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terça-feira, 8 de novembro de 2011

A batalha perdida contra as cigarras





Esta é a primeira primavera de Júlio em Brasília. Ele não sabe bem o que foi a seca de umidade de rachar os lábios. Chegou aqui num dia de temporal que lavou a grama esturricada pelo sol. Não viu os ipês roxos e amarelos florescerem. Não sentiu o desespero pela falta de chuva, nem a beleza do Cerrado que dribla a natureza e mantém-se digno sem água a banhar suas raízes. O rapaz, que veio para cidade a fim de enfrentar a maratona de concursos públicos, anda triste e arranhando as paredes do apartamento de tanta raiva. Não consegue encarar a sinfonia diária e ininterrupta de cigarras que fazem um concerto na árvore, cuja copa quase entra na sala de estar.
Nos primeiros dias, Júlio ficou tão nervoso que descarregou dois tubos de inseticida aerosol sobre as folhas da árvore. Tudo em vão. As cantantes, alheias à tentativa de genocídio, soltaram normalmente a voz. O que deixou o rapaz ainda mais enlouquecido.

Desesperado, ele resolveu montar uma espécie de espantalho e colocar na janela. Viu isso em algum desenho animado da infância. Pegou um melão e enfiou num cabo de vassoura, vestido com um abadá do último carnaval em Salvador. Pintou os olhos, abriu, com uma faca, uma bocarra ameaçadora e pôs o mostrengo amarrado na janela com vista para a superquadra.
Quase um milagre ocorreu. As cigarras pararam por alguns minutos. Júlio começou a bailar de felicidade pela casa a sua dança da vitória. Mas eis que, segundos depois, o “sisisisissi” foi retomado com intensidade nunca ouvida, como se as bichinhas estivessem gargalhando do ato patético de Júlio. Nervoso, o homem arrancou a carranca da janela com tanta força que o melão se desprendeu do cabo de vassoura e espatifou, em mil estilhaços, o vidro caríssimo da janela.

Descontrolado, Júlio seguiu para o aparelho de som e despejou toda a sua coleção de heavy metal sobre o chão da sala. No corre-corre, cortou o pé. Quando pulava que nem um saci desgovernado de tanta dor, sentiu que as cigarras aumentaram o tom. Ali, decidiu levar a questão para o campo pessoal. Mesmo com o dedão pingando sangue, ele derramou sobre o piso a coleção de heavy metal. Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple foram lançados sobre a lajota branca e manchada de vermelho-sangue.

Com as mãos trêmulas de ódio, lançou o primeiro CD em volume total. As cigarras respondiam à altura. O embate seguiu horas a fio. Ninguém parecia dar trégua. Júlio mergulhado nos acordes de guitarras e os insetos poderosos em seus agudos e graves.
De repente, a porta do apartamento foi posta abaixo. Policiais, bombeiros, síndicos, pioneiros aposentados e até uma patronesse da alta sociedade adentraram no recinto enfurecidos. Júlio sem entender nada jogou-se no chão. Alguém gritou que ele estava drogado e tinha tentado suicídio. A patronesse desmaiou quando viu o chão riscado de sangue.
O homem foi imobilizado, levado ao hospital para exames e, depois, à delegacia para ser autuado como perturbador da ordem pública. Os polícias lacraram a porta, desligaram o som e a normalidade enfim voltou àquela superquadra com o doce e insistente “sisisisisi” das cigarras.

Um comentário:

Júlio Cruccioli disse...

KKKKKKKKKKKKKKKkkkkkkkkkk... Meu amigo Mággio, obrigadíssimo pela homenagem. Estou de fato muitíssimo emocionado. Você realmente é um ser humano surpreendente. Linda crônica. Engraçadíssima. Amei! Amei! Amei! A narrativa é meio a la Ítalo Calvino, um dos meus autores favoritos. Estou lhe devendo uma agora. Um beijão. Ah! Pode deixar: resolvi, agora estou tentando ser amigo das barulhentas. Até nome estou dando a elas. P.S.: obrigado pelo afetuoso puxão de orelhas. Essa sua lição, para comigo, sobre a sagrada natureza, eu jamais esquecerei. Obrigado.
Júlio Cruccioli.