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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A morte do mau humor

Imagem do blog Morrer a Rir!


Sérgio Maggio


Não é novidade alguma que conheci o homem mais mal-humorado do mundo aqui no DF. Era uma espécie de Seu Lunga, aquele birrento cidadão do imaginário nordestino. Só que mil vezes piorado. No dia em que o avistei, ele estava atacado. Ouvia no rádio as notícias mais cabeludas e reclamava de todas, sem exceção. A repórter narrava que um deficiente físico teve carro roubado em Ceilândia. E o velho retrucava: “Não sei para que deficiente quer carro!” Credo em cruz.

Sem qualquer noção de politicamente correto, esse cidadão prosseguia destilando toda a ira do mundo. Se a locutora falava do excesso de chuva, ele bradava com saudades infindáveis da seca. Se a mulher dizia que Brasília estava sem nada para fazer neste janeiro chuvoso, o “encosto” clamava: “Povo besta! Em vez de comprar uma rede para esticar o esqueleto, fica atrás de gastar dinheiro com divertimento”.

Ninguém aguentava o humor desse caboclo velho. Nos poucos minutos em que fiquei perto, quis sair em disparada. O marrento amaldiçoou Deus e o diabo. Sobraram cobras e lagartos para Niemeyer, “que construiu uns prédios esquisitos para turista fotografar”, para JK que “preferiu criar Brasília no meio do mato de Goiás em vez do litoral”, para Lula que “nunca visitou a região onde ele morava: o Setor de Áreas Isoladas.” Ou melhor, como ele preferia chamar, o Setor de Áreas Desoladas. Ali, essa criatura perdeu o humor e nunca mais o encontrou. “Para mim, esse tal de humor foi soterrado em alguma construção de Brasília e por lá ficou, mumificado, a sete palmos da terra.”

Enquanto a gente conversava, aproximou-se a única pessoa que era capaz de encostar perto dessa fera sem que ele puxasse a peixeira. A comadre Teresa, ou Teca, como o abominável preferia chamar, sabia exatamente quando e como entrar e sair do local sem irritar o tromba. Até o andar manso, o jeito doce de falar e o carinho controlado eram cautelosamente medidos. Se Teca aumentasse um grau nesse tom, o esporro saía que nem trovão pipocando no horizonte do cerrado. No dia dessa prosa entre mim e esse malcriado, a moça caiu na asneira de oferecer um caldo de cana. Antes de eu encher a boca d’água, o amuado berrou: “Quer que o rapaz tenha diabetes”.

Fiquei morto de vergonha por ter presenciado tamanha grossura. “Coitada da Teca”, pensei em voz alta. Tomei as dores e me enchi de coragem. Soltei os cachorros. Falei que ele provavelmente era um cidadão sem maturidade, que não sabia separar os sentimentos e adorava derramar tudo em cima de uma moça dona de olhos e corações tão bondosos. Aproveitei e defendi Niemeyer, JK, Lula, a chuva de Brasília, o deficiente físico que teve o carro roubado e o direito à diversão no janeiro brasiliense.

Quando percebi, estava em cima de um caixote como se estivesse fazendo um discurso. Nessa hora, o homem mais mal-humorado do DF olhou pra mim e caiu na gargalhada. Aquele sujeito riu por 90 minutos ininterruptos até cair duro no chão duro e sem pulso. Foi assim que o homem mais irritado dessas bandas morreu de tanto rir. Naquele dia, depois dos ritos fúnebres, eu e Teca saímos por aí rindo feitos bestas. Dos gritos assanhados das maritacas às mangas que se espatifavam no chão. Gargalhamos até doer as bochechas.



Um comentário:

Henrique Inácio disse...

Excomungado, que ele deve ter sido, não teve paragens no paraíso e se tivesse, com certeza, estaria reclamando ao Senhor, porque, no inferno Satanás deve estar ouvindo poucas e boas....rs