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domingo, 25 de dezembro de 2011

Biquíni da cor de pequi



Sérgio Maggio
Quem passou de carro, hoje de madrugada pela Esplanada, deve ter ficado de cabelo em pé. Estava lá, no meio da Praça dos Três Poderes, uma mulher seminua a dançar sob a chuva, como se estivesse num ritual. Usava um biquíni amarelado de estampas fortes a mostrar a silhueta bem talhada. Parecia uma aparição, uma deusa, mas era real. Maria Linda, eis o nome dela, brindou o Natal com o corpo virado para os monumentos de Niemeyer. Não pense que ela é louca, teve um surto ou fez uso abusivo de droga ilícita. O banho de água que a mulher levou era uma forma de louvar Brasília, cidade a que a migrante chegou faz pouco mais de duas semanas.
Aqui para trabalhar em uma repartição de ministério de alguma coisa, Maria Linda aterrissou com apenas duas malas. Em uma, trouxe sapatos, vestidos, cosméticos, roupas íntimas, calças e livros; na outra, bem pesada por sinal, só havia a extensa coleção de maiôs, biquínis e sunquínis, que acumula há incontáveis verões. Em dezembro, imaginou ela, se esbaldaria nas cachoeiras, piscinas naturais, lagos, lagoas e riachos que cortam o Cerrado. A expectativa era de, antes de entrar no expediente, dar um mergulho na Água Mineral, de onde tratou logo de ficar sócia antes mesmo de assinar a carteira de trabalho.
O que ela não podia supor era que, desde a sua chegada, só chove, chove… Por várias semanas, foi trabalhar com diferentes modelitos de biquínis por debaixo da roupa discreta, com a qual despacha no gabinete do ministro de alguma coisa. Movida pela esperança de o sol abrir no cair da tarde, paramentou-se dos melhores tipos. Afinal, não queria estrear com um design qualquer. O de sexta foi comprado numa viagem à Tailândia. O do dia anterior, em Caruaru, Pernambuco. Mas, como todos sabem, nesses dias de dezembro, só chove, chove…
Certa tarde, fim de expediente, Maria Linda botou os olhos na cachoeira que desaba pela fachada do Palácio da Justiça. Ficou simplesmente louca de desejo. Encostada numa barraquinha de salada de frutas, esperou a noite escurecer a Esplanada. Foi para trás de uma planta ornamental, provavelmente de Burle Marx, tirou o vestido rosa pastel e exibiu o corpo talhado num maiô com a pintura vibrante do rosto de Leila Diniz. Quando estava pisando na água fria da piscina do monumento, luzes estouraram, como flashes de paparazzis, sobre ela, o que a fez congelar como se fosse uma escultura de Alfredo Ceschiatti. Pensou que era a Polícia Federal, que seria presa e exonerada do cargo importante. Que nada! Era a nova iluminação de Natal, que ligou automaticamente justo naquele minuto em que Maria Linda se encontraria com as águas.
Na véspera do Natal, sem família, amigos e peru recheado, Maria Linda tomou uma decisão. Espalhou pela cama do quarto do hotel todos os biquínis possíveis. Não achou nenhum que combinasse com a ocasião. Pegou o metrô e foi à Feira do Guará. Acho um incrível, da cor de pequi, com frutos do Cerrado espalhados pelas duas peças. Paramentou-se toda e seguiu para a Esplanada para o batismo. E foi assim debaixo de chuva, que ela saudou as águas do Cerrado, vindas do céu, caídas por terra. Com a cabeça encharcada, fez ainda um belo canto para Oxum, a deusa que conduz a sua cabeça. De carro, ainda pude ouvir ela entoar, em iorubá, “oraiêiêô…”

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