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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A força que nunca cessa

 (Thor Filmes/Divulgação)

No ano de 1985, o atleta Robson Graia já era um acontecimento em Brasília. Aos 20 anos, no Teatro Galpãozinho lotado para vibrar com a novidade cultural, batizada de Jogo de Cena, ele surgia em meio à plateia, com ares de galã e gestos de boneco. Encarnava um homem forte e desejado por mulher que já tinha derrubado dois pretendentes ao chão. O esquete de Sonhos de amor numa noite de seca era aguardado no evento cultural criado pelo diretor, iluminador e amigo James Fensterseifer. Fazia parte da série Novelas de Palco, espécie de paródia dos folhetins, que levava os espectadores brasilienses às gargalhadas.

As “novelas” de Robson Graia eram divertidíssimas e há um trecho significativo postado no YouTube, graças a James Fensterseifer, que iluminou montagens e abriu as portas do Jogo de Cena para o jovem diretor começar os experimentos. No vídeo, há, além desse esquete de Sonhos de amor numa noite de seca, cenas de O reco que me amava e Dois no oeste ou o cruzado furado. No palco, estão Murilo Grossi e Heleno Goiaba.

Riso e delírio
Esguio, alto e elegante, o ator, dramaturgo e diretor aparece em situações hilárias como a de um juiz de uma luta de boxe nocauteado pelos lutadores. O público ri ao delírio.

— 1984, resolvi que voltando ao Brasil, queria mesmo é largar as pistas e subir ao palco. De volta a BSB, formei a dupla de palhaços Goiaba e Jabuticaba, que logo se juntou com outros talentos da geração 64 e, um ano depois, estávamos lançando aos palcos novelas e outras peças, com um humor que seria consagrado anos mais tarde na TV Pirata, escreveu Robson Graia, na época em que o grupo Palco Cia. de Teatro completava uma década de atividade.

Nessa fase, Robson Graia já mostrava a força para mobilizar plateias. Além de ter uma capacidade de organizar as cenas, o dom como diretor, era afeito ao intenso treinamento físico e à improvisação. Adorava fazer audições para selecionar elenco. Formou-se pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e, antes de se firmar no Palco Cia. de Teatro, teve o grupo Os Donos do Pedaço, com o objetivo de formar atores. Atriz e professora da Universidade de Brasília (UnB), Alice Stefânia lembra o dia em que enfrentou a avaliação de Robson Graia.

— Por volta de meus 18 anos, fui fazer teste pra seu espetáculo Cinco pra cada lado, no auditório da Escola de Música de Brasília. Com ares de audição de Broadway, bem a cara dele, sempre cercado de assistentes, pediu-me para cantar, dançar e perguntou-me sobre a parte de meu corpo que eu mais gostava: resposta que hoje prefiro não revelar... Tudo na base do bombardeio, sem me dar tempo para pensar… Fui ágil nas respostas, como ele gostava. Passei no teste e fui Fátima Castanha, esposa de Bob Milk, o Sheik, ao lado de outros tipos hilários.

Robson Graia orgulhava-se da missão de descobridor de talentos. Quem entrava na companhia tinha compromisso, disciplina e horas de ensaios. A preparação corporal era intensa. Dizia que gostava de “atores kamicases”, capazes de fazer verdadeiros malabarismos em cena, como em Fogo do verso amor 3, baseado em Os sermões, do Padre Antonio Vieira, que apresentou em 1994, na Sala Multiuso do Espaço Cultural 508 Sul (hoje, Renato Russo). Ali, estava numa fase mais preocupado com um teatro de linguagem, mais intimista e de valorização da palavra. Mesmo com essa mudança de foco, Graia abarrotava o teatro de jovens estudantes a diplomatas estrangeiros, conforme descrito em reportagem publicada à época no Correio. Ali, estava completamente devoto ao trabalho de ator.

— Somos o único grupo que realiza há anos testes periódicos, onde podemos descobrir diamantes e pérolas como: André Deca, Martha Scardua e Luciane Franco, esta, diretora guerrilheira que amplificou o meu espetáculo, que faz da peça Disfarça e chora um marco na história do grupo.

Jovem mestre
Hoje, importante produtor teatral e integrante da Cia. Plágio de Teatro, André Deca destaca esse lado de formador de ator. Ele dividiu a sala de ensaios com Cláudio Falcão, Alice Stefânia, Nitza Tenenblat, Heleno Goiaba, Edson Duavy, onde fazia aulas de balé, artes marciais, preparação vocal e exercícios cênicos. Deca foi aluno de Graia no segundo grau e um dia foi assistir a um espetáculo do diretor. Virou aprendiz.

— Foi um mestre, a pessoa que me levou ao teatro. Aprendi muito com ele, não só na arte de interpretar e de produzir, mas também na vida. Uma pessoa generosa, que me incentivava o tempo todo.

Dono de personalidade forte, Robson Graia tinha uma relação intensa com os atores. Alice Stefânia tem até hoje a imagem daquele homem alto, lindo e espetaculoso, de risadas sonoras e, muitas vezes, sarcásticas. Graia tinha humor sagaz, de uma ironia aguda e inteligente. Era solidário e gostava de ajudar os atores. Tinha até um bordão, “conte-me tudo, não esconda nada”, que era a senha para formar a necessária intimidade existente para se manter cúmplice e na ativa dentro de um coletivo teatral.

— Às vezes em que passou pela minha cabeça desistir da carreira, ele sempre falava que eu era um ator, que não adiantava fugir disso, que tinha que aceitar e encarar, porque não seria fácil. E realmente não é. Sua alegria, sua atitude, sua presença faz muita falta, destaca André Deca.

Atriz e escritora, Cristiane Sobral se lembra de Robson Graia como uma energia intensa diante do fazer teatral. Um diretor negro que se afirmava pela postura e liderança. Nunca pelo discurso engajado.

— Uma vez o vi interpretando, sob a direção de Fernando Villar, uma peça em que ele fazia um africano e falava em uma das línguas nacionais. Ali, vi um outro Graia, lembra Cristiane Sobral.


Morte aos 35

Depois de regressar de uma viagem a Gana, onde participou do 4º Festival Pan-Africano de Teatro Histórico, em 1999, Robson Graia teve o estado de saúde agravado. Foi zelosamente cuidado pela mãe, Lúcia Maria de Souza, uma das pessoas que ele mais admirava. O último espetáculo foi Rapeize, que fez temporada um ano antes de morrer, na Sala Martins Pena. Morreu no auge da carreira aos 35 anos em maio de 2000, deixando uma trajetória de intensa vida e atividade.
— Hoje, com velhos e jovens de todas as cores e nomes possíveis, estamos cada vez mais próximos de ser uma Cia. De Teatro, onde é dada a oportunidade de crescimento artístico. Para o desespero dos puristas e cítricos críticos, trabalhamos muito, temos público, somos fortes, heróicos, para enfrentar este país que tenta bloquear a nossa criação e nos faz mais fortes ainda para criar dança, vídeo, música, foto, ópera, teatro, que é a nossa revolução. Somos o principado do entretenimento... Hoje, ouvindo Gilberto Gil, Prince, e Toni Tony Toné, quero levar este grupo para o mundo... Palco Cia. De Teatro – 10 anos. Just do it.



Esquetes

Robson Graia escreveu cerca de 40 espetáculos em quase 17 anos de atividade

Um dos maiores sucessos, Disfarça e chora, recentemente, virou curta-metragem apresentado no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

A Funarte homenageou Robson Graia batizando um galpão com seu nome. Lá, ocorrem cursos, ensaios e oficinas.

Graia tinha uma ligação muito forte com a música. Adorava ensaiar ao som de canções, com trilha musical invejável. Amava Prince e Gilberto Gil. Explorava muito o corpo. Era atleta. Levava profissionais da Escola de Música para fazer vocalises ao piano.

O diretor gostava de exaurir os atores nos ensaios, em exercícios de quartel, tipo série de abdominais. Depois que o corpo estava morto, partia para a construção da personagem. Valoriza o processo como uma vivência teatral.

Adorava dizer que decorar vinha de “(de) coração”. Levar as palavras para o coração que bombeia ao corpo como um sangue.




Na Cabeceira

Histórias do Teatro Brasiliense
De Eliezer Faleiros e Fernando Villar. Editora UnB, 2004

Um comentário:

Ademivaldo Soares disse...

Existe algo muito forte na imagem e na lembrança que tenho de Robson Graia que (silêncio...)... me deixa paralizado. Nunca havia conhecido alguém como ele: sincero, alegre, motivador e amigo. Foi quem me acolheu, junto com Os Donos do Pedaço, entre 1997 e 1998, quando tive a honra de tê-los como minha segunda família. Aliás, não consigo entender como o Robson ainda é importante para mim, até mais que algumas pessoas de minha família. Sinto saudade. E algumas vezes, sem entender muito, lágrimas rolaram na minha face ao lembrar deste, que é (notem, o verbo não muda mesmo) o meu grande ídolo. Nossa última conversa foi por telefone, quando havia recém chegado de Gana. Choramos e ele pediu para desligarmos. Nunca o esquecerei, nem das canções que me invadiam a alma nos ensaios na Casa do Teatro Amador. Havia duas delas, em especial, que me faziam chorar: Whenever, Wherever, Whatever (de Maxwell) e A Rota do Indivíduo (de Djavan). Regressei à Bahia há mais de 12 anos, deixei de atuar... mas vira e mexe eu tenho sonhos acordado com o palco e com Robson. Eu sinto muito a sua falta. Perdi contatos com todos. Gostaria de um aceno.