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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Do texto ao palco

“Num primeiro momento (o texto) é matéria morta, especialmente os de Shakespeare e Brecht. Eles me parecem de outro tempo que não o meu” Do diretor paulista Sérgio Carvalho, fundador da Companhia do Latão



A palavra no teatro não é linear, ela é volumétrica, tridimensional.”
Da diretora e dramaturga italiana Alessandra Vanucci,

Nahima Maciel

É possível encarar o texto de várias formas na produção teatral. E foi para conhecer como os diretores lidam com a palavra escrita que o 2º Encontro de Diretores reuniu Aderbal Freire Filho, Sérgio Carvalho, Alessanndra Vanucci, Mônica Montenegro e André Amaro no Teatro Dulcina. Após uma semana de oficinas e encontros com atores e profissionais do segmento, o evento foi encerrado no domingo com um debate sobre o papel do texto.


Aderbal Freire Filho lembrou que, quando entrou no teatro pela primeira vez, queria ser ator. Foi se convertendo para a direção aos poucos. E assim se apegou à palavra. “Ela ganha muitas possibilidades no teatro”, explicou, citando Walter Benjamin, depois de reverenciar B. de Paiva, presente na plateia do encontro. Ele contou como, aos 12 anos, atuou na primeira peça sem nem mesmo ter acesso ao texto. “Só me deram a minha parte.” E falou sobre a separação entre autor e diretor, coisa impensável na Grécia antiga, berço do teatro. A fragmentação da prática acabou por criar nichos na produção. “O diretor perdeu costelas”, brincou. Cada costela seria a gênese de um fragmento que contribui para um resultado, muitas vezes de autoria coletiva.

Para Alessandra Vanucci, ganhadora do prêmio Arlecchino d´Oro, na Bienal de Veneza em 2007, com Arlecchino all´inferno, o texto tem importância restrita quando se trata de um produto final chamado “peça” ou “espetáculo”. Quando a apresentação acaba, só resta o texto, único produto realmente acessível ao público. “Mas esse texto não dá conta minimamente do que é o encontro do teatro”, diz a diretora e dramaturga. “A palavra no teatro não é linear, ela é volumétrica, tridimensional.”
Sérgio Carvalho, fundador da Companhia do Latão, passa por um processo de desconstrução antes de chegar ao formato apresentado à plateia. O curioso é que, inicialmente, a reação do diretor e professor da Universidade de São Paulo (USP) é se convencer de que certos textos não valem ser encenados. “Num primeiro momento é matéria morta, especialmente os de Shakespeare e Brecht. Eles me parecem de outro tempo que não o meu.” Em seguida, a descoberta da beleza contida na obra deslumbra Carvalho, que passa então a pesquisar sobre o contexto em que foi produzido e inicia o trabalho colaborativo com a companhia.
O diretor André Amaro chamou atenção para a importância do improviso. Dramaturgo e fundador do teatro Caleidoscópio, ele citou oficinas com os franceses do Théâtre du Soleil e com a companhia do argentino Eugênio Barba como experiências fundamentais no entendimento do papel do texto. O que eram apenas palavras datilografadas numa página, e prontas para serem decoradas, ganhou outras texturas. “Minha relação com o texto oscila de acordo com minha necessidade de dizer as coisas.”
A fonoaudióloga e preparadora de atores Mônica Montenegro, também professora da USP, falou a partir da perspectiva de quem serve de canal final para a palavra escrita. “Vejo o ator como o último enunciador do texto. Digo sempre que o texto, para o ator, é uma grande armadilha. Ele é um veículo da possibilidade de criar através da ação.”

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