Languages

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Gata Rainha

Teí Silva faz do ofício um exercício de criação e cidadania

Sérgio Maggio


Teí Silva monta textos de sua autoria com alunos da Escola Parque  (Iano Andrade/CB/D.A Press)
Teí Silva monta textos de sua autoria com alunos da Escola Parque
Em um dos braços da atriz e arte-educadora Teí Silva, habita uma gata negra, com ar de exibida, que ostenta uma imensa coroa de rainha. A tatuagem, uma das 10 espalhadas pelo corpo, é metáfora para entender o estilo dessa mulher que cresceu com um mantra na cabeça: “Você é mais”. Um dia, ela ouviu a frase da tia Julieta, uma professora de artes de mão cheia, e libertou-se do pequeno mundo de timidez e vergonha. De alguma forma, a frase funcionou como óleo para girar o motor propulsor que nunca a deixou parada diante de uma situação de discriminação racial, por exemplo.

Quando enfrentou esse tipo de situação, Teí puxou uma força inigualável de dentro de si. Foi assim quando dois garotos de classe média alta a despeitaram em sala de aula. Cheia de sonhos e de orgulho em transmitir o conhecimento, ela comandou uma classe de escola particular tradicional no Plano Piloto, quando foi enfrentada pelos adolescentes, que se autodenominavam skinheads. No desacato, ouviu a frase “ainda por cima é negra”. Pra quê? A coisa não prestou. Teí Silva subiu nas tamancas e bateu a cartilha, que até hoje deve ecoar nas cabeças desses dois elementos.

— Falei sobre educação, respeito às diferenças e contei como eu cheguei ali, por esforço, mérito e capacidade. Enquanto eles, do jeito que iam, só cresceriam pelo dinheiro dos pais e olhe lá.

Para se defender, Teí Silva aprendeu em casa que é preciso se impor. Pai e mãe, nordestinos e negros do Piauí, foram logo ensinando aos 13 filhos (a maioria envolvida com arte): aceitem-se como negros e não baixem a cabeça na hora em que o preconceito cortar a carne como uma navalha. A regra serviu a Teí um dia, quando um segurança de shopping a abordou acusando-a de ter roubado roupas de uma loja de departamentos.

— Era Natal e meu pai tinha me dado dinheiro para eu comprar presentes. Tinha adquirido também roupas numa loja de marcas. Enquanto eu era acusada, dizia, nervosa, ao segurança: Tá vendo essa manga dessa camisa aqui? Não paga essas roupas todas da sua loja de departamento. Posso ter sido arrogante, prepotente, sei lá, mas ali era a defesa à minha dignidade.

Da cor da paixão
Dona de cabelos vermelhos da cor da paixão e roupas estilosas, por vezes autorais (criadas e costuradas em casa), ela segue altiva e certa de sua autenticidade. A autoestima está a serviço do apaixonado ofício de arte-educadora no ensino público — há 13 anos leciona na Escola Parque da 210 Sul, depois de passar com orgulho por escolas de Ceilândia e do Gama. No exercício de professora, tem a liberdade de montar com os alunos os textos que escreve e outros adaptados. Já fez peça com os contos de Oscar Wilde. Botou também a história de A Bela Adormecida pelo avesso. De papel-cartão e materiais reciclados, faz cenários belos e funcionais. Também desenha e costura os figurinos dos alunos. Apesar do esmero em fazer tudo benfeito, o objetivo ali não é montar um espetáculo, mas fazer daquela experiência um importante aprendizado de vida e consciência para cada aluno.

— Sei que respiro arte. Sinto uma emoção muito grande quando vejo meus alunos em cena.

Quando está fora de sala de aula, Teí Silva corre para assistir aos espetáculos em cartaz na cidade. Frequentemente, vai a São Paulo tomar uma banho de novidades. Bienal, montagens alternativas, cinema alternativo. Quando volta a Brasília, inunda seus projetos de ideias. Diante do palco, sente também uma enorme saudade dos tempos de atriz profissional. Sempre que vê um espetáculo que lhe toca, chora e morre de vontade de voltar a atuar. Começou o trabalho de atriz adolescente, em oficina de Ricardo Gutti. Depois, emendou com uma companhia experimental do Sesc, comandada por Hugo Rodas, e com os cursos de bacharelado e licenciatura da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes.

— Teve um período em que eu abria as exposições de Fernando Carpaneda com performances sobre contos que escrevia. Outro dia, ele mostrou um vídeo desses em Nova York e o povo enlouqueceu. Agora, vive doido para me levar para lá, quer repetir essa dobradinha.

Inquieta do jeito que é, está cheia de planos na cabeça. Talvez, como a gata rainha da tatuagem, Teí Silva só espere a oportunidade surgir à frente como uma presa desavisada.

Nenhum comentário: