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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A arte lúdica de Vicente Pereira





Desenhos revelam outra face do dramaturgo consagrado na comédia besteirol

SÉRGIO MAGGIO

O ator e dramaturgo Vicente Pereira (1993), um dos artífices da comédia besteirol, adorava desenhar, por vezes, personagens que iam à cena. Artista plástico e cenógrafo de mão cheia, ele tinha o dom dos traços criando imagens expressivas e coloridas. Parte desse acervo íntimo, que estava muito próximo da família e de amigos, pode ser vista e até adquirida na exposição Desenhos de Vicente Pereira, em cartaz de segunda a sábado, na Biblioteca Demonstrativa de Brasília.
— Vicente Pereira sempre foi um grande pintor. Essa é, justamente, a faceta menos conhecida do seu trabalho artístico. Algumas vezes, seus desenhos foram associados à criação de alguma peça. Certa vez, ele presenteou a grande amiga, a atriz Thaís Portinho, com um desenho que retratava a protagonista de A estrela Dalva, texto de Vicente que foi ensaiado por Thaís, Thelma Reston e Heleno Prestes, mas que não chegou aos palcos, conta Luís Francisco Wasilewski, autor da biografia Isto é Besteirol: O teatro de Vicente Pereira, editada pela Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial.
Há muitas mulheres nos desenhos de Vicente Pereira, que amava e se inspirava nesse universo feminino. Quem fez a curadoria foi o irmão Vitor Pereira Júnior e a reunião das obras revela o espírito livre e leve do dramaturgo, autor de textos como Solidão, a comédia e Colar de diamantes. São mais de 30 telas que mostram a atividade múltipla desse criador, que morou em Brasília na juventude. Aqui, ele encontrou, na arte, o campo de acolhimento para as inquietações. Conheceu Ney Matogrosso e, tempos depois, seguiu com ele a trajetória de shows com o grupo Secos & Molhados, ao qual se integrou como coreógrafo.
— Ele sempre permaneceu pintando quadros. E presenteou diversos amigos com os seus desenhos. Ney Matogrosso, Diogo Vilela, Miguel Falabella e Marcus Alvisi são alguns dos que foram agraciados com os seus desenhos, destaca Luís Francisco.

Figurinos em Taguatinga
Essa habilidade visual de Vicente Pereira está remetida ao começo de carreira, em 1969, quando atuava como figurinista, ambientador e assistente de direção de Sylvia Orthof, na Oficina de Teatro do Sesi de Taguatinga. Ali, fazia montagem com teatro de bonecos em textos como Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e Prometeu acorrentado, de Ésquilo.
Considerado, ao lado de nomes como Mauro Rasi, Miguel Falabella e Pedro Cardoso, como um dos fundadores do teatro besteirol na década de 1980, Vicente Pereira desenvolveu importante trajetória na dramaturgia nacional ao criar montagens que consolidaram esse movimento de comédia que se espalhou pelo Brasil. Sereias da Zona Sul, parceria com Miguel Falabella (1988), peça que simboliza o auge do teatro besteirol no país, é um dos maiores sucessos da carreira do dramaturgo. Na tevê, esteve nos bastidores da criação e execução de dois marcos na mudança da linha de teledramaturgia da TV Globo, Armação ilimitada e TV Pirata.
— Eu devo muito a Vicente Pereira. Na verdade, toda uma geração de autores, atores e espectadores deve muito a ele. De certa forma, foi ele quem ensinou o teatro brasileiro a rir novamente depois dos anos de chumbo. Um riso amargo, afetuoso, pontilhava seus diálogos e havia um olhar generoso que envolvia suas personagens, porque em última análise, Vicente Pereira gostava de gente, escreveu Miguel Falabella em crônica publicada após a morte do amigo, em 19 de setembro de 1993, em consequência de complicações causadas pelo vírus HIV.


DESENHOS DE VICENTE PEREIRA Biblioteca Demonstrativa de Brasília (506 Sul). Visitação: 2ª a 6ª feira, das 7h30 às 23h, e aos sábados, das 8h as 14h. Informações: 3443-5682 e 3244-3015. Até 24.

Um comentário:

Anônimo disse...

Oi, Sérgio! Só para agradecer o carinho e mais um belo texto sobre o meu querido padrinho Vicente. Bjs