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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Como é bom ser desejada





Sérgio Maggio

“Daqui de onde eu me debruço, vejo Brasília se esticar. Sou uma privilegiada. Combino, numa só profundidade de campo, o cerrado e o asfalto a dialogar nessa improvável prosa entre homem e natureza. Quem nunca me viu daí de baixo não sabe o quanto sou desejada. A espécime humana, geralmente, baba diante de mim. Tez macia, brilhante, sem um desvio sequer, que, quando resplandece o sol, é capaz de enlouquecer qualquer engravatado, daqueles que cronometram o tempo para chegar à Esplanada dos Ministérios. Outro dia, um me viu de relance da janela do carro, desviou e se espatifou no balão. Ainda bem que não se machucou, tolinho… Aposentados ficam doidinhos por mim e todo tipo de mulher também, da perua chique à moça simples que trabalha nas redondezas. Sou do tipo que cabe na boca de qualquer um. E isso é para poucos. Bem aqui do alto, por vezes camufladas pela vegetação que quase pinta de verde o céu, eu amadureço na minha condição de objeto de desejo. E sei exatamente em quem eu gostaria de dar o primeiro beijo. A natureza me deu o poder e a perfeição. A doçura e a delícia de ser absolutamente eu. Quero, portanto, escolher exatamente o sabor dos lábios que tocarão em mim, que invadirão a minha carne tenra e explodirão todos os meus sentidos. Essa consciência quase absoluta sobre mim tonteia os seres que passam embaixo. Às vezes, acho muito deles tão ridículos em sua obsessão de me desejar antes da hora. Não sou qualquer uma. Uns chegam a atirar ‘objetos’ para tentar me desequilibrar. Outros, imagine, querem me cutucar para que eu escorregue em seus braços. Patéticos em sua busca, me olham vergando o pescoço como se fossem corujas. E quando dão pulinhos e se agarram em galhos para tentar me alcançar em ângulos bem obtusos? Senhores, senhoras, tenham paciência e entendam a minha magnitude. Essa legião de gente atrás de mim aumenta muito nesta época de chuva. Fico pensando… Esse povo não trabalha? Eles ficam rodeando como formigas em torno do vaso de mel. Tenho muita sorte, eu sei. Nem todas têm o destino que eu tenho. Algumas se perdem cedo. Despencam na vida sem nem ter a condição de amadurecer. Outras adoecem e são violentadas de diversas formas. Eu não. Sou do tipo exportação, sem falsa modéstia. Daquelas de fechar quarteirão. Ter nascido em Brasília é a minha maior dádiva. Aqui, consigo ter a visibilidade de uma estrela. É lógico que a mãe terra foi pródiga comigo. Estou em pleno estado de liberdade. Não tenho data nem hora para me entregar ao primeiro que aparecer na esquina. Sou respeitada como tal e vivo quase uma sina única para quem brota numa cidade. Tenho um sonho. Quando chegar a hora do primeiro beijo, quero que meu escolhido me alcance como Romeu se declarou para Julieta. Estarei na minha sacada quando ele atingir o último degrau e derramar os versos de amor, doce, doce, como meu caldo que se derramará por sua boca, escorrendo e marcando aquele momento único. Nessa hora, terei mil orgasmos e morrerei sob seus beijos. Minhas últimas palavras: ‘Como foi lindo ter nascido manga em Brasília’. Assim cumprirei a minha sina de manga!”

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