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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Conversa com a diretora Leo Sykes

Brasília devia ser a Las Vegas da cultura"

Severino Francisco

Sérgio Maggio

Publicação: 16/10/2011 11:00 Atualização: 17/10/2011 00:07

 (Rafael Ohana/CB/D.A Press)

Com uma mistura desconcertante de circo, música e performance, o Grupo Udigrudi surpreendeu a todos, ao ganhar o prêmio principal do Festival de teatro de Edimburgo de 2000, o mais importante do gênero no mundo, com o espetáculo O cano. A inglesa Leo Sykes é uma das responsáveis pelo salto do udigrudi, ao fundir as experiências do circo udigrudi, do Música-à-tentativa e do liga tripa. O Udigrudi vai dar um tempo para recarregar as baterias. Nesta entrevista, leo fala sobre Brasília, o brasil e os novos rumos do grupo.

O que está acontecendo com o Udigrudi e qual será o caminho de cada integrante neste período de pausa no trabalho do grupo?
O Udigrudi faz 30 anos em 2012 e resolvermos dar um tempo para todo mundo se renovar. Eu e o Marcelo Beré vamos para Londres. Ele vai fazer um doutorado em palhaçaria. O Luciano Porto quer criar um parque sonoro para crianças. Já conversamos com o CCBB, O Márcio continuará realizando pesquisas com a construção de instrumentos. E eu quero escrever um roteiro de televisão para o Udigrudi. Depois, tudo isso vai enriquecer o nosso trabalho coletivo. Fizemos uma trilogia de espetáculos, com pesquisa em elementos excêntricos musicais: O cano, O ovo e Devolução industrial. Estava na hora de quebrar com tudo para que nasça algo novo. O legal é que, depois de 30 anos, temos uma atriz no palco, a Joana Abreu.


Como se deu a sua iniciação ao teatro?
Começou muito cedo, quando eu tinha seis meses de idade, meus pais eram cineastas e filmaram o espetáculo US, de Peter Brook. Me lembro que, quando era adolescente, meu pai considerava o teatro algo muito chato. Então, era uma maneira de ir contra ele. Estávamos nos anos 1970, minha mãe sempre me levava para ver o teatro, tinha muita nudez, os atores jogavam gelatina na plateia. No auge dos meus 14 anos de rebeldia, eu achava aquilo o máximo. Quando cheguei da Índia aos 18 anos, meu pai perguntou: “por que não vai à Dinamarca visitar a Júlia Varley”, filha de amigos do meu pai. Ela era do Odin Theatre, dirigido por Eugênio Barba. Acabei trabalhando durante cinco anos como assistente dele. Conheci algo muito mais sério do que havia sabido até então. Era uma tribo de artistas entregues totalmente à arte, sem frescura, sem ironia, era muito pleno e internacional.


Como é a sua formação familiar?Sou filha de migrantes, nunca fui de lugar nenhum. Meu pai era australiano, minha mãe do Quênia, nasci em Londres e fui criada na Itália. Ser uma filha de migrantes a ajudou a compreender a mixagem de linguagens do Udigrudi?
É interessante. A linguagem do Udigrudi é resultado de um casamento rico de linguagens diferentes. Márcio é músico e inventa instrumentos alternativos. Marcelo Beré e Luciano vêm do circo tradicional e dos malabares. E eu venho do experimentalismo do teatro europeu e do cinema. O meu trabalho de diretora foi canalizar e tirar o máximo de cada uma dessas experiências. Não foi fácil, os ensaios eram um verdadeiro campo de batalha. O Luciano Porto, que criou o projeto do espetáculo O cano, não gostava nem um pouco no início. Eu também não entendia nada daqueles palhaços tradicionais. Fomos obrigados achar um terreno onde podíamos nos encontrar.


