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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Adeus a Sérgio Britto


Sérgio Maggio

Publicação: 18/12/2011 09:12 Atualização:

O ator na peça As pequenas raposas, em 2005 (Adauto Cruz/CB/D.A.Press)
O ator na peça As pequenas raposas, em 2005


Rio de Janeiro —
Nunca tinha ouvido tantas palmas se desdobrarem como uma melodia sem fim. A onda de energia tomava o Teatro Sesc Anchieta (São Paulo) como uma tradução de amor explícito. O palco já estava vazio. Há um minuto, Sérgio Britto tinha dado vida ao frágil Alberto, da peça Recordar é viver, de Eduardo Tolentino. O aplauso sem fim continuava, aumentava, pedia para que ele voltasse. Um dos maiores intérpretes do teatro brasileiro retornava, curvava-se e agradecia, com voz trêmula, o carinho infindável. “Desculpe, não lhe dar muita atenção. Você viu o que aconteceu ao fim? Quantas palmas? Estou muito emocionado. Nem falaria nada, mas resolvi voltar e agradecer a esse público contagiante, obrigado!”, contou Sérgio Britto, no foyer do teatro lotado, que marcou a estreia da temporada paulista em janeiro deste ano,

Alberto foi o último personagem de Sérgio Britto. A peça toda ele passava dizendo a frase “há tempo”, numa metáfora para a vida que se escoava minuto a minuto. Era um tipo caro porque dialogava com a própria condição humana do ator, com interface intensa com a velhice, com a fragilidade do corpo físico e a luta para vencer as barreiras da idade. Na manhã de ontem, o tempo se esgotou. Sérgio Britto não conseguiu sair de mais uma internação. Morreu aos 88 anos de insuficiência respiratória e deixou um legado espantoso à cultura brasileira. Ele estava internado há cerca de um mês, por conta de problemas cardiorrespiratórios.

Admiradores lotam a Assembleia Legislativa do Rio (Pedro Kirilos/Agência O Globo)
Admiradores lotam a Assembleia Legislativa do Rio


Pelo seu corpo, passaram dos tipos clássicos de Shakespeare aos suburbanos de Nelson Rodrigues. Não deixou de experimentar dramaturgias. Um dos grandes feitos contemporâneos foi a montagem de peças curtas de Samuel Beckett, no qual explorava a fragilidade do ser humano, correndo seminu e cambaleante no palco. “Por dentro, eu estou tinindo, estou forte como um rapaz cheio de tesão”, disse na época em que esteve com a peça em Brasília.

Formado em medicina, Sérgio Britto descobriu a vocação pelas mãos de Ester Leão, uma das primeiras mulheres a assumir a função de direção de ator no país. No Teatro Universitário, iniciou-se pelas palavras do clássico Romeu e Julieta, de Shakespeare. Depois, encaminhou-se para o Teatro do Estudante do Brasil, de Paschoal Carlos Magno. Ali viveu Horácio, na antológica montagem de Hamlet, que consagrou o talento de Sergio Cardoso. “Cada um precisa descobrir a sua paixão. A minha veio dos palcos.”

 (Arquivo CB/D.A.Press)


Tudo acontecia tão rapidamente que parecia não ter volta. Sergio olhava a medicina com distância e o teatro como urgência, o que levou a fundar companhias históricas, que ajudaram a modernizar o fazer teatro no Brasil, como o Teatro dos Sete, na companhia de Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Ítalo Rossi, Gianni Rato. Eles foram responsáveis por alguns feitos, como a primeira montagem de Beijo no asfalto, polêmico texto de Nelson Rodrigues, que resultou numa tumultuada temporada em 1961, com direito a protestos e gritos moralistas em plena sessão.

Evolução
Ator de composição, que se descobriu com essa capacidade na labuta de fazer teleteatro ao vivo na TV Tupi, Sérgio Britto sabia como poucos criar um RG para cada personagem que erguia no palco. Foram muitos e, por meio deles, é possível contar a evolução do teatro brasileiro. “A gente saía correndo do teatro e ia para o estúdio de tevê ensaiar e gravar o teleteatro de madrugada. Foi uma escola sem precedente que experimentei.”

Com essa formação intensa nos anos 1950 e 1960, Sérgio Britto desempenha, nas próximas décadas, um papel fundamental na consolidação do teatro de ator. Funda sua própria produtora e escolhe a dedo os personagens e as peças que ele deseja representar. Não é mais uma. Cada uma era única, em sua entrega absoluta e sacra ao palco. Foi assim, em 1974, com Os autos sacramentais, de Calderón de la Barca. Com produção de Ruth Escobar, Sérgio Britto surge nu em cena aos 51 anos, numa montagem que foi proibida pela ditadura brasileira, mas percorreu o mundo por seis meses, do Irã à Europa.

Inquieto, desdobra-se como ator, diretor, produtor e ativista cultural. É um dos fundadores da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e assume o papel de primeiro diretor artístico do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, em 1989. Consumidor voraz de cultural, apresentava um dos melhores programas do gênero na TV Brasil, A arte de Sérgio Britto, no qual compartilhava semanalmente o gosto por cinema, teatro, ópera, leitura e viagens. Nos bastidores, era o xodó das camareiras. Ano passado, lançou uma autobiografia, O teatro e eu, que venceu este ano o Prêmio Jabuti. O livro tem um texto picante, sincero, confessional e revelador dos bastidores da vida de um ator devotado. Ali se aprendem muitas lições. Uma delas como viver com 80 e muitos anos. Seu corpo será enterrado hoje no Cemitério do Caju.

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