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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Entrevista// Sérgio de Carvalho (Cia do Latão)


Mariana Moreira


Essa é a primeira vez que o Latão ocupa um teatro em Brasília. Como é estar aqui? Existe um simbolismo diferente de estar aqui, por ser uma cidade que simboliza esse status quo que vocês questionam?
Viemos a Brasília em 98, com Santa Joana dos Matadores, depois com A comédia do trabalho, em 2001. Estivemos para vir outras vezes mas, por acidentes da vida, tivemos que cancelar em cima da hora. O próprio Cena tinha convidado a peça O círculo de giz caucasiano para vir, ela estava na programação, divulgada, ingresso vendido, mas cancelamos por um problema de saúde. Tem esse simbolismo, na medida em que é o centro político do país. É um lugar de muitas contradições, extremos sociais, tem um laboratório político ocorrendo na rua. Ao mesmo tempo, sinto também que como o teatro acontece numa escala pequena, depende de uma irradiação. Atinge pouca gente, quantitativamente, mas quando atinge é muito intenso. Isso ecoa por anos, você atua no tempo. Dei uma oficina semana passada, num curso de direção. Muita gente lembrava de Santa Joana, marcou a vida de pessoa, mudou o jeito dela pensar teatro. Essa influência sobre o próprio movimento artístico da cidade também é muito importante, para os interessados na relação entre arte e política.
Vocês circulam por praças muito vinculadas a um teatro dramático e se apresentam para um público acostumado a ele. Como tem sido a receptividade?
Tem sido excelente. E não é uma peça dramática. Quando ela começa, você tem dificuldade de saber quem seguir, onde está o conflito. Mas se está atento, entra na história por meio dos coletivos. Isso demora mais. É uma forma épica, diferente. Mas ao mesmo tempo, pode ser emocionante pra quem acompanhou. A gente procura trabalhar com uma forma crítica, não comum, não dramática, mas interessante, popular, no sentido de ter um diálogo de matéria-real. Ontem, os técnicos do teatro estavam todos se divertindo com a peça. Sinto que ela perturba mais o meio cultural. Quem tem mais dificuldade de compreensão dela são artistas, e não as pessoas comuns. É difícil enfrentar a ideia já pronta que alguns deles têm sobre o que o teatro deve ser. Ele analisa a forma antes de entrar no assunto e as pessoas comuns vão se deixando levar pelo que importa e têm uma compreensão mais aguda. É possível fazer uma arte experimental, não comum e de interesse amplo para qualquer espectador, que não tenha pré-requisito cultural.
Vocês estão há 15 anos retratando um Brasil de exploração do trabalho, de desigualdade agrária e outros embates. Que Brasil é esse que vocês retratam e o que foi mudando?
O que importa n ão é denunciar uma coisa que as pessoas já sabem, é mostrar o processo pelo qual às vezes o processo de exploração já está automatizado. Um trabalhador arrebentado adere à lógica dominante. Por que ele pensa como capitalista? Por que a ideologia opera nele? Que automatismo é esse? A gente procura mostrar isso nas suas contradições. É um teatro da ordem das contradições. O espectador que olhar e ver aquela imagem, deve pensar: é real, mas não devia ser assim. Não tem nenhum sentimentalismo sobre o estrago social, mas tenta entender o processo. É um país que vive contradições enormes. Houve avanço social nos últimos, mas a lógica do mundo mercantil, a lógica do capital, que acha que só há salvação dentro desse sistema, continua forte. Isso é uma mentira. Não há emancipação pela adesão à mercadoria, ela tem custo. A gente é crítico com esse discurso despolitizador da economia que cresce e dá certo. Não é verdade. Esse crescimen to tem que base, vai para onde, quem está crescendo mesmo? Nossa peça critica essa adesão ideológica.

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