O que esta experiência de trabalhar com o grupo Udigrudi proporcionou a você em termos de direção?
Para mim, o Udigrudi é um prato cheio. No grupo, há quem domine o circo, os malabares, a performance, os figurinos e os cenários. Tenho tudo na mão, mas ficava com a impressão de que nunca iam além. Pensava que, muitas vezes, eles banalizavam a sua própria criatividade. Aprendi que a responsabilidade do diretor é empurrar, acreditar, observar cada detalhe e se arriscar. Às vezes, você não sabe o que está fazendo. Aprendi a confiar e batalhar.


Você acha que consegue realizar tudo? A trupe tem um potencial muito maior do que eu consegui canalizar. Mas o problema é que vivemos atrapalhados por gastar 99% das nossas energias com questões administrativas. Com 30 anos de estrada, não temos uma sala de trabalho, não conquistamos nada além de prestígio e de um público fiel. Economicamente e estruturalmente, estamos na estaca zero.


E por que se encontram nessa situação?
Em parte, é culpa nossa. Somos muito criativos e pouco organizados. Mas, sinceramente, acho que a estrutura burocrática do Brasil mata todo mundo. Obriga você a ter tanta competência administrativa que tem de gastar uma energia surreal. Precisa ser um excelente, genial admistrador. O governo brasileiro e os patrocinadores têm de fazer uma reflexão, pois se querem estimular a cultura precisam pensar diferente. Nós e outros grupos estamos a ponto de não querermos mais esse tipo de patrocínio. A burocracia é tão grande que, algumas vezes, trabalhamos de graça e temos de tirar dinheiro do nosso bolso para pagar.


Em países da Europa não existe essa burocracia?
Não existe. É por isso insisto que tem de mudar. Produzo teatro na Dinamarca e na Inglaterra, mas o trabalho em si mesmo é a prova. Não existe cartório, eles acreditam no seu trabalho. Aqui no Brasil, a princípio, até que prove em contrário, você já é suspeito.


O que as pessoas dizem dos espetáculos do Udigrudi fora do Brasil?
Engraçado, nosso trabalho é internacional. A reação é muito parecida com a dos brasileiros. É feita para a criança sensorial, o brincante que há em cada pessoa. Ficamos morrendo de medo de que não entendessem nosso humor na China. Que nada, eles entenderam a surpresa, a metaformose.


Você acha que o Udigrudi é um produto típico da experimentação cultural brasiliense das décadas de 1980 e 1990?
Para o Marcelo Berê, o Luciano Porto e o Márcio, a participação nos grupos Música-à-tentativa, Liga Tripa e circo Udigrudi foram fundamentais. A Joana é mais nova e participou como espectadora. Eles reverenciam isso todos os dias. Eles foram um grupo sem diretor até eu chegar. A formação deles foi essa. Depois, eles viraram a primeira geração de pedagogos autodidatas, passaram a ministrar oficinas e workshops. Talvez porque os pais desses jovens tiveram que inventar uma cidade parecia a eles natural inventar também uma cultura. Para mim, a questão era outra. Fui criada em Londres, em Florença, em Paris, vendo Peter Brock e o Living Theatre.


Brasília já foi bastante experimental nas décadas de 1980 e 1990. E, hoje, ela perdeu a inquietação e virou uma cidade cover? Não sei se isso é algo específico da cidade. Brasília tem um nome muito bom para a música. Se você fala que é de Brasília, as pessoas de fora respeitam. Mas se fala que é de teatro, elas desconfiam. Existem trabalhos em teatro muito bons, mas o problema é a invisibilidade. O que tem visibilidade é o besteirol. A grande doença da cultura em Brasília é o amadorismo, todo mundo faz teatro nas horas vagas, ninguém consegue viver disso, mal nasce, já morre. O custo do aluguel de uma sala em Brasília é altíssimo.


Que conselho você daria para os atores jovens de talento?
Eu digo sempre para eles: “Vão embora!”. É cruel, mas fico com medo de que eles morram como artistas.


