Languages

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A dona do pedaço

Série Pérolas Negras, do Correio Braziliense, perfis de artistas do DF

Sérgio Maggio

Publicação: 07/07/2011 11:23 Atualização:

Mariana Nunes estreia em Febre do rato, de Claudio Assis: personagem era loira de olhos azuis (Arquivo Pessoal)

Mariana Nunes acaba de perder uma protagonista em longa-metragem. Quando ela leu o roteiro, a língua coçou. Disse, na lata, que não achava bacana ver uma personagem negra numa situação de submissão em pleno Brasil de agora. Bateu de frente com o diretor, que, irredutível, a convidou a se retirar da produção. Ela respirou fundo, ergueu o nariz e partiu, com dignidade, para a vida de batalha. Boa de briga, essa menina. Mas nem pense que vai encontrá-la por aí, levantando bandeiras em alguma marcha de protesto. Se tem uma coisa que não gosta, é de salivar o discurso de militância.

  • Quando subo ao palco, meu corpo já está dizendo muita coisa.

Brasiliense radicada no Rio há três anos, Mariana Nunes experimenta o visível aumento dos atores negros nas produções nacionais, sobretudo, na teledramaturgia. Recentemente, ela protagonizou uma das cenas mais impactantes da série A cura (TV Globo). Fazia o papel de uma escrava degolada pelo seu dono a fim de provocar o dom de um menino médium. A cena curta, que levou dois dias para ser preparada, é um primor e exigiu da atriz um preparo específico para a execução.

  • Era tudo bem cuidado. Fomos para Diamantina (MG). Tinha uma série de efeitos especiais e maquiagem. Mas a cena não mexeu com a minha negritude, porque era uma série de época, em que os negros estavam na condição de escravos.

Antes, Mariana tinha feito uma participação na novela Mulheres apaixonadas, de Manoel Carlos. Papel conquistado fruto de uma oficina para atores ministrada pela TV Globo.

  • O espaço do negro melhorou muito. Mas ainda tem umas coisas esquisitas. Quando você pega a sinopse das novelas, por exemplo, a personagem negra vem sempre marcada. Está lá, fulana de tal, tantos anos, jornalista e negra. A cor continua restringindo a participação. É diferente do teatro, espaço em que eu posso fazer o que quero, experimentar todas as personagens.

Formada na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes (FADM), Mariana Nunes enxergou, no teatro, o espaço de liberdade. Durante dois anos, integrou a companhia dos irmãos Adriano e Fernando Guimarães, viajando pelo Brasil e exterior. Com eles, aprendeu a ser disciplinada. No Rio, a inserção na cena foi mais demorada. Ela só voltou aos palcos no projeto Autopeças, da Companhia dos Atores. Está também integrada ao coletivo Brecha, que reúne artistas diversos para fazer teatro, intervenção e ocupação urbana.

  • Você precisa conhecer pessoas para movimentar e realizar teatro. No Rio, estão artistas do Brasil inteiro tentando ao mesmo tempo se inserir nesse mercado competitivo. Fiquei uns três anos sem fazer nada. Agora, estou dentro de um espaço de criação, cedido pelo grupo Amok.

Estreia em Paulínia
Esbanjando energia por voltar aos palcos, Mariana Nunes segue experimentando as múltiplas linguagens. Depois do longa O homem mau dorme bem, de Geraldo Moraes, pelo qual ela ganhou prêmio de melhor atriz coadjuvante no Cine-PE 2010, a atriz respira fundo para assistir à estreia de Febre do rato, o esperado filme de Claudio Assis (Amarelo manga e Baixio das bestas), dia 13, no Festival de Paulínia. No longa-metragem, ela vive Rosângela, namorada de traficante (o também brasiliense Juliano Cazarré). Eles invadem uma fábrica abandonada, com outros dois amigos. Vivem ali, livres e sem julgamentos.

  • O mais interessante é que, no roteiro original de Hilton Lacerda, Rosângela era loira de olhos azuis. Aí, Claudio Assis me conheceu e achou que eu era a Rosângela. O traficante seria um negro. Mas virou o Juliano Cazarré. O filme é em preto e branco. É muito poético.

Iniciada aos 13 anos numa oficina de teatro pelo incentivo da mãe, Mariana se mantém aguerrida na luta para viver do ofício de atriz. Tem orgulho da formação em Brasília, para ela, uma cidade focada no teatro. Daqui, nutre lembranças doces. Acha que a mistura de gente vinda de todos os municípios do Brasil deixa a cidade mais democrática. Não lembra de ter sido discriminada.

No Rio, viu claramente a diferença em ser branca ou negra — na dificuldade de as pessoas denominarem a cor dela, alguns a chamam de “moreninha”, ou de se referirem ao cabelo crespo como “ruim”. Não faz muito tempo, ela voltava de uma balada andando pelo calçadão de Copacabana, quando um carro passou e os ocupantes gritaram: “Puta!”

  • Ouvi e segui a minha vida normal. Às vezes, você tem um namorado branco e as pessoas já te olham julgando a relação. Deduzem que é o gringo que está pegando a mulata.

No Rio, tudo isso é forte, porque é uma cidade que teve a presença da escravidão. Você entra numa favela e a maioria é negra.

Brasília, historicamente, não viveu isso. Acho mais tolerante.

Um comentário:

Arthur disse...

Vi o Autopeças no Rio com a Mari.
Lindo, linda.
Amo mto!
Bjos
Arthur

Ps - To adorando esses perfis.