Languages

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O eterno Guardião de Dulcina

Foto: Paulo de Araújo

Educador, ator e diretor conheceu Dulcina de Moraes na década de 1950. Virou parceiro e amigo de todas as horas
Sérgio Maggio
B. de Paiva numa vai esquecer o dia em que ficou diante de Dulcina de Moraes. Era 1954 e ele tinha ido ao encontro da dama do teatro brasileiro levar um recado de Paschoal Carlos Magno. Foi empatia à primeira vista. Em comum, os dois desenvolveram a louca paixão pelo ensino das artes cênicas. Tempos depois, estariam juntos na Fundação Brasileira de Teatro (FBT), na transferência do Rio para Brasília. Braço-direito de Dulcina. B. de Paiva viu o sonho dessa pioneira florescer na nova capital federal. Aqui, os dois compartilharam alegrias e angústias. O cearense, que migrou para o Rio porque queria fazer teatro, foi parar sob os cuidados de Paschoal Carlos Magno. Virou ponto profissional e ficava soprando o texto para atores do porte de Procópio Ferreira. Acompanhou o processo vertiginoso de modernização do teatro brasileiro e virou diretor respeitado. Em Brasília desde 1980, é uma das figuras mais cultas do meio cultural da cidade. “Aos 19 anos, tinha lido as obras completas de Shakespeare”, orgulha-se, aquele que é o guardião da obra de Dulcina de Moraes.
Neste centenário de nascimento, o senhor acredita na manutenção do sonho de Dulcina de Moraes em prover a FBT como centro irradiador de artistas?
Esse sonho a gente tem que perseguir. Se hoje a Fundação está nesta situação de dívida, era porque havia uma greve em 1987. Na época, estávamos com 1.226 alunos em nove cursos superiores. A paralisação de oito meses provocou uma perda de 60% dos alunos, que saíram sem pagar os atrasados, enquanto a instituição herdou todas as dívidas trabalhistas com os professores. Dulcina colocou todo o dinheiro dela aqui e, nesse momento de crise, não recebeu nenhum socorro.
Dulcina recebeu ajuda dos governos para erguer a FBT em Brasília? Dulcina não tinha nada que ver com política. Ela veio pra cá a pedido de Juscelino. Quando chegou, o cenário já era o do regime de 1964. Todas as poltronas desse teatro, por exemplo, foram dadas com dinheiro do bolso do presidente Figueiredo. A mulher dele, dona Dulce, era uma entusiasta da obra. Médici não pedia um espetáculo de teatro… A obra rolou por anos. Foi a venda do Teatro Dulcina de Moraes, no Rio, para o Serviço Nacional do Teatro, que foi decisiva. Com aqueles 2, 550 milhões de cruzeiros, ela construiu o seu sonho.
O senhor acredita que as pessoas sabem da importância de Dulcina de Moraes?
Ninguém tem um aprofundamento maior sobre a história de Dulcina de Moraes. Se você observar que ela organizou, em 1959, o primeiro encontro nacional de teatro, com grandes nomes da inteligência nacional, como Raimundo Magalhães Jr., Bibi Ferreira e Paschoal Carlos Magno. Odilon Azevedo fez cem anos, em 2003, e ninguém lembrou. Dulcina foi a única atriz brasileira que representava, com perfeição, em português e espanhol, em turnês de meses em Portugal, Argentina e Uruguai. Ela trouxe os primeiros grandes autores modernos dos Estados Unidos para o seu repertório. Anualmente, fazia festivais com os alunos no Municipal, onde lançou nomes como Rubens Corrêa e Ivan Albuquerque. Depois, resolveu inventar um festival de teatro amador, que encenou pela primeira vez O auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Quis abrir uma representação da FBT em cada estado brasileiro, mas acabou desistindo para se dedicar à construção em Brasília, que demorou muito tempo.
A memória de Dulcina está preservada?
Poucas pessoas tiveram uma biografia como a que Sérgio Viotti fez de Dulcina, isso já é fantástico. Depois, temos o depoimento de Simon Khoury, que é muito bom. Tudo que ela fez continua ser respeitado. O problema é que os brasileiros não lêem, não guardam nem refletem o momento da história. O que é importante ficar na memória é que, além de grande atriz e boa encenadora, Dulcina de Moraes é a responsável pelo moderno ensino brasileiro de artes cênicas. Tenho em mãos o original taquigrafado do Anais do Congresso Brasileiro de Teatro de março de 1959. Ali estão as idéias de Dulcina de Moraes e a nata da intelectualidade, como Joracy Camargo, Sábato Magaldi, Rugerro Jacob discutindo o futuro do ensino. Esse documento é fundamental.
Dizem que Dulcina alterou o projeto de Niemeyer?
O prédio seguiu o projeto, mas o teatro ela modificou alguma coisa. Dulcina tinha intimidade com a família. Lilian Nunes, irmã mais velha de Niemeyer, era professora da FBT. Então, ela dizia para ele: você entende de cenografia, eu entendo de teatro. Ela, por exemplo, fez essa boca de cena maior preocupada com os alunos. Pretendia lançar o que havia de mais moderno nos Estados Unidos. Então, tudo foi preparado para que o palco fosse rotativo. No fosso, há esse corte. Niemeyer imaginou, por exemplo, um jardim suspenso no quinto andar. Mas, com a crise, tivemos que abrir pavimentos de sala de aula.
Uma das atividades do senhor no teatro foi a de ponto (profissional que soprava o texto da boca de cena para os atores). E Dulcina veio e pôs fim a sua função…
(risos) Graças a ela, ganhamos o descanso às segundas. Antes, o teatro estava no gosto do povo, era de segunda a segunda, com várias sessões diárias. Falava-se muito que Os Comediantes modernizam o teatro brasileiro, com cinco ou seis estrangeiros, trazidos por Franco Zampari. Dulcina já estava nesse processo. Ela trazia para cá o que acontecia de importante nas outras companhias. Tinha um certo distanciamento brechtiano, embora levasse para os seus alunos a influência do teatro herdado pelo pai português e a mãe cubana. Já Odilon era muito culto, um talento reconhecido pelo Monteiro Lobato, era o paralelo cultural.
Dulcina tinha ritos importantes no teatro...
Dulcina filosoficamente era espirita. Em contextos especiais, proibia que se usasse o teatro. Dizia que falava com a irmã morta no palco. Uma vez enchi o palco de areia para fazer As troianas e ela ficou furiosa. Depois, esqueceu. Era uma pessoa maravilhosa.
O relicário de Dulcina é espetacular. O senhor tem esperança da recuperação e exibição deste material ao público?
Sim, de vê-lo, ao menos, higienizado. Se foram capaz de recuperar a primeira múmia de milhões de anos antes de Cristo, por que não salvariam esse acervo de Dulcina? Mais cedo ou mais tarde uma instituição museológica vai cuidar desse material. Se você chega na França, encontra um museu pra visitar os vestidos de Sarah Bernhardt. Aqui, nós temos trajes históricos de Dulcina em Bodas de sangue, por exemplo. Dulcina sonhava em fazer o acervo dela, mas infelizmente muita coisa o cupim comeu
.
É verdade que o senhor tem diários secretos de Dulcina?
Tenho álbuns com recortes de jornais que ela fazia. Tenho cadernetas de anotações. Mas, sobretudo, tenho uma fita em VHS com imagens de Dulcina e Paulo Autran no lançamento da campanha Viva Dulcina, pouco antes dela morrer. É um documento raríssimo que quero transformar em DVD.

Nenhum comentário: