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terça-feira, 5 de julho de 2011

E o anjo voou...


Série Pérolas Negras, perfis de artistas do DF

A mulher de 1,76m, lábios grossos e nariz esparramado brilha quando pisa nos palcos (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )
A mulher de 1,76m, lábios grossos e nariz esparramado brilha quando pisa nos palcos

























Quando Vanessa Di Farias estreou no palco, foi no papel de protagonista. Com a personagem Dita, de Cascudo (2002), espetáculo de André Amaro, ganhou o troféu de melhor atriz no Prêmio Sesc de Teatro Candango, foi elogiada no Festival de Curitiba e atravessou a fronteira brasileira, apresentando-se no Peru. Quando Vanessa Di Farias sonhou viver um anjo que consagrava uma santa católica, foi relegada. A menina que cantou afinada, na audição da paróquia, ficou de fora do rito religioso. A alegação: a altura de 1,76m.

— Hoje, sei que não foi por isso…

A pausa de alguns segundos na fala de Vanessa Di Farias antecipa a resposta que viria:

— Entendo que não fui escolhida por ser negra.

Entre um tempo e outro, Vanessa Di Farias abriu os caminhos para pôr os sonhos nos trilhos. A família de Sobradinho, que sempre enche a boca da atriz de adjetivos pomposos, foi o lastro para a passagem à vida adulta sem frustrações. De origem humilde, pai e mãe progrediram juntos à base do esforço, da educação e da fé nos estudos. Todos os filhos cresceram com a cara no livro e tendo a noção dos valores da negritude exposta na pele, nos traços africanos dos rostos e dos cabelos.

— Minha família é toda de servidores públicos de carreira. Em casa, sempre houve a conversa de que éramos negros e, se houvesse algum problema além do nosso alcance, eles, pai e mãe, estavam ali para resolver, lembra Vanessa.

O caso do anjo rejeitado não virou pauta de reunião familiar. A consciência de ter sido impedida de experimentar um sonho também não abateu os desejos de menina, que assistia à tevê querendo entrar na caixa mágica e vivenciar aquelas fábulas. Ela ficava fascinada com a transformação dos atores de uma novela para outra. Queria entender essa magia. Não demorou muito e lá estava ela envolvida com “esse negócio de peça de teatro”, que dava um parafuso na cabeça da garota e deixava a mãe, dona Socorro, em alerta. Era canto na igreja, jogral, dramatização de Evangelho, ensaios na escola. Tudo atiçava a moça que era capaz de vencer a timidez para se jogar num palco.

— Cresci assim, com essas peças de teatro na escola. Não fazia as princesas, porque sempre tinha uma menina branca escolhida para esses papéis. Mas isso não doía tanto quanto o dia em que meu pai foi me levar à escola e duas garotas riram dele. Chamaram de “macaco” e “Pelé”, uma forma de xingamento na época. Ali, eu, sempre falante, me calei. Foi um dos piores dias da minha vida.

Licenciatura
De casa, dona Socorro via de olho comprido os interesses da filha. Foi ela quem sugeriu que a moça já feita fizesse artes na Faculdade Dulcina de Moraes. Mas foi bem clara: “artes visuais”. Não custou muito para Vanessa convencer a mãe a fazer cênicas.

— Está bom, mas licenciatura, foi categórica dona Socorro.

Com 20 anos, a menina estava no meio dos professores artistas do Conic, numa época em que Dulcina de Moraes ainda era viva, mas não dava aulas. Descobriu o mundo do teatro, experimentou peças em âmbito acadêmico, pegou o diploma, passou no concurso público e foi dar aula, para felicidade de dona Socorro, lá em São Sebastião. Aí, um comichão de atriz coçou e ela foi fazer oficina com André Amaro, estreando Cascudo. Tornou-se uma intérprete respeitada, capaz de arrancar um sonoro “lindo” de dona Socorro, ali, deslumbrada na plateia, diante de uma cena da filha.

— Pra mim, as personagens não têm cor. Posso então fazer qualquer um. E como atriz, me entrego para vivenciá-las.

Sem levantar bandeiras, a mulher de 1,76m, lábios grossos e nariz esparramado brilha quando pisa nos palcos. Para ela, esse ato já explicita a sua vitória. Na escola, quando monta peças, uma gordinha pode ser a protagonista sensual e o negro, Shakespeare. Constrói, em sala de aula, uma outra dimensão, que inclui e projeta o aluno. Longe de algumas experiências amargas que vivenciou.

— Tinha uns seis anos quando houve uma praga de piolhos na escola. E eu fui a primeira criança que a professora foi olhar o cabelo. Não achou nem uma lêndea. Depois, foi procurar minha mãe e parabenizar por eu ser tão “limpinha”. Lembro que minha mãe pediu para eu sair da sala. Deve ter dito muitas verdades a ela, orgulha-se.Vanessa tem razão ao falar tão intensamente da mãe.

Essa dona Socorro é mesmo de encher a boca!

Um comentário:

Arthur disse...

Adoro a atriz dela!
Bjos
Arthur