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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Louco rapaz de Brasília




Sérgio Maggio
Parecia uma miragem. Entre as filas de carros que fluíam em velocidade, formava-se a imagem de uma figura humana. Ali, na fresta alinhada entre uma faixa e outra dos automóveis, surgia um homem de vestes limpas no primeiro golpe de vista. Ele caminhava em sentido contrário ao ritmo voraz das máquinas. Era um rapaz de presumíveis vinte e poucos anos. Não estava sujo com a poeira das ruas. Parecia que tinha acabado de sair de algum lugar. Falava coisas em métrica alucinada. Não se conseguia entender o que ele dizia. Eram frases rápidas e balbuciadas em tom de murmúrio.
Passei por ele na perspectiva de quem dirige. Tentei em vão encontrar os seus olhos. Eles estavam vidrados, fixos em direção ao infinito. Pelo retrovisor, via que esse rapaz mirava o horizonte preenchido por um céu borrado de nuvens pesadas, que anunciava a tempestade. Caminhava a passos duros e retos para esse cenário. Meu coração apertava, tentava preencher o vazio que se formava no rastro do caminhante anônimo que cruzava por mim e me desprezava.
Ele sumiu e eu segui sem querer preencher essa narrativa fragmentada. Sempre respeitei a loucura. Desde pequeno, fui advertido que não deveria zombar dos “malucos”. De alguma maneira, pus isso em prática. Entendi, com o tempo, a complexidade do surto sem exercitar uma execrável piedade. Ao longo da vida, vi algumas pessoas espatifarem o dito “estado normal”. Estive perto de algumas quando integrei a luta contra os manicômios que aplicam choques elétricos, dopam a alma e amarram o corpo que se debate.
Vi a dignidade em tratamentos que se associavam à atividade cultural. Numa unidade modelo do Manicômio Juliano Moreira, em Salvador, havia uma rádio com programas feitos pelos internos. Eles faziam uma radionovela e, na hora de gravar, colocavam tudo pelo avesso. Um dia, a mocinha, no ar, desprezou o herói e declarou-se apaixonada pela vilã. Ficaram juntas e felizes para sempre. Assim acabou aquele insólito último capítulo, sem se submeter a regra social e fins feitos. Rimos todos juntos, “sas” e “loucos”, da capacidade criativa e criadora que o paciente portador de transtorno mental, para ser insuportavelmente correto, possui.
É preciso entendê-los com olhos admirados e coração transbordado de esperança e de carinho. Talvez saiba melhor dessa condição quem experimentou na pele a experiência de conviver com a loucura, em seus mil labirintos. Por vezes, capaz de se converter numa força produtiva, que fragmenta a chatice do real em estilhaços de sensações. Todo artista sabe que precisa de uma dose de loucura para criar algo capaz de levar o espectador a outro campo de experiência. Acessar esse universo quebra padrões e alimenta possibilidades nunca vividas. Acho que foi assim que absolvi a imagem do rapaz que contrariava o sentido da Brasília cidade de automóveis. O vi como uma metáfora, como uma cena de teatro. Ele seguiu e sumiu numa tempestade que está por vir. Agora e aqui, penso: Será que tudo isso foi verdade? Ou uma alucinação de mais um que enlouquece a olhos vistos na capital federal?

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