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terça-feira, 2 de agosto de 2011

O mestre B. de Paiva

Ator e diretor B. de Paiva reúne em fazenda objetos que marcaram a carreira

Mariana Moreira


Dono de uma prosa leve, cheia de “doidices”, como ele mesmo define, o ator, diretor e dramaturgo B. de Paiva é daqueles que não se desfazem de nada. Na lembrança, ele guarda histórias (algumas mirabolantes) da família, dos amigos e, principalmente, dos bastidores do teatro brasileiro. Em uma casinha ampla e arejada, perto da divisa com Goiás, o ator criou uma espécie de museu particular para reunir essas memórias. Os cinco cômodos que serviam como fábrica de iogurte na fazenda do amigo Jeová Sobreira, também cearense, guardam toda a “catrevagem”, ou quinquilharia, que reuniu na vida.


"Ensino as pessoas a envelhecerem", diz B. de Paiva, ator, diretor e dramaturgo

São cinco cômodos forrados de cartazes de espetáculos antigos, como Bodas de sangue, de Federico García Lorca, única oportunidade em que o ator contracenou com a amiga Dulcina de Moraes, e Davi, o rei, que teve a imagem de divulgação censurada, em razão da nudez da estátua de Michelangelo. Retratos de ícones da cena teatral do Brasil, como Othon Bastos e Aderbal Freire-Filho, dividem as paredes com parentes, amigos, artistas cearenses e porteiros de teatro, todos no mesmo panteão, que ainda conta com daguerreótipos (precursores das fotos) do bisavô. Em uma parede, B. enfileirou fotografias suas, desde a infância mais tenra até os dias atuais. “Ensino as pessoas a envelhecerem”, diverte-se.

Cartazes de cinema estão por toda parte. Revistas antigas dividem as prateleiras com matérias recortadas de jornais e uma fartura de livros. Há desde vasta literatura especializada em teatro até enciclopédias, Bíblias, literatura em geral e coleções, como os volumes de capa dura da Rocambole, presente do pai, que o iniciaram no prazer da leitura. Em outra pilha, estão organizados os gibis do caubói Tex.

E ainda há espaço para “recuerdos” pessoais: artesanato de todos os tipos, xilogravuras da década de 1920, moedas antigas, uma coleção entomológica, uma rabeca, um projetor antigo, a bandeira de Juazeiro do Norte, um ferro de engomar e até uma lagosta de plástico estão em constante exposição. Só de estátuas de Jesus Cristo, ele calcula que sejam mais de 600.

O espaço só está disponível aos amigos e convidados, mas, no futuro, pode ser aberto para visitação. “Tive um convite da Universidade de Fortaleza (Unifor), querem fazer lá o espaço B. de Paiva. Desde que garantam que essas memórias fiquem guardadas… São coisas significativas pra mim.”

Homenageado do Cena Contemporânea 2011, que começa no dia 23 e segue até 4 de setembro, B. de Paiva completa 80 anos em 2012. Ao longo de sua carreira, iniciada aos 14 anos em Fortaleza, sua cidade natal, ele dirigiu, atuou e escreveu mais de 200 peças, além de filmes e novelas de televisão. Também trabalhou na área de políticas culturais, tanto no Rio quanto em Brasília, para onde se mudou na década de 1970. Fundou cursos de artes cênicas, coordenou a Funarte, foi reitor da Universidade do Rio de Janeiro (UniRio) e hoje dirige a Fundação Brasileira de Teatro, criada por Dulcina de Moraes. Durante a visita ao cantinho do ator, o Correio escutou alguns de seus (muitos) causos.


Antepassados
“Minha bisavó saiu da Paraíba em 1840, porque o marido foi assassinado e tomaram tudo que ela tinha. No Ceará, ela se hospedou em uma pensão pobrezinha e viu um velhinho dos Açores, pintor de igreja, e acabou se casando com ele. Esse português, meu bisavô, chegou ao Brasil na época em que Daguerre inventou seus daguerreótipos. Comprou uma câmera, dezenas de vidros e estricnina, o veneno usado na revelação das imagens, e abriu uma casa de fotografia. Anos depois, morreu envenenado. De brincadeira, deve ter levado a mão à boca, e foi para o céu.”

Galã banguela

“Sofri um acidente aos 6 anos, fui atropelado por uma ambulância, em Fortaleza. A invenção da ambulância foi péssima pra mim, me quebrou a perna e os dentes todinhos. Fui o primeiro galã de teatro do mundo que era banguela. Minha família era muito pobre e não tinha nem dentista que botasse dente em criança. A educação, naquele tempo, era boa. Papai me deu a coleção Rocambole, nove volumes grossos. Era bom demais. Aos sábados, ele me pedia para contar a história. Quando eu esquecia alguma coisa, era palmatória. Li como o diabo. Depois de ler muito, fui fazer teatro nos fundos de casa, com um grupo que batizei de Teatro de Quintal. Aos 14 anos, escrevi, dirigi e atuei em minha primeira peça.”

O presente

“Um dia, apareceu um cara lá na Casa do Estudante do Brasil, quando eu já morava no Rio e era secretário do Paschoal Carlos Magno (produtor, crítico, autor e diretor teatral). Ele era doutor, e o Paschoal pediu para ele me botar dentes. Eu disse que não queria, mas ele questionou: como é que pode um ator sem dentes? Botei os dentes e perdi minha voz, porque a minha musculatura labial mudou, mas Paschoal disse que eu já podia ser ator. O médico não quis cobrar a conta e o Paschoal tirou um quadro da parede e deu de presente pra ele. Hoje, esse quadro, que não me lembro mais qual é, vale uns R$ 500 mil. Ele bem que podia ter me dado o quadro, né?”

Brasília
“Vim a Brasília pela primeira vez em 1969, com a peça Um whisky para o rei Saul, de César Vieira, com Glauce Rocha no elenco. Na véspera da estreia, era preciso fazer o ensaio pra censura. O censor me disse: dona Glauce terá que suspender três expressões — ‘dei meus testículos para o bem do Brasil’ (uma sátira a uma campanha da ditadura: dei meu ouro para o bem do Brasil), a palavra merda, e não pode elogiar um homossexual. Decidi falar com o ministro da Justiça da época, Gama e Silva. Citei umas frases de um artigo dele sobre Monteiro Lobato, ele ficou emocionado, foi pra máquina de escrever e autorizou a peça exatamente como estava. Levei o documento para a Glauce, que me perguntou como eu tinha conseguido. Eu disse: ‘Sou um ator’. Representei essa peça em 12 estados, ela levou até um prêmio Molière.”

Arte-educação
“Quando fui diretor do Conservatório Nacional de Teatro (no Rio de Janeiro), uma funcionária me avisou que tinha uns rapazes fumando maconha na minha sala. Fui lá, disse que eles estavam malucos, conversei com eles. Um tempo depois, um desses meninos veio me perguntar se essa história de arte-educação ia dar certo. Respondi que estava trabalhando pra isso, tinha feito o primeiro simpósio sobre o ensino de artes no Brasil. Ele me pediu que o orientasse num trabalho sobre o assunto. Depois de cinco meses, julgamos que o trabalho estava pronto e ele me pediu para escrever o prefácio. Hoje, posso dizer que o escritor mais importante do mundo teve seu primeiro livro prefaciado por mim. Você deve conhecer: Paulo Coelho.”

O nome
“Meu nome é José Maria Bezerra Paiva, na Carteira de Identidade. Quando eu era rapazinho, adorava os filmes de Cecil B. de Mille. Então fiz uma carta pra ele, fazendo comentários sobre os filmes (em português) e pedindo algumas cópias. Assinei José Maria B. Paiva. Cecil B. de Mille mandou três cópias de filme pra mim, oito rolos de metal cada filme, e uma foto com dedicatória a B. de Paiva. Desde então todo mundo começou a me chamar de B. de Paiva, só a família me chama de Zé Maria.”

Nas alturas

“Morei em Campo Grande, no estado do Rio de Janeiro, para dirigir o projeto do Teatro Rural do Estudante. Um dia, o comandante da base aérea de Santa Cruz, a uns 20 minutos de trem da cidade, mandou me chamar e perguntou se eu poderia dar aulas de voz aos oficiais da Aeronáutica. Duas vezes por semana eu ia para a base aérea e dava aulas de dicção e representação verbal para os oficiais, que me fizeram um favor engraçado. Quando eu terminava os encontros, tinha que voltar para o Rio, porque dirigia o teatro da União Nacional dos Estudantes. O comandante mandava me deixarem lá num avião de guerra da Força Aérea Brasileira, que tinha uma boca de jacaré na frente. Tinha que usar até paraquedas.”

O ponto
“Precisava ganhar um dinheirinho, então trabalhei como ponto, em Fortaleza. Ficava numa cúpula na boca do teatro, a plateia não me via. Tinha uma luzinha e transmitia as falas. Trabalhei mais de dois anos no Teatro José de Alencar. Procópio Ferreira me pediu para ‘pontar’ de lado (me posicionar na lateral do palco). Ficava num banquinho e ele dizia: na hora em que me esquecer do texto, vou atrás de ti. Ainda ficava com a garrafa de cachaça dele. Toda vez que ele vinha, eu preparava uma cachacinha, ele tomava e voltava pra cena. Daí surgiu uma amizade grande. Almocei muitos domingos na casa dele.”

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