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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Alô, Gecivaldo?




Sérgio Maggio

De uns tempos para cá, comecei a receber uma ligação esquisita. Uma voz feminina, sempre tensa, procura por um tal de Gecivaldo. Falo que não sei, que não conheço nenhum Gecivaldo, mas a mulher parece não querer me ouvir. Aí, o tempo passa e o toque do telefone anuncia de novo aquela angústia de alguém que busca alguém. Não perdi a paciência com ela. Da parte dessa senhora, sempre há uma certa esperança quando diz: “Alô, Gecivaldo?” E isso de alguma forma me comove. Digo a ela: “Não sou Gecivaldo”. Ela reclama: “Não brinca assim comigo, bebê.”
O que teria acontecido a Gecivaldo? Tenho gastado alguns minutos da minha vida a pensar sobre ele. Apesar de não ter aprofundado nenhum contato com a voz anônima, deduzi que o desaparecido não se trata de parente, nem filho, nem primo, nem sobrinho. Há um derramamento de amor nas palavras que buscam esse cidadão. Paixão de homem e mulher. Não tenho dúvida. Gecivaldo é alguém que mexeu profundamente com os sentimentos dessa mulher. Marido? Não acredito. A voz que o procura sabe quase nada sobre a vida do amado.
Em boca miúda, acho que Gecivaldo conheceu a mulher do telefone numa viagem que fez a Brasília para tratar de negócios na Esplanada. É isso? Gecivaldo é um advogado. O nome é quase de juiz. Consigo vê-lo de toga a defender vítimas de abuso sociais. Sim, acredito que ele é um humanista, luta pelo direito à terra, à moradia, à boa educação, à cultura e à diversidade sexual. É elegante, magro, de barba bem feita e olhos amendoados..
Gecivaldo tem uma voz doce e musicada. Acredito que foi ouvindo a sua preleção que a mulher do telefone caiu em amores. Sim, ela estava numa mesa do lado do Beirute quando as palavras dele amaciaram o coração dela. Ficou desconcentrada, nervosa e não conseguia mais tirar o olho daquele homem de gravata frouxa e paletó dependurado no banco de madeira. Ele percebeu o olhar insistente, que cruzava as mesas como um míssil de rota programada. Ele, a princípio, ignorou, ficou na dúvida se o flerte era com ele, mas depois, não teve jeito: aquela mulher insistente parecia querer pular de mesa, invadir a sua privacidade, saber dos costumes e, sobretudo, arrancar a roupa e tocar no corpo dele.
Bastante incomodado com a situação, Gecivaldo pensou em trocar de lugar. Ficaria de costas para a mulher que o mirava como uma caça. Pensou então em ir ao banheiro ao lado de um amigo. Antes, o rapaz lhe entregou um guardanapo. “Aqui, está o telefone do jornalista que lhe falei. Ele vai te ajudar a divulgar o projeto contra a violência a travestis na cidade”.
Gecivaldo ainda estava com esse guardanapo em mãos, quando, de rompante, a admiradora secreta o interpelou. A criatura falava sem parar, em disparada, enquanto o rapaz mantinha-se imóvel que nem estátua viva. Sem ação, Gecivaldo olhou para as mãos. Ela acompanhou o movimento e entendeu que ele tinha escrito naquele guardanapo o número dele. Provavelmente, não queria se expor. Poderia ser casado, pensou rapidamente ela. Antes de sair correndo perguntou apenas o nome dele. “Ai, que lindo”, murmurou. Ligaria mais tarde no meio daquela madrugada em que eu acordei com o coração aos pulos. “Alô, Gecivaldo?”

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