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domingo, 14 de agosto de 2011

Tesão aos 60


Mariana Moreira

Sérgio Maggio

Publicação: 14/08/2011 08:00 Atualização:

 (Kléber Lima/CB/D.A Press)


Alexandre Ribondi é quase um sessentão. Está com o sorriso largo, fazendo turnê na Bahia e levando o público às gargalhadas com suas inconfidências sobre sexo. O tempo de teatro é também motivo de festa. São quatro décadas de trabalho árduo, colhendo aprendizado e força para superar dificuldades, como o enfrentamento com a ditadura militar e a falta de apoio para transformar um texto numa peça. “Teatro é minha maneira de me entender com o mundo, de falar com o mundo, de raspar no mundo, porque a arte é nossa maneira de deixar a marca da raspada.” Em cartaz com Sexo ao 60 e outras mentiras, às 19h, e A última vida de um gato, às 21h, no Teatro dos Bancários, ele comemora tudo com tesão impressionante.

Suas peças sempre saíram de Brasília ou esse movimento começa agora?
Agora. Nós, da Cia. Plágio de Teatro, nunca tínhamos feito. Estamos investindo mais nesse veio de produzir aqui, porque o mercado brasiliense é pequeno, pelo fato de a cidade ser pequena. O que conta mesmo, em termos de teatro, é um pedaço muito pequeno da população. Mesmo que Brasília tenha quase 3 milhões de habitantes, a parte que frequenta teatro é reduzida e se concentra no Plano Piloto.
Imaginou chegar aos 60 fazendo rir?
A ideia da passagem do tempo, de eu estar fazendo 60 anos não me diz respeito. Penso em outras complicações da vida. Mas é óbvio que estou fazendo 60 e vejo o que acontece comigo. É como a adolescência outra vez, o corpo muda, a pele, a voz, a cor do cabelo, mas é maravilhoso. Se eu soubesse que ficar mais velho era tão bom, tinha ficado antes. Eu esqueço, subo escada de dois em dois lances. Por que não faria isso se me sinto bem e ágil dentro do meu corpo? Sou serelepe, vou dormir às 3h, às 4h da manhã na boa. Tem o sexo, que já começa a ser uma outra aventura.

Você chegou a ser preso pela ditadura…
Cheguei a ser preso e torturado em Brasília. Tenho certa relutância em falar disso porque algumas pessoas da minha geração fizeram disso um estandarte. Outros, uma profissão: vítima da ditadura. Vira uma coisa meio piegas. Tem pessoas que me olham meio como herói e eu digo: não é heroísmo, era uma contingência da minha geração, que cresceu vendo polícia entrar na sala da universidade para prender colegas, indo nos bares, sentando de mesa em mesa, pedindo documento e levando quem queriam levar. Não tinha muita escolha. Você tinha que sair pra luta. E as consequências eram essas: monstruosas, sem nenhuma legalidade, e tortura é sempre tortura. Pensava que teria muita raiva pra sempre dessas pessoas. Não tenho não, tenho muita pena.

Se você cruzasse com seu torturador…
Cruzei, uma vez, aqui em Brasília, em um banco. Fiquei parado, olhando pra ele. Ele não sabia. Perdôo no sentido mais humano possível, sim. Mas esquecer, jamais. Não tenho aquela angústia de querer me vingar. Acho ele um infeliz, uma pessoa profundamente infeliz, monstruosa. A alma dele deve ter mau cheiro, para ele fazer tudo o que fez.

O teatro foi fundamental para lhe tirar dessa situação?
Me ajudou a passar por tudo isso, porque a gente ria muito. Ajudou a passar, inclusive quando a minha casa foi invadida, toda arrebentada pela polícia, porque acharam que eu era uma pessoa extremamente perigosa. Nunca fui de nenhum partido, mas acompanhei a criação do Partido dos Trabalhadores (PT), que foi muito importante pra minha geração. Mas sempre fui do partido do teatro.

Por que você ficou tão visado?
Primeiro, porque a ditadura era paranóica, ela considera tudo absolutamente errado se você não fizesse de acordo com o que ela queria. Era doente, tinha mania de perseguição e nós éramos grupo de teatro em Brasília nos anos 1970, morávamos juntos, discutíamos ideias juntos, fazíamos apresentações dentro da universidade, dentro da biblioteca, dentro das salas de aula. Discutíamos questões que diziam respeito à juventude, não só à democracia e ao fim da ditadura, mas a sonhos da juventude e a polícia não podia compreender isso nem admitir que alguém ousasse dizer o que ela não queria. Daí passaram a perseguir o grupo e a nos prender. Mas eu mesmo nunca fiz um trabalho subversivo ao pé da letra. Nunca soltei bomba, nunca peguei em arma. Distribuía panfletos. Mas o teatro era muito visado. Eles invadiam teatros, batiam nos atores e censuravam tudo.

