nara, Elis, Carmen Miranda e Amy. Já passava das 22h e só se aproximaram alguns viciados em crack e uns travestis que faziam pista. Eles aplaudiram vertiginosamente. Um deles ainda gritou: “Uhu, Brasília é roquenrol”. Shyane sorriu antes de recolher tudo e voltar feliz para os bares da Augusta. Dias depois, receberia um cartão-postal do casal gay brasiliense em férias. “Shyane, amiga, venha para Paris. Aqui, a noite é das estrelas!”

Um comentário:

L. LUPPY disse...

Viva Cássia Eller! rs.....
Cricri me espere que eu também vou (pra PARIS, é claro!) rs....