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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Ítalo Rossi muito além do bordão "mara"

Morto por problemas respiratórios, Ítalo Rossi está além do bordão
Morto por problemas respiratórios, Ítalo Rossi está além do bordão "mara"
A notícia da morte de Ítalo Rossi foi uma das mais comentadas nas redes sociais. Ontem, estava lá no top 10 do Twitter, nas mais compartilhadas do Facebook. Um dos maiores atores brasileiros no século 20 se despediu da vida acarinhado não exatamente pelo que construiu de nobre no palco, mas pela aparição num seriado de comédia de gosto popular.


O personagem Seu Ladir e o indefectível “mara”, de Toma lá dá cá, desempenharam o papel de apresentar o sofisticado intérprete às novas gerações, que habitam esse tempo oco de célebres e famosos arranjados com silicone, photoshop e futricas virtuais. Não há julgamento nisso. No entanto, aos 80 anos, o homem que se confundiu com o teatro parte deixando algo mais do que um potente bordão. Fica um rastro de centenas personagens, criadas nas labutas dos ensaios e na luta para fazer uma arte de primeira grandeza.

— Desde quando deixei de ser criança e passei a ser ator, já fiz mais de 480 personagens, mais de 480 vidas diferentes. Eu, sozinho, jamais poderia atingir a gama de situações, momentos, personalidades, amores, ódios, traições, magnitudes e heroísmos que esses tipos atingiram… Eles são tudo que eu não fui, eles são muito mais interessantes e verdadeiros do que eu, disse o ator, em depoimento a Simon Khoury, no livro Atrás da máscara 1.

O sacerdócio ao ofício era um dos conceitos mais emocionantes defendidos por Ítalo Rossi, menino criado sob forte e rígida influência europeia, educado para ser um diplomata ou um jurista, jamais um ator. Dos 8 aos 14 anos, tinha que ouvir óperas, falar outras línguas, ler obras fundamentais, como As preocupações do mundo, de Nietzsche, apreciar o balé e ir ao teatro “sério”. Estava sendo preparado para ser um aristocrata quando ouviu frases de um texto teatral pronunciadas na sala vizinha ao curso de inglês. Chegou lá e encontrou a diretora Haydée Bittencourt fazendo testes para a peça Calcanhar de aquiles. Amou tão profundamente aquilo que decorou todos os papéis do texto. Acabou, ironicamente, ganhando o personagem mudo e se jogou de braços abertos no palco.

— O bom é estar inteiro e completo dentro do teatro, eu sempre fiquei em segundo plano, minha vida sempre foi coadjuvante do teatro, ao qual me entreguei totalmente. Eu vejo a vida e vivo o teatro! Para mim, importante é só o teatro e tão belo quanto ele, só o mar.

Sina de ator
Ítalo Rossi surgiu pelas mãos do vicejante teatro amador, que ajudou a renovar e modernizar os palcos brasileiros, entre as décadas de 1940 e 1960. Foi visto em A corda, do Teatro Paulista Amador, por Ziembinski, e o diretor polonês, já uma lenda no período, o quis no elenco de Ralé. A família não deixou o rapaz virar ator de carteirinha. Mas era uma questão de tempo para ele estar contratado pelo cobiçado Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), ganhando o primeiro salário. Quando estava prestes a estrear a primeira peça profissional, Chá de bonecas, também com direção de Ziembinski, outro estrangeiro, o belga Maurice Vanneau, bateu os olhos no jovem ator e o “roubou” para fazer história na montagem A casa de chá do luar de agosto (1956).

— Ganhei o prêmio de melhor ator revelação no papel do japonês Sakini, passei a ter status e, da promessa que eu era em A corda, passei a ser realidade em A casa de chá do luar de agosto. A partir dessa peça, eu tive a certeza de que o teatro gostava de mim na mesma intensidade de que eu gostava dele.

Intérprete magnífico
Sem o porte de galã (ele já era careca aos 23 anos), Ítalo Rossi era um ator de composição de personagens. Possuía o dom do naturalismo e o domínio da consciência dos tipos, quando lhes emprestava uma complexa articulação física. Com maestria, fazia um velho de 110 anos, uma mãe ou um jovem de 20. Era um ator moderno numa cena em transição.

Em 1959, surpreendeu ao trocar o TBC pelo Teatro dos Sete, companhia que fundou ao lado de Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Gianni Rato e Sergio Britto. Entre as montagens, O mambembe, de Arthur Azevedo, e O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues, destacaram-se no repertório que se alternava entre textos clássicos e modernos, mas sem uma linha dramatúrgica marcante.

— Nossa companhia manteve por seis anos 10 atores contratados. Tivemos muito sucesso de crítica e tenho consciência de que o Teatro dos Sete contribui muito para a nossa cultura. Tínhamos despesas e o que nos ajudou a manter esse sonho foi o teleteatro que fazíamos na TV Tupi.

Numa carreira crescente, que se alternou comedida com o cinema e a tevê, Ítalo Rossi teve domínio sobre uma trajetória magnífica.

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