Brasília odeia a cultura?
É uma coisa louca. Brasília ama shopping, carro e odeia a cultura. Ao mesmo tempo, não temos praia, a única opção de diversão e vida social é a cultura. Brasília deveria investir algo e ser uma Las Vegas da cultura.


Você se abrasileirou?
Quando vou para fora, vejo como sou brasileira. Se faço um jantar na Dinamarca, marco para as 20h, quando as pessoas chegavam, eu ainda não havia começado. Eles dizem que sou muito brasileira. Como diretora, acesso uma riqueza enorme de música popular. A questão musical é marcante. Podemos começar um espetáculo com um samba e logo em seguida entrar com um maracatu.


O que é ser brasileiro?
É saber levar a vida pelo lado bom, mas o problema é que, muitas vezes, isso impede de melhorar o que está ruim. Não adianta dizer que os políticos são todos corruptos e não fazer nada. Vamos fazer igual aos italianos, que decidiram não pagar mais impostos.


E Brasília, o que tem de bom e de ruim? Brasília é uma cidade muito difícil para mim. Não é orgânica. Preciso me concentrar quando vou para a minha casa. Sempre chego ao Eixão dirigindo na posição errada. Acho fantásticas as árvores, o céu, a possibilidade de morar em uma casa no centro da capital, com coelhos e gatos. Posso ir a pé à 508, a Casa d’ Itália e à Funarte. É um luxo. Temos um grupo muito legal de artistas. Mas é uma cidade mais de separações do que de encontros.


O que incomoda a você?
Moro na W3 Sul e a gente tem de andar o tempo com cuidado, olhando para baixo, por causa dos buracos, e para cima, com medo de que caía algo em sua cabeça. Me preocupa que a alma das pessoas esteja sendo formada por cimento estragado. De quem é a W3 Sul, de quem é Brasília? É dos mendigos. Existem parquinhos, mas são muito descuidados, as crianças não podem brincar. E, no campo da cultura, a cada novo governo, destroem tudo o que fez o anterior. Não deixam estabelecer tradições e competências. A gente começa tudo do zero. A sensação que tenho é de que a gente está patinando na lama o tempo todo. Isso cansa.


O que seria necessário fazer para sair da lama?
Não é falta de artistas. É falta de espaços, a 508 Sul está abandonada pelo governo. Monta uma coisa lá e a chuva molha as nossas coisas. Era preciso também patrocínios com continuidade para trabalhos de pesquisas realizados heroicamente. E criar uma ponte cultural, um programa de passagens para ir aos festivais. A cultura em Brasília não pode se limitar ao circuito CCBB, Funarte e Caixa Cultural. Os artistas locais não conseguem utilizar o Teatro Nacional. É só megaprodução global ou alguns balés. Brasília tem um potencial fantástico para a cultura.


Trajetória premiada

» A trupe Udigrudi foi criada em 1982, por Marcelo Beré, Márcio Vieira e Luciano Porto, a partir da fusão de três experiências: Música-à-Tentativa, Circo Udigrudi e Liga-Tripa. Marcelo e Luciano desenvolviam um trabalho com circo e malabares. Márcio Vieira é luthier e cria instrumentos a partir de canos de PVC. Com a entrada da diretora Leo Sykes, o grupo ganhou novo impulso, potencializando os talentos individuais em uma inventiva mixagem de circo, teatro, performance e música. Em 2000, a trupe ganhou o Herald Angel, prêmio principal do Festival de Fringe de Edimburgo, na Escócia, o mais importante evento de teatro do mundo. Desde essa época, o Udigrudi decolou uma carreira internacional, se apresentando em 15 países, sempre com sucesso de público e de crítica. Com O cano, O ovo e Devolução industrial, o grupo fechou uma trilogia de teatro experimental. Em 2008, ganhou o VilaNueva de Cuba. Em 2010, a trupe foi agraciada com o Prêmio Zilka Salaberry de Teatro Infantil.

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