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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Um papo com Carlos Gil Zamora


Produções em espanhol são maioria no festival Cena Contemporêna. Para especialista, isso comprova que idioma não é empecilho

Mariana Moreira

O festival Cena Contemporânea, que encerrou domingo sua programação, é território de sotaques diversos. Além da sonoridade que vem dos quatro cantos do Brasil, muitas línguas se misturam no palco e nas antessalas dos teatros. De todas, a mais presente é o espanhol. Das 10 atrações estrangeiras, seis são faladas em castelhano: duas vieram do México (Amarillo e A caixa voadora), duas são produções argentinas (Que ruido tan triste es el que hacen dos curepos cuándo se aman e Tercer cuerpo) e o outro par representa a Espanha (Las tribulaciones de Virginia e Ni ogros ni princesas). “A língua não é empecilho. Os idiomas são parecidos, mas quando há espetáculos complicados, sempre existe legenda. E o Brasil é o país onde mais se estuda espanhol no mundo”, defende o jornalista espanhol Carlos Gil Zamora.
Diretor de uma revista espanhola especializada em teatro, a Artez, Zamora perdeu as contas de quantas edições do festival já acompanhou. “Umas sete ou oito”, calcula. Sua conexão com Brasília começou quando ele e o coordenador do Cena Contemporânea, Guilherme Reis, se conheceram entre o corpo de jurados de um evento da Unesco, em Salvador. A amizade evoluiu para uma colaboração teatral. Por frequentar até quatro festivais de artes cênicas na América Latina por ano e pelo acesso à cena teatral europeia, o jornalista passou a sugerir montagens que considera imperdíveis mundo afora, num trabalho de assessoria, de curadoria informal.
Nos últimos anos, Zamora deu sugestões preciosas aos curadores. Graças a ele, os brasilienses puderam conhecer El año del Ricardo, de Angelica Liddell, e o Teatro de Marionetes do Porto, que apresentou Cabaret molotov em Brasília. Este ano, a peça mexicana Amarillo entrou na programação graças a ele. “Vi em Miami, no ano passado, e recomendei ao Guilherme. É um dos espetáculos mais completos da atualidade. Cumpre seu papel de encaixar as linguagens de teatro de texto e audiovisual de maneira fantástica, tocando num tema complicado e doloroso. A questão das fronteiras, que ainda sangra no México, é tratada com delicadeza, com poesia. É grandioso, em todos os sentidos”, opina.


Mapa cênico

Por suas peregrinações em busca do teatro de qualidade, o jornalista elaborou uma espécie de mapa cênico da América Latina. Na Argentina, segundo ele, não há um criador genial em ação, mas a média de produções é muito boa. “E os atores são sempre excelentes”, completa. No Chile, um punhado de criadores se destaca e atinge o critério de excelência de Zamora. A cena da Colômbia é vista como emergente, com produção teatral muito boa. No Peru, há uma tríade de grupos que ele considera interessantes. No Equador, ele destaca a companhia Mala Yerba. “Em cada país, há pelo menos um foco de destaque. Mas, em quantidade e qualidade, os melhores estão no Brasil e no México”, afirma, acrescentando que os países mantêm uma boa estrutura de grupos e companhias trabalhando com linguagem própria.
Apesar de reconhecer essa supremacia do teatro nacional, ele quase não encontra espetáculos brasileiros em suas andanças por teatros do mundo. E não é por falta de estímulo. Frequentemente, realizadores de eventos o procuram para saber sobre a produção que ele conheceu em Brasília. “No ano passado, recomendei o espetáculo de rua Till, a saga de um herói torto, do grupo Galpão, e ele acabou indo ao Chile. Mas as peças brasileiras custam a chegar à Espanha”, lamenta, apontando uma razão para a dificuldade: muitas dessas montagens contam com elenco numeroso e cenário robusto. Portanto, são caras e difíceis de transportar.
Este ano, ele já sabe o que recomendar a quem quiser saber sobre sua passagem por Brasília: a peça Camponesa (Ópera dos vivos), da paulista Cia. do Latão. “Me pareceu um bom exercício de teatro didático, retomando as técnicas brechtianas. É um espetáculo comprometido, com mensagem, muito, muito bom”, comenta.

África em 2012
Carlos Gil Zamora acredita que a quantidade de espetáculos de língua espanhola é equilibrada e está de acordo com a vocação do festival de mostrar a multiplicidade. “Ano que vem, haverá ainda mais, porque será uma edição dedicada à América Latina e à África”, adianta. “Em 2012, a ideia é celebrar o cinquentenário da Universidade de Brasília, promovendo o resgate do festival latino-americano e africano de arte e cultura, realizado em 1987”, explica Guilherme Reis. As negociações estão em andamento e Zamora, inclusive, já sugeriu uma atração: uma peça de Cabo Verde, na África.



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