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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Teatro Dulcina de Moraes (BSB)

Território sagrado

Tombado pelo Governo do Distrito Federal, o Teatro Dulcina de Moraes padece de reforma urgente. Atriz foi a mestre-de-obras que executou, e modificou, o projeto de Niemeyer

Sérgio Maggio


A porta permanece cerrada. Dá acesso à garagem por onde Dulcina de Moraes entrava e saía do teatro projetado por Oscar Niemeyer, sem precisar cruzar o foyer. Era espécie de passagem secreta que só os funcionários da Fundação Brasileira de Teatro (FBT) sabiam da existência. Quando ela girava a chave, o indefectível perfume e as pisadas firmes dos sapatos denunciavam que a matriarca adentrava ao seu templo. Mística, ela tinha um ritual. Antes de entrar no palco, espécie de território sagrado, beijava-o. Era um ato de respeito. Ali, estava diante de obra que ergueu com orgulho e ímpeto. Enfrentou a falta de dinheiro em construção que se arrastou por mais de uma década (1972 -1981). Até o determinismo do projeto do famoso arquiteto, ela alterou.

— Era íntima da família. A irmã de Niemeyer, Dulce Nunes, era professora da FBT. Dulcina costumava dizer que ele entendia era de cenários. De arquitetura cênica, era ela que sabia, lembra o amigo, diretor e professor B. de Paiva.

Como mestre-de-obras, Dulcina obedeceu aos traços gerais de Niemeyer para o prédio da FBT, mas buscou a qualidade cênica na feitura do teatro, sobretudo, no quesito acústica. Com o croquis original em mãos, o arquiteto Thiago de Andrade confirma estar diante de teatro que adquiriu valor cultural importante para Brasília. Mérito, reconhecido por decreto do Governo do Distrito Federal (GDF), em 7 de dezembro de 2007, que tombou o “Teatro Dulcina de Moraes e os acervos fotográficos, textual e cênico da atriz.”

— Não só pela trajetória histórica de Dulcina. Mas por ser o único símbolo de resistência em local onde outros equipamentos culturais, como o Cine Atlântida (transformado em igreja evangélica), foram sucumbidos, destaca Thiago.

Na planta esboçada por Niemeyer, o Teatro Dulcina teria 600 poltronas. Foi inaugurado com 454 lugares (hoje, tem 400). O formato, no entanto, segue as orientações do criador, que preferia espaços longilíneos e com menor profundidade.

— Várias obras dele seguem esse modelo, que aproxima platéia e palco numa proposta mais popular. Aqui, tem um balcão, que apesar em desuso, ganha importância fundamental para esse tipo de arquitetura”, completa Thiago.

Como mestra, Dulcina tratava o espaço como sagrado. As aulas inaugurais eram ali, com poltronas 100% ocupadas em fase áurea, com nove cursos superiores de arte em funcionamento. A prova de habilidade para o vestibular tinha até sessão pública.

—Ela ficava ao centro da banca de avaliadores. Quando a platéia se manifestava inadequadamente, pedia silêncio. Participei da última, em 1995”, lembra Lúcia Andrade, hoje professora da instituição.

Ocorria também a solenidade de formatura, na qual era simbolicamente entregue, ao melhor aluno, a réplica do bastão de Molière.

— O nosso teatro tem uma área aproximada de mil metros quadrados. Muita gente chega a pensar que a platéia é menor que o palco (ri). A boca de cena tem 20 metros de comprimento por 16 de profundidade. O sistema de luz e som são automáticos. Temos 10 camarins para os atores, todos com banheiros privados, que ficam no subsolo. Temos toda a engrenagem do teatro à nossa disposição: cenografia, serraria, carpintaria, contra-regra e guarda-roupa. O palco e a platéia são, como direi, elásticos, podemos transformar em teatro de arena ou de módulos, descreveu Dulcina numa entusiasta entrevista ao ex-aluno e pesquisador Simon Kfoury no projeto Série Teatro Brasileiro.

Com uma única reforma desde a inauguração, a jóia de estimação de Dulcina de Moraes perdeu o brilho com a ação do tempo. Hoje, tem visíveis problemas. O madeiramento do palco está comprometido; o urdimento, desgastado; o carpete, arrancado pelo excesso de fungo; as poltronas, estragadas e a fiação elétrica, exposta em emendas e gambiarras. O ar-condicionado é o mesmo desde a inauguração, em 1981. Tem que ser ligado duas horas antes para manter uma temperatura aceitável. Por todo canto, há baratas. Sucateado tecnologicamente, possui cabine de luz do século passado, que se comunica com um esquisito camarote, aberto após a morte de Dulcina.

— Outro dia, tivemos que atrasar o começo do espetáculo porque a cortina não abria, conta o professor e diretor Francis Wilker.

— As áreas mais comprometidas são as do foyer, banheiros e galerias de acesso. Os camarins estão precários, enumera Thiago.

Apesar da urgência da obra, ainda não houve uma discussão com as autoridades públicas sobre o projeto de recuperação.

— A ação de tombamento foi importante porque temos um processo na justiça com INSS, que poderia levar toda a obra de Dulcina mais uma vez a leilão. Temos um projeto detalhado em mãos, exibe esperançoso Guilherme Cabral, presidente da FBT.


Texto publicado em 2008, época do centenário de Dulcina de Moraes

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