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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Disque 100 para salvar



Sérgio Maggio


Às vezes, a realidade fica insuportável. O ano começou assim em Brasília com dois líderes religiosos envolvidos em exploração e abuso sexual de crianças. Dois homens, que se dizem cristãos, envolvidos em graves acusações e evidências de seviciar meninos e meninas. Duas pessoas que traíram a confiança dos pais fiéis que, com os corações cheios de fé, confiaram seus filhos ao convívio dos algozes. Estamos todos chocados. Não por se tratar de uma história inusitada — os escândalos de pedofilia rodeiam igrejas e os ditos porta-vozes de Jesus Cristo há séculos. Estamos chocados porque a violência sexual a crianças é e será sempre um dos atos mais vis e covardes do adulto.

Nas sacristias, nos salões paroquiais, nos cinemas que viraram igrejas, nos carros, nas boleias dos caminhões, nos vãos escuros das grandes cidades, na própria casa, em qualquer lugar onde seja praticado o ato sexual entre adulto e criança, com ou sem o consentimento do menor, essa infração precisa ser alardeada ao poder público. Precisamos, brasileiros, pôr em prática o instrumento da denúncia protegida. O Disque 100 é uma conquista de que não podemos abrir mão. Ligue, denuncie que haverá uma devida investigação e sua identidade será preservada.

O silêncio, o medo, a sensação de que esse não é um problema nosso, nada disso pode impedir o movimento rumo à denúncia. CNós somos vigilantes de uma sociedade justa e, ao tomarmos conhecimento dessa função, podemos estreitar a comunicação entre a comunidade e o Estado. Sou nordestino, baiano de Salvador, e, quando criança, via normalmente as famílias de classe média da cidade trazer do interior meninas para ajudar na casa e, silenciosamente, servir sexualmente aos homens da casa. Eram relatos contados por coleguinhas de escola e de brincadeiras de rua.

Aquele era um Brasil diferente, sem uma consciência de estado de direito, onde era comum as meninas se casarem na entrada da adolescência em troca de favores entre pais e futuro genro, por vezes, muito mais velho que a futura esposa. Queremos ser um país de Primeiro Mundo e não estamos atentando que vidas humanas estão sendo massacradas ainda na infância.
Integrei, nesta semana, o debate no programa Participação popular, da TV Câmara, sobre esse espinhoso tema. Lá, ouvi de representante do Comitê Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes que há denúncias graves de abuso no entorno das obras do PAC. Ali, segundo o relato doloroso da especialista, aumentou o número de estupros, a gravidez na adolescência e a prostituição. Desenvolvimento às custas de dor e de sofrimento não pode ser permitido no País que aspira ser gigantesco.
Mas ficar chocado é pouco, é transitório. Vamos entrar em estado de alerta.
Disque 100 para denunciar sites e perfis de redes sociais que propagam pornografia infantil… Disque 100 para desabafar sobre o estranho comportamento de vizinhos com crianças… Disque 100 para contar que o amiguinho do seu filho revelou o abuso. Disque 100 para salvar uma vida.

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