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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A amante da UnB


Sérgio Maggio

Conheci uma senhora que enfrentou a ditadura militar e colocou o corpo como escudo para proteger a Universidade de Brasília das sucessivas invasões. Numa tarde chuvosa, sentamos para conversar sobre esse tempo e, aos poucos, a voz serena embargou-se. Notei as mãos trêmulas e as palavras ecoando com sonoridade interrompida. As lembranças em carne viva e emocionadas recriavam uma UnB fascinante aos meus olhos. Por mais que ela instigasse à minha imaginação, entendi que não conseguiria alcançar o estado de liberdade criativa que o câmpus tinha antes de ser golpeado pela atrocidade.
Era preciso ter estado ali, naquele tempo, para entender o porquê dos olhos marejados daquela mulher. O movimento de liberdade era pleno. Havia, ela conta, um crescente sentimento de pertencimento e de orgulho em “ser UnB”, comungado por estudantes, professores e servidores. Era como se todos fossem protagonistas de uma história única: a construção de uma universidade livre. Ela, diria hoje, transdisciplinar, com arte e ciência costurando os desejos.
Sabendo do meu amor pelo teatro, ela me conta que grupos amadores apresentavam cenas curtas inspiradas no golpe de 1964. Ali, a comunidade, inspirada no modelo do Teatro de Arena, discutia a realidade a partir do que era posto no palco. Um dia, vieram os diretores Augusto Boal, Alberto D’Aversa e José Celso Martinez Corrêa para tecer impressões sobre esses trabalhos, num intenso aprendizado sobre a complexa situação do Brasil.
O Auditório Dois Candangos vivia apinhado de gente para assistir às peças, ver filmes de arte e participar de mesas-redondas. As pessoas se conheciam independentemente do curso e do convívio em sala de aula. As rodas de violões, que celebravam a descoberta da música brasileira, ecoavam as canções de ídolos que acabavam de virar ídolos. Nos dias longos passados na UnB, surgia um genuíno espírito nacionalista. Sim, porque ninguém queria voltar para a casa. As aulas terminavam e os grupos se formavam para esquadrinhar o mundo.
Foi assim que ela se apaixonou por um estudante de direito, mas perdeu a virgindade com um de filosofia, numa noite de seca e de lua cheia intensa. A liberdade sexual, no entanto, não era tão livre assim quanto corria à boca miúda. “Sexo, drogas e rock in roll” eram fama. É claro que os jovens namoravam e transavam no câmpus, mas havia muita “paranoia”, sobretudo, das meninas, que temiam a gravidez e a má reputação. Em seu relato, ela confessa que tinha muita gente “careta”. Não se recorda, por exemplo, de ter vistos gays namorando. Ela frisa que o movimento estudantil era extremamente machista e, se assumir homossexual, gerava até a expulsão de partidos e associações de esquerda.
O cheirinho de maconha era sentido aqui ou acolá. O “barato mesmo” era assumir uma atitude política frente ao regime militar. Quando a universidade virou alvo direto da truculência, não havia espaço para pensar em muitas coisas. Namoro, sexo, viagens, experiências e festas foram adiados. “Eu era amante da UnB. Por ela, arrisquei a minha vida”, confessa, sem querer contar detalhes sobre aqueles dias de discórdia. Hoje, quase 50 anos depois, ela não consegue mais recuperar essa memória do confronto, de professores expulsos e alunos presos. Ficou só com esse fino gosto de liberdade.

Um comentário:

Henrique Inácio disse...

Peguei a fase dos anos oitenta, alguns shows do Aborto Elétrico, altos bate-papos na colina, regados a vodka e baseados...rs...ia muito no DCE 406N.Boas festas do CA de comunicação, da Engenharia, entre outras, bons tempos