Languages

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Impressões de pele da Companhia do Latão


Sérgio Maggio

A palavra Casa escrita num quadro-negro é um símbolo clássico da alfabetização em língua portuguesa. O desenho simples de uma Casa rabiscado em giz é metáfora de proteção e de abrigo. Não demora mais de um minuto para que essas singelas imagens postas em cena em Sociedade mortuária, o primeiro módulo de A ópera dos vivos, da Companhia do Latão, desmanchem-se e traduzam a crueldade do poder que massacra os sonhos.

Enquanto tudo se desfaz no quadro-negro, um animal é largado sem cabeça e banhado de sangue à porta da casa e as telhas voam violentamente pelos jagunços que cercam os campesinos. A força do teatro épico da Companhia do Latão se estabelece na imaginação do espectador, sem que nenhuma cena seja erguida dentro da lógica do conflito e da representação do drama.

A esse ponto da narrativa, o jogo entre plateia e palco está ativado a ponto dessa construção ser dada pelo jorro da narração. Todo o complexo contexto histórico das Ligas Camponesas no Brasil da década de 1960 é posto ao alcance do campo da aprendizagem. É possível pensar criticamente a crise do movimento agrário no Brasil do século 21, em sua roda-viva de violência, a partir dessa retomada histórica posta no palco, com a raiz exploratória fincada num arcaico Nordeste.

Os núcleos dialéticos explodem na concepção das personagens concebidas pela Companhia do Latão e arrematadas num belíssimo percurso narrativo conduzido pelo diretor-dramaturgo Sérgio de Carvalho. A missionária norte-americana que entra em crise diante do sistema agrário e quase feudal brasileiro nos faz pensar na irmã Dorothy Stang, dizimada pelos donos da terra, enquanto o filho que teme o horror do aparato armado nos remete a tantos companheiros que fogem à luta pela persuasão implacável do sistema de mercado.

Numa montagem em que a forma reforça e expande o conteúdo, uma das premissas ético-estética de Sérgio de Carvalho, Sociedade mortuária faz da simplicidade o recurso mais preponderante da cena, por vezes, sofisticada pela dinâmica dos atores em cena e pela complexidade das muitas camadas que se seguem no palco. A simultaneidade dos focos de ação e as referências dramatúrgicas e históricas não se sobrepõem nunca à necessidade primeira de potencializar a aprendizagem da plateia, mas estão ali prontas para serem degustadas com refino e caminhadas para campos de conhecimento subjacentes.

A presença forte do teatro dentro do teatro em A camponesa remete ao importante papel histórico dos CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE, que, nos anos 1960, estava par a par no movimento revolucionário do campo. No jogo do Latão, o CPC surge sem precisar nomeá-lo, mas posicionando-o historicamente no corpo dos atores de tal forma que o grupo não só narra a problemática do Brasil rural pré-golpe de 1964 como se interliga a um teatro fortemente preocupado em repensar os problemas brasileiros. Uma missão evidente e confessa nestes 15 anos da Companhia do Latão.


Nenhum comentário: