Anderson Brasil
As atrizes Catarina Accioly (à esquerda), Carmem Moretzsohn, Adriana Lodi e Bidô Galvão em cena  da peça Cabaré das Donzelas Inocentes: universo das prostitutas mostrado sem preconceitos nem idealizações
As atrizes Catarina Accioly (à esquerda), Carmem Moretzsohn, Adriana Lodi e Bidô Galvão em cena da peça Cabaré das Donzelas Inocentes: universo das prostitutas mostrado sem preconceitos nem idealizações

A figura da cafetina sempre se situou entre o romantismo brejeiro dos livros de Jorge Amado e a crueza suja das páginas policiais, nas quais invariavelmente apareciam escravizando menores e favorecendo a prostituição. Foi para encontrar o meio-termo dessas visões - a dimensão humana - que o jornalista, crítico teatral e dramaturgo Sérgio Maggio mergulhou no universo das prostitutas de Salvador e Brasília. A pesquisa de 11 anos rendeu dois frutos: o livro-reportagem Conversas de Cafetinas (Arquipélago Editorial), Prêmio Jabuti de 2010, e a peça Cabaré das Donzelas Inocentes , em cartaz no Teatro Sesi hoje e amanhã, às 19 e 21 horas.

A montagem narra o convívio de quatro mulheres - três prostitutas e uma cafetina - que habitam um bordel onde não entra mais nenhum homem. Aos poucos, elas desfiam lembranças que misturam dores e prazeres num texto de linguagem forte, com muitos palavrões, mas necessária. Na prática, é como se cada personagem estivesse em estado de decomposição.

Em cena, estão Catarina Accioly, Carmem Moretzsohn, Adriana Lodi e Bidô Galvão. Suas personagens passeiam por um universo feminino marcado tanto pela repressão quanto pela liberdade. A direção é de Murilo Grossi e William Ferreira (que também assina o cenário, levando o espectador a se sentir voyeur da cena).

Baiano radicado em Brasília, Sérgio conta que descobriu a prostituição e o poder das cafetinas primeiro nos livros de Jorge Amado com figuras como Tieta, Jacutinga, Tibéria e Gabi. Já adolescente passou a acompanhar nas páginas policiais a vida e a perseguição às marginalizadas donas das "casas de luz vermelha", como elas preferem ser chamadas. Vale lembrar que, no Brasil, a prostituição não é crime, mas tirar proveito dela, seja de que forma for, é.

Fascínio

A imagem das mulheres fortes que comandavam a luxúria dos bordéis e uma legião de meninas sempre fