Languages

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Triste fim da Oficina Perdiz


Mariana Moreira

Publicação: 05/10/2011 08:36 Atualização: 05/10/2011 08:54

Aos 80 anos, José Perdiz acumula dívidas e testemunha a promessa de construção da oficina-teatro se perder no tempo: os dias são ocupados com pequenos consertos (Iano Andrade/CB/D.A Press )
Aos 80 anos, José Perdiz acumula dívidas e perde sonhos

O design moderno e as fachadas imponentes dos prédios que se multiplicam ao redor da comercial 708/709 Norte vão, pouco a pouco, engolindo a frente modesta da oficina do mecânico paulista José Perdiz, quase 80 anos de vida dedicados aos tornos, ás soldas e ao mecenato informal do teatro em Brasília. “A coisa está ficando feia para o meu lado”, avalia. Os clientes já não surgem como antigamente, atraídos por oficinas informatizadas. O telefone está bloqueado por falta de pagamento e só recebe chamadas. Até a energia elétrica pode ser cortada a qualquer momento. Repleto de vazamentos, o telhado está ainda mais danificado depois que a marquise da construção vizinha avançou três metros sobre o terreno de Perdiz.

O cenário de dificuldades em nada lembra o tempo de glória, em que seu reino de graxa, parafusos e ferragens vivia repletos de atores, figurinos e plateia — gente que queria um espaço alternativo para mostrar e consumir arte, e foi acolhida pelo mecânico. Para completar o prognóstico negativo, o acordo com a construtora Ipê-Omni, mediado pela Secretaria de Cultura do GDF e pela Promotoria de Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural (Prodema), para mudar sua oficina-teatro para terreno da 710 Norte está paralisado.

Interessada em expandir e erguer uma área de lazer no espaço onde hoje fica a oficina-teatro, a construtora Ipê-Omni, proprietária do prédio vizinho, aceitou comprar um lote, adaptá-lo às necessidades de Perdiz e transferir seu patrimônio para lá. Mas, recentemente, um mecânico afirmou que utilizava a área destinada à mudança e pediu usucapião. A Ipê-Omni, por sua vez, luta na Justiça pela reintegração de posse. “Se o processo realmente for adiante, pode levar uns três anos. Estou sugerindo à construtora que providencie outro terreno para transferir o Perdiz. Estou visando a saúde e o bem-estar dele”, afirma o advogado do mecânico, Dennis Mostacatto.

Alheio à discussão jurídica, Perdiz sente falta mesmo é da agitação que o rodeava. “Tem momentos, à noite, em que fico olhando em volta, dá uma tristeza. Esse lugar era de uma vivacidade…”, relembra. Hoje, as arquibancadas (que ele ergueu com as próprias mãos, em poucas horas) só são ocupadas por tábuas, equipamentos eletrônicos e objetos que faz por encomenda (como uma armação de cenário para um espetáculo).

História de cinema
O teatro nunca foi seu projeto de vida. Num gesto de generosidade, ele cedeu o espaço para que o enteado (filho de sua ex-mulher) encenasse um espetáculo com os colegas da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, em 1975. A peça Esperando Godot, sob a direção de Mangueira Diniz, foi um sucesso, lotou a oficina por três meses. “Depois, começou uma correria de gente querendo fazer teatro aqui. Dando certo ou não, eles agradeciam e iam embora. Eu decidi: agora vão usar o espaço e pronto. Se der certo, deu. Se não der, paciência. Continuo aqui, trabalhando como torneiro mecânico”, conta.

A iniciativa cultural de Perdiz sempre ganhou eco na classe artística e apoio da imprensa. Nas constantes ameaças de derrubada, as pessoas se mobilizavam e conseguiam evitar o pior. Em setembro de 2002, houve até um cordão humano em torno da oficina. A história de Perdiz foi eternizada em dois curtas-metragens: Oficina Perdiz, de Marcelo Díaz, e Zé(s), que propõe um encontro entre Perdiz e Zé Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina, sob a direção de Piu Gomes. “Aclamadas e premiadas, as duas produções não conseguiram mudar a situação”, destaca ele.

Hoje, Perdiz vive na oficina e atende, a qualquer hora, clientes e amigos que buscam pequenos consertos. Os artistas, que antes engrossavam o coro de sua devoção ao teatro, quase não aparecem mais. A única preocupação do mecânico é com a filha Júlia, de 14 anos, que vive com sua mulher, no Paranoá.

“É engraçado. Morreu”, desabafa ele, olhando ao redor e referindo-se a oficina-teatro, que já foi destaque nacional no programa Fantástico, da TV Globo. Mas o que foi que morreu? O sonho de ajudar as pessoas a fazerem teatro? “O sonho do teatro pode se tornar um pesadelo, e já está virando. Mas não há como matar um sonho”, conclui. A Secretaria de Cultura do GDF, por meio da assessoria de imprensa, informa que “toda manifestação cultural é de extrema importância e deve ser preservada. É preciso, no entanto, observar a legislação vigente”. Ou seja... ainda está em cartaz “o triste fim da Oficina Perdiz”.


Em 2002, artistas fizeram corrente humana contra a demolição (Carlos Moura/CB/D.A Press )
Em 2002, artistas fizeram corrente humana contra a demolição

Sem saída
A Oficina Perdiz sofreu ameaças por estar localizada em área pública. Em 2007, o problema se agravou, quando a construtora começou obras e teve problemas na confecção das marquises, que afetaram o telhado da oficina-teatro. Um ano depois, a Prodema determinou que a empresa deveria providenciar terreno e custear as obras de transferência do espaço.

A hora da sessão coruja

O diário do maldito: o último espetáculo que fez temporada na Oficina Perdiz
O diário do maldito: o último espetáculo na Oficina Perdiz

O ano de 1991 foi o momento áureo da Oficina Perdiz. Mangueira Diniz voltou a procurá-lo, com o intuito de montar Bella ciao, um marco no teatro brasiliense. Nas contas de Perdiz, a montagem teve 110 apresentações, chegou a fazer sessões extras aos sábados e, pasme, teve sessão agendada (e lotada) às 2h da manhã. “As pessoas não conseguiam explicar como os teatros de Brasília ficavam vazios e essa oficina miserável lotava. Não é o ambiente, mas a qualidade do trabalho que conta”, ensina o mestre, que, nesse espetáculo, chegou a ajudar na construção dos cenários e até fez uma aparição no papel de um italiano. “Tinha duas falas. Mas para quem não tem memória, já é um perigo”, brinca.

A última apresentação por lá foi há dois anos, quando o Teatro do Concreto levou ao espaço a peça O diário do maldito. Agora, não há mais como fazer teatro no local por conta da marquise do prédio vizinho que diminuiu o pé-direito, inviabilizando a “caixa cênica”. Antes, quem chegava lá era acolhido com ou sem dinheiro. “Sempre tinha um lanche na madrugada. Gastos com energia elétrica e água, então, eu nunca levei em conta”, admite.

2 comentários:

Handes Bonova disse...

Acho lamentável que a oficina teatro do Perdiz esteja prestes a fechar,quando comecei a fazer teatro assisti Bela Ciau do saudoso Mangueira Diniz que deixa muita saudade,realmente era lotado o senhor Perdiz deveria ser mais valorizado pela sociedade brasiliense que é um povo sem memória e que esquece seu passado.

Roberto Ávila disse...

Por favor, assinem! Compartilhem!!!
Faz parte da história do teatro de Bracsília!
http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoListaSignatarios.aspx?pi=P2011N14962
Abaixo-assinado Salve a Oficina Perdiz para Governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz.
Por favor, divulguem essa ideia através do Facebook, se vocês puderem convidem todo os seus contatos para o evento: https://www.facebook.com/event.php?eid=107520419358546
Entre no site do evento e clique no botão "+ Selecionar Convidados" abaixo da foto, na esquerda (só aparece esse botão depois que você clica em um dos três botões da direita da página: "Eu vou", "Não sei" e "Não").
Vamos divulgar essa idéia!