Languages

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O DF não se divide!

Tango Abrazo
Pintura: Ida O.

Sérgio Maggio

A sinuca de Zuleika Marrom fica no Setor de Chácaras Perdidas Norte (SCPN), onde Osama Bin Laden e Kadafi poderiam muito bem estar vivinhos da silva, caso estivessem escolhido aquele lugar para se refugiar dos algozes. Por lá, alguns pés de pessoas passam, sobretudo, aqueles que seguem o caminho de rato rumo àquela casa de espírito romanesco, tirada de alguma história de Jorge Amado. Debruçada com os peitos fartos sobre o balcão de fórmica vermelha, a matriarca assiste aos mesmos frequentadores em suas conversas descompassadas do tempo. Na última segunda-feira, estavam ali, o apaixonado casal Seu Troinha e Zizi Colhudinha a comentar sobre a decisão de manter a integridade territorial do Pará. Romântica, Zizi aplaude a vitória em manter aquele estado com uma única capital.
— Não gosto desse negócio de arrumar as trouxas. Fico tão arrasada quando vejo um casamento se desmanchar quanto mais um estado. Sou pela união.
A frase de Zizi é dita bem nas fuças de Seu Troinha, o homem que ela pediu a Deus, obediente aos seus caprichos. É bem nesse instante, quando ainda ecoa a última silaba da sentença moralista da moça, que sobe uma faísca de ira em Zuleika Marrom. De fogo, ela, bem pirracenta, enquanto entorna um copo de cerveja na goela, levanta a voz e diz:
— Zizi, minha filha, você não tá sabendo? Vão dividir o DF. Colocarão, no mapa, três pontinhos, entre o D e o F. No D, de dinheiro, vão ficar Brasília, Cruzeiro, Vila Planalto, os Guarás, Águas Claras e o Setor de Mansões de Taguatinga. No F, de f*, todo o resto.
Dramática, Zizi se exalta, ergue uma das mãos, encarna uma Maria Bethânia básica, sobe na mesa e emenda o discurso dos traídos.
— O DF não se divide. É como separar Oscar de… Niemeyer. Lucio de… Costa. Conceição de… Freitas. Lobo de… Guará.
Termina cantando o refrão — “Carcará, pega, mata e come”. O que arranca palmas efusivas da provocadora Zuleika Marrom. Quando ainda colhia os louros da performance, Zizi é surpreendida pela voz mansa e incisiva de Seu Troinha, jornalista, cinéfilo e amante voraz do sexo.
— Não sejam hipócritas. O DF nasceu dividido. Candangos de um lado em suas palafitas e ricos do outro em seus pilotis. Sugiro que se assuma essa divisão. Vamos construir o palácio do governo na Expansão do Setor O e fazer da Estrutural a capital do F.
Zuleika Marrom fica assustada com tamanha verdade. O silêncio se faz… até que a dona daquele estabelecimento balbucia:
— Todo estado novo precisa de uma Câmara Distrital, de 24 deputados, de emendas e de dinheiro público para verba de gabinetes e auxílios diversos….
Zuleika prossegue:
— Gente, desculpa, tudo isso que falei foi invenção para animar esse tempo besta que não passa. O DF vai continuar assim, juntinho, sem três pontinhos…

Nenhum comentário: