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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Rubens Corrêa, a fúria


Sérgio Maggio

Publicação: 25/08/2011 09:03 Atualização:

 (Xico Lima/Divulgação )




















Há uma unanimidade em torno do ator Rubens Corrêa, que é sustentada até hoje, 15 anos depois de sua morte: a de intérprete excepcional, daquele que crava na memória do espectador a performance feita no palco e não deixa que o tempo apague a intensidade com que conduzia a cena. O jornalista, diretor, ator e dramaturgo Sérgio Fonta é testemunha da experiência marcante de ter ficado diante do artista. Em 1971, ele viu a montagem de O arquiteto e imperador da Assíria, texto de Fernando Arrabal, e ficou tão abalado que o encontro reverbera agora em forma de livro. Um salto para dentro da luz, da Coleção Aplauso, descortina a vida intensa de um dos maiores criadores do palco brasileiro. A obra será autografada pelo autor no sábado, às 16h30, no Auditório 2 do Museu Nacional Honestino Guimarães (Complexo da República), dentro da programação do Cena Contemporânea.

Nas reminiscências de Sérgio Fonta, o espetáculo surge potente no Teatro Ipanema, administrado por Rubens Corrêa e Ivan Albuquerque, que fez história, sobretudo, pelo alto nível das montagens. Ele viu o espetáculo 10 vezes e lembra detalhes:

— Ao entrar na pequena sala do Teatro Ipanema, com suas 280 cadeiras, o público deparava-se com uma espessa floresta verde (…) Quando o espetáculo começava, a luz mudava e percebia-se que a mata densa era a distribuição de longos fios repletos de pedaços de jornal vindos do texto e iluminados por refletores com gelatina verde que cobria toda a plateia. Os fios eram recolhidos, desapareciam como por encanto de nossos olhos e, então, iniciava-se O arquiteto e o imperador da Assíria, com poucos objetos cênicos, o palco praticamente nu, um barulho ensurdecedor para anunciar a chegada do homem que vinha de longe, o imperador.

Teatro de atorVinda de O Tablado, de Maria Clara Machado, a dupla Ivan Albuquerque e Rubens Corrêa inaugura o Teatro Ipanema em busca de profissionalização e experimentação. A estreia põe em cena o clássico O jardim das cerejeiras, de Tchecov, com um elenco de primeira grandeza (Vanda Lacerda, Vera Gertel, Ivone Hoffman, Nildo Parente, Hélio Ari). Havia uma preocupação forte do grupo do Teatro de Ipanema aliar um dramaturgia potente com um refinado trabalho de ator, apoiado numa direção que valorizasse a composição das personagens. O intento é conseguido de primeira. Rubens Corrêa, por exemplo, é incensado pela crítica pelo papel de Trofimov. Mas o sonho seria interrompido com o decreto do AI-5 meses depois da casa de espetáculos ter a porta aberta ao público.

— A montagem de O jardim das cerejeiras integrava o projeto batizado de Ciclo Russo, que englobava essa peça de Tchecov, ao lado de Diário de um louco, de Gogol, carro-chefe de Rubens, e A mãe, de Gorki, em versão de Brecht, trilogia jamais completada: em 13 de dezembro de 1968, o malfadado AI-5, por um extenso período, calaria a arte, as vozes, o cidadão, a liberdade. Dois dias depois, encerrava-se a temporada de O jardim das cerejeiras e estava suspensa a montagem de A mãe, conta Sérgio Fonta.

Nem a força brutal da ditadura poderia parar a volúpia de Rubens Corrêa no palco. Em 1971, um dos maiores sucessos do teatro brasileiro se estabeleceria no Teatro de Ipanema: Hoje é dia de rock, peça do autor mineiro José Vicente, que já tinha dado a Rubens e Ivan um bem-sucedido trabalho anterior, O assalto. O espetáculo ficou um ano em cartaz e abarrotou o teatro num boca a boca que contagiou a cena carioca. A última sessão, antológica, terminou na Praia de Ipanema. O autor Sérgio Fonta reúne detalhes da montagem num capítulo delicioso, chamado de As sete maravilhas do palco, em que descreve os grandes desempenhos de Rubens Corrêa. É claro que está ali, em Diário de um louco (1964), que põe Rubens Corrêa no panteão dos grandes intérpretes.

—O que posso lhes dizer, leitores? O que posso lhes dizer quando vejo um ator completo em cena? Um ator que até alguns anos atrás possuía um sem-número de deficiências técnicas, da voz ao físico e que, pouco a pouco, lutando com os outros e consigo próprio, gastando a alma e o dinheiro na profissão, conseguiu superá-las uma a uma, escreveu o crítico Fausto Wolf.

O passeio pelo quase 600 páginas de Um salto para dentro da luz é um convite a acompanhar a saga de uma fúria chamada Rubens Corrêa, tão intensa quanto uma das suas maiores influências, Antonin Artaud.


UM SALTO PARA DENTRO DA LUZ
De Sérgio Fonta. Coleção Aplauso. Imprensa Oficial, 573 páginas. Lançamento sábado, às 16h30, no Auditório 2 do Museu Nacional Honestino Guimarães (Complexo da República).

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