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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Da série // Arquivos vivos// Antunes FIlho

Renata D´Elia

A Pedra do Reino em Brasília

Correio Braziliense - DF 30/08/2007

Quaderna dos sonhos

Acalentada há 20 anos por Antunes Filho, a versão teatral da obra de Ariano Suassuna é ponto alto da primeira semana do festival

Sérgio Maggio
Sob coro vigoroso, A pedra do reino é o novo encontro de Antunes Filho com a literatura
É de longa data que o diretor Antunes Filho e o escritor e dramaturgo Ariano Suassuna entreolham-se com certa admiração e desconfiança. Desde a década de 1980, um dos mais importantes homens do teatro brasileiro encasquetou que queria montar no palco espetáculo sobre os romances (A pedra do reino e A história d’o rei degolado nas caatingas do sertão) que revelam as andanças e memórias de Quaderna. Chegou a ensaiar, mas Suassuna segurou o desejo. Queria ver o texto antes de ser montado. Rompera o acordo de intenções sobre a versão teatral da obra-prima literária. O hiato, seguido por cada um a sua forma, desfez-se no ano em que o Brasil se curva para celebrar os 80 anos do mestre paraibano.
O acerto de ponteiros está no palco com A pedra do reino, um dos espetáculos imperdíveis do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília.
Encenada pelo grupo Macunaíma – residente do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), que às 19h apresenta também a montagem Prêt-à-porter 8, no Pavilhão de Vidro do CCBB –, A pedra do reino põe Antunes Filho diante da literatura, o que resultou em espetáculos míticos na história do teatro brasileiro: Macunaíma (1978), de Mário de Andrade, e A hora e a vez de Augusto Matraga (1986), de João Guimarães Rosa. “A pedra do reino é orientada pelo sonho de 20 anos, que por muitas razões foi interrompido. Antunes sempre maturou os dois romances na cabeça, mesmo tendo que partir para outros projetos. Em 2005, voltamos a ensaiar os romances, já com texto reformulado por ele”, conta César Augusto, assistente de direção de A pedra do reino. Antunes Filho não vem a Brasília.
Na montagem, Quaderna conduz os fluxos da narrativa vividos intensamente por coro de atores, que cantam, tocam, interpretam e dançam. Esse vigor suscitou de imediato comparações ao antológico Macunaíma. “O romance é narrado pela subjetividade do Quaderna, é a partir dele que enxergamos tudo. No entanto, não há dicotomia nisso, porque ele é multifacetado. Cabem nele múltiplos arquétipos. Também somos assim. Temos em nós esse coro de foliões. Além da coesão das cenas, há uma energia muito forte nessa encenação, o que nos faz entender a comparação com Macunaíma”, analisa César Augusto.
Antunes Filho dirigiu o espetáculo em processo de criação coletiva com os atores. Muita cenas foram criadas pelos intérpretes e apresentadas ao criador, que depois decidia o que descartava ou incorporava. Assistiram também a vídeos do grupo japonês Ishin-ha, que tem de 80 a 100 integrantes e coordena movimentos e vozes em modelo de partitura (“roteiros silenciosos, músicas não-cantadas e danças não-dançadas”). Quaderna foi exaustivamente testado. Passou por diversos corpos, até cair nas mãos do ator goiano Lee Taylor, de 23 anos. “Lee estava no coro. Faltavam cinco meses para a estréia e Antunes teve uma dificuldade com o ator que fazia Quaderna. Foram propostas cenas para diversos atores. Lee agradou ao diretor. Em 15 dias, ele teve de decorar o texto, que não é pouco”, conta César Augusto.
Quem puder ver os dois trabalhos do CPT no Cena Contemporânea entenderá como o método, em estado puro em Prêt-à-porter, é incorporado na montagem de A pedra do reino. “A técnica é um instrumento, ferramenta para o ator voar, sair desse mundo cronológico. É a possibilidade para ser criador do tempo e do espaço, um demiurgo, criador do universo. Esses exercícios de corpo e voz fazem parte do sistema criado por Antunes e estão, de alguma forma, em cena com A pedra do reino”, destaca César Augusto.


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