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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

As mães da Ceilândia



Sérgio Maggio

Nestes dias de chuva, acompanho a dor das mães da Ceilândia que perderam suas filhas em um estúpido acidente de carro, na madrugada do sábado, na BR-070. De uma delas, em hora de incalculável sofrimento, ouço a súplica dilacerada para que “os jovens obedeçam aos seus pais”. As palavras, que antecedem ao sepultamento da filha, provocam em mim uma certa inquietação. De imediato, é uma frase para ser ouvida, silenciada e respeitada. Quem há de questionar uma mãe num momento tão brutal.
A vontade é de abraçá-la e de transmitir conforto, força e fé na vida que seguirá.
Torço para que essas mães da Ceilândia consigam superar o trauma. É grande a tendência à culpa, ao julgamento, ao que não foi dito, ao que deveria ter sido evitado. Sentimentos corrosivos que definham a saúde mental e física de quem orbita em torno de uma tragédia. Tomara que elas consigam reconstruir o que parece estar devastado para sempre. Cada uma do seu jeito, agarrando-se ou não às suas crenças, mas amparadas, sobretudo, pelo carinho de quem está ao lado.
Seria muito importante que essas mães da Ceilândia tivessem acesso a alguma ajuda psicológica. Sem recurso financeiro para arcar com um tratamento, muitos parentes de vítimas de tragédias padecem em depressão e não se recompõem do trauma. Acabam por não aprofundar nem amadurecer o papel de educadores a partir da perda. Em muitos casos, o pânico de ter a experiência repetida no futuro produz uma relação paranóica, cercada de medos e culpas.
Talvez, um bom começo esteja na reflexão sobre o verbo obedecer, conjugada pela mãe em hora de tanto desespero. A palavra de força masculina, que estabelece uma ordem imperativa, hierárquica e inquestionável, tem se mostrado falida em dar conta do clássico “conflito de gerações”. Ao longo dos séculos, em nome de ordens baixadas como leis, as distâncias entre pais e filhos se alargaram. Não há como trancar por muito tempo uma jovem que quer se divertir e descobrir o sabor da independência. Mas há como, desde cedo, estabelecer o diálogo, apontar as delícias e os perigos de cair do ninho e voar. É como um animal que ensina o seu filhote a caçar a presa e escapar do predador, sem deixar de seguir o rito da natureza e correr todos os riscos dessa fantástica cadeia alimentar.
Sabe aquela boa conversa diária em que pai e mãe apontam possibilidades e caminhos? Eles dão dicas em vez de ordens e apontam que estar vivo é muito mais que botar uma roupa nova, passar o batom e cair na balada.
Acredito na força de jovens que adquirem o conhecimento da vida a partir da experiência de erros e acertos dos pais. A liberdade é um convite ao deslumbramento, ao êxtase, ao carro em alta velocidade, ao excesso. Quando se mergulha nela de peito aberto, no desespero de fugir do cárcere, das regras que massacram e não são aplicáveis, o risco do choque é alto. É bom sair de casa e ir para a vida sabendo que é preciso estar em salutar estado de alerta, de intuir que aquele ambiente está pesado demais ou que aquela carona pode resultar num acidente fatal.
E esse estado de atenção é apreendido em conversas, em olho no olho, em compreensão, em tolerância, em saber respeitar as escolhas e entender as individualidades. Quem sabe a primeira atitude esteja em trocar imediatamente o verbo obedecer por dialogar.

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