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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Senhora professora, Dulcina de Moraes


Em sala de aula, Dulcina de Moraes pregava a sacralidade para pisar no palco. Olho no olho, dizia para os aprendizes que era preciso amor e dedicação ao teatro
Sérgio Maggio
Ao evocar a memória dos tempos de sala de aula na FBT, em Brasília, a atriz Françoise Forton começa a visualizar Dulcina de Moraes. Ela aparece vivíssima aos seus olhos. De óculos enormes, toda arrumada, com a boca vermelha de batom. Junto à imagem física, forma-se a mulher agitada, com sede para ensinar aos aprendizes o valor da ética, o amor e o respeito ao teatro.
— Sinto a minha perplexidade em estar diante dela. Lembro de ler para a classe uma peça fazendo todos os personagens, com a emoção de cada um deles. Era fantástico. Ela me levava ao palco e mostrava o cajado de Molière e o significado das três batidas. Depois, mostrava o seu acervo. Era fantástico, suspira a atriz que integrou a primeira turma de 1981. No primeiro dia de aula, Dulcina de Moraes entrava altiva e, com “olhar enigmático”, perguntava:
— O que você veio fazer aqui? Por que você quer fazer teatro? Só existe uma razão certa: o amor. Amor pelo teatro e pela profissão. Os alunos ficavam desconcertados, entreolhavam-se “num silêncio trágico”.
— Ela entrava para assombrar nossas fisionomias… tentando arrancar alguma fagulha de inteligência de nosso mais tenro semblante. Dulcina tinha as respostas que eu queria ouvir. A esfinge de cabelo escarlate era uma mulher de altivez generosa sobre nossas convicções rudimentares, narra o ator, diretor e dramaturgo André Amaro, no livro Teatro Caleidoscópio.
A atriz Dora Wainer ainda lembra do nervosismo da aula inaugural. Não esquece do brilho de Dulcina ao centro da classe. Aluna da primeira turma da FTB, compreendeu observando-a a noção de ritmo, o tempo da frase.
— O que me marcou muito foi o trabalho de texto. Ela era extremamente exigente com a palavra. Quando alguém interpretava de forma displicente, virava as costas, passava batom. Fazia algo para mostrar o quanto a pessoa estava horrível. Se fosse o contrário, ela começava a vibrar com o corpo. Olhava e já marcava o compasso. Uma vez, decorei o texto como uma música, sem apresentar nenhuma variação, uma ironia. Fui absolutamente canastrona. Ela me arrasou e disse que não havia uma palavra de verdade no meu texto. Foi uma grande lição, lembra Dora.
Dulcina adorava passar o tempo na FBT.
— Porque as aulas são teatro. E eu estou contribuindo, como tantas outras pessoas, para distribuir conhecimento, a noção de responsabilidade do teatro. O prazer do teatro. Eu gostaria que meus alunos sentissem que as artes, sobretudo o teatro, além de ser uma atividade profissional, deve e pode ser uma fonte de alegria, de realização profissional, plena. Conseqüentemente, de felicidade.
A noção do teatro como templo e espaço sagrado marcou a formação dos aprendizes. O ator, diretor, produtor e idealizado do Cena Contemporânea Guilherme Reis e a atriz Mariane Vicentini, os dois também integrantes da turma de 1981, destacam essa consciência adquirida a partir das discussões propostas pela professora.
— Era emocionante está junto com ela. As lembranças são do ensinamento de um teatro clássico. O respeito à sacralidade do palco. A visão do espaço que não podia ser utilizado de qualquer forma. Ela baixava os seus olhos na direção dos nosso, quase cuspia na gente, dava uns tampinhas na cara e dizia para ler mais. Um ator tem que ler tudo, ri Guilherme.
— Tinha o sentido de teatro como tempo. Respeito e disciplina para se preparar antes de subir no palco, um grande templo. O respeito pela platéia, a reverência ao público. A importância do silêncio, de ouvi-lo, completa Mariane.
A mestra ensinava que a primeira palavra de uma peça avisava ao público se seria uma montagem boa ou ruim. Waldez Ludwing lembra da preocupação de Dulcina com a qualidade do texto dito ao público. Ele contracenava com a atriz em Bodas de sangue, um dos marcos do repertório de Dulcina.
— A primeira palavra era Mãe, dita por mim a partir da coxia. Eu dizia Mãe e Dulcina respondia o que é? Ensaiamos exaustivamente essa entrada. Nessa montagem de 1983, a gente usava o mesmo figurino da peça original, com coreografia do Fernando Azevedo. Ao final, tinha o monólogo memorável dela, conta Waldez, hoje faz palestras em empresas Brasil afora.
Ver Dulcina de Moraes em Bodas de sangue foi inesquecível para a turma de formandos de 1983. Dora Wainer lembra de um dia em que nos agradecimentos recebeu mais aplausos que o companheiro de cena. Na apresentação seguinte, a mestra a chamou e perguntou.
— Você viu o que aconteceu ontem?
— Sim, respondeu, Dora.
— A vaidade é um demônio de olhos verdes. A partir de hoje, você vai entrar junto com o seu companheiro na hora dos agradecimentos.
As superstições de Dulcina também invadem à memória afetiva dos ex-alunos. O último dia da temporada, por exemplo, era o chamado “enterro do espetáculo”, no qual se podia fazer todas as brincadeiras, deixas e cacos. O que não era permitido de jeito nenhum: assobiar no teatro.
— Era o chamamento do capeta, dizia Dulcina, que chegava ao teatro duas horas antes para se concentrar com aqueles óculos fabulosos, destaca Waldez.

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