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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Mulher Coragem

 (Breno Fortes/CB/D.A Press)
Gleide Firmino estava na Ermida do Bosco, dentro d'água, criando movimentos para o espetáculo Terra de vento. Nem um pouco cotidiana para quem passava desavisado, a cena instigou a curiosidade de um homem negro. Ele viu que ela estava em companhia de outras pessoas. Estranhou e comentou em voz alta que "aquela mulher devia ser a empregada daquele grupo". A atriz se encheu de raiva. O sangue subiu à cabeça. Ela rodou a baiana e xingou o sujeito afugentando o monstro do racismo, que durante décadas a emudeceu. Antes, quando menina, baixava a cabeça e enchia-se de vergonha.

— Muitas vezes, eu matei a escola porque ficava uma galerinha na porta a rir do meu cabelo e me xingar. Havia uma impotência, não sabia o que fazer. Faltava consciência para me defender.

O medo do enfrentamento faz parte de um passado de sofrimento. Gleide Firmino se vestiu com coragem e estima para fechar as feridas e se preparar para um tempo de aplausos. Quem lhe deu as armas para a luta foi o teatro. Um dia, a menina que mal conseguia responder a chamada em sala de aula desejou fortemente participar de um grupo criado pelo professor de arte em uma escola pública de Samambaia, cidade onde se criou. Estava na sétima série. Criou força, chegou lá e deu vexame no teste. Não desistiu. É teimosa. Quando bota uma coisa na cabeça, não há quem tire. Aí, surgiu uma outra oportunidade no ensino médio.

— Fui aprovada. Acho que o professor teve pena de mim, porque eu não interagia com ninguém. Fui então pela primeira vez assistir a um espetáculo. Nunca tinha ido porque em Samambaia não há nada, nem teatro nem cinema. Só a escola. Fiquei maravilhada com a peça. Aí, me viciei.

O pai achou péssima essa novidade de a filha querer ser atriz. A mãe apoiou. A menina seguiu fazendo oficinas com diretores da cidade. Até que um dia, Francis Wilker, que a observava, como coordenador pedagógico do trabalho escolar em Samambaia, a convidou para integrar o Teatro do Concreto. À época, o grupo pesquisava Plínio Marcos para criar a montagem Diário do maldito. Gleide ficou diante da emancipação.

— Até então fazia um teatro mais didático, bem comportado, estudava os clássicos espanhóis. De repente, chego ao ensaio do Concreto e todos estão nus em cena. Francis começou a me instigar. Pedia para que eu criasse, estudasse, propusesse cenas. Não sabia nada de Plínio Marcos. Mal conhecia Nelson Rodrigues. Ali, abria-se um mundo novo pra mim.

É de Gleide Firmino a proposta de uma das cenas mais impactantes de Diário do maldito. Inspirada na peça Homens de papel, de Plínio Marcos, sobre o drama de catadores de lixo, a atriz vive uma personagem de rua que cuida do filho, deficiente mental, quando um policial espanca o garoto até a morte e a estupra.


— Quando fiz pela primeira vez essa cena, tinha 19 anos. Hoje, estou com 25. Então a dor em interpretar aumentou muito porque tenho mais consciência da minha condição de mulher negra, da violência da discriminação racial.

Mas agora tudo é diferente. Gleide Firmino está no teatro a denunciar os absurdos do homem. Ao fim, em vez de xingamentos, ela ouve aplausos. Até o fim do mês, a atriz, hoje formada pela Universidade de Brasília, está em cartaz no CCBB, com o Teatro do Concreto, um dos grupos mais importantes do DF.

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