Em algum momento, você pensou em desistir do teatro?
Nunca. Seria impossível. É como desistir de escrever, de olhar pro mundo como jornalista, ler um jornal como jornalista. Teatro é minha maneira de me entender com o mundo, de falar com o mundo, de raspar no mundo, porque a arte é nossa maneira de deixar a marca da raspada. É a minha maneira de refletir sobre o mundo e sobre as pessoas, principalmente, sobre o que passa no coração delas. Sou um observador, adoro observar. Da minha parte, a companhia se chama Plágio porque fico plagiando o mundo, eu olho o mundo e copio. E o mundo copiando a gente.

Você está fazendo 40 anos de carreira…
Comecei em 1970. Quando tinha 7 anos, vi, lá no Espírito Santo, o filme Marcelino pão e vinho. Quando sai do cinema, disse pra minha mãe: quando eu crescer, quero ser ator. E minha mãe respondeu: “não criei filho para ser palhaço de ninguém.” Quando entrei na universidade, me encontrei com Laís Aderne, uma das grandes pioneiras do teatro em Brasília, ainda nos anos 1960. E aí comecei a trabalhar com ela, no grupo de teatro Mandala, e foi quando comecei de fato a ter um grupo de amigos a viver com pessoas com quem eu me sentia bem.

Você se lembra do seu primeiro sucesso?
Crepe Suzette, o beijo da Grapete, um ancestral do besteirol. É engraçado porque, em vários pontos do país, pessoas, sem saberem umas das outras, estavam começando a fazer o tipo de humor aparentemente descompromissado, possível num processo ditatorial. Era uma coisa com ícones e valores gays, que era o travestismo, as grandes divas do cinema, as novelas da TV Globo.

E o primeiro fracasso?
Você sempre lidou com o fracasso?
O primeiro foi uma peça chamada Filó brasiliense, uma peça sobre uma família nordestina que vem para Brasília e fica muito rica e autoritária, encarna a ditadura. Foi um imenso fracasso. O Correio fez uma crítica de página inteira, chamada A feia, fria e frágil farsa de Filó. Adorei esse título. Meteram o pau. Não tenho mais esse texto, infelizmente, senão remontaria. A partir daí, não vejo o fracasso como fracasso.

Como você lida com a classe?
As pessoas te olham como um mito?
Algumas pessoas da classe que são da mesma geração me veem como eternos companheiros de trabalho. A nova geração, eu percebo que quer aprender coisas, o que é natural. Acho que não crio muito essa imagem de mito, de mestre, de pessoa importante que está ali pra ensinar. Toda vez que começa um trabalho de teatro, estou ali pra gente trabalhar junto, aprender junto, discutir as ideias. Não tenho muitas soluções prontas quando trabalho. Sou de carne e osso. E gosto disso.

Existe um teatro brasiliense?
Vou falar da experiência que eu e a companhia estamos fazendo. Existe uma brasilianice muito evidente nele. Primeiro, a gente cria nossos textos e eles se referem muito a Brasília, à paisagem da cidade. Tem sempre uma personagem que diz: vou fechar a janela porque o vento do Lago é muito forte. As relações são brasilienses. Há uma espécie de solidão nas personagens, que é o brasiliense urbano, do Plano Piloto, que se sente solitário, entra no elevador e não cumprimenta ninguém. Existe também uma linguagem. Esse trabalho que a gente está desenvolvendo, extremamente realista e pequeno, tem a ver com as poucas condições financeiras que temos, por falta de um público enorme. Por falta de um mecenas.

Você viveu recentemente uma polêmica com um espetáculo Nunca fui santo!, que criticava a postura da igreja em relação ao uso de camisinha e ao controle de natalidade. Aquilo te magoou?
Eu sou católico, mas vi a cara da besta naquela hora. Fui falar com alguns padres na Cúria Metropolitana. Eles me trancaram dentro de uma sala e me ameaçaram. Fizeram um teatrinho da ditadura. Parecia que iam me torturar lá dentro. Apontavam o dedo para o meu nariz, gritavam e eu ficava olhando pra eles. Cheguei a perguntar se estavam imitando a ditadura. Começava a rir. Foi terrível ver o autoritarismo histérico da igreja, que vê que está perdendo espaço e controle das mentes e dos corações. Se ela interfere na vida laica, nós temos o direito de criticar a igreja. A temporada tinha um segurança na porta do teatro e outro no palco. Tinha muito telefonema com ameaças, ameaça de bomba, quebraram loja de patrocinador.

Como você se inspira?
Observando as pessoas em bares, em aeroporto, em restaurante, ouvindo frases da outra mesa, de alguém passando por mim. Me inspiro muito também vendo cinema. Também memórias familiares.

Algumas pessoas rotulam sua dramaturgua de homoafetiva ou gay. Você acha que cabe esse rótulo?
De maneira nenhuma. Nunca escrevi uma peça que tratasse da questão homossexual. Mas já escrevi algumas peças que tratam da questão da alma vivida por homossexuais.

Você acha o casamento gay careta?
Não. Acho que tem questões legais que devem ser levadas em consideração, como saúde, herança, direito à propriedade, porque já vi algumas barbaridades serem cometidos por não terem esse amparo. Mas não tente nunca imitar um casal convencional, porque não é.

Aos 60, ainda se apaixona?
Loucamente. Tem que repetir todos os dias: não vou mais passar por essa. Aí passa, e vem tudo outra vez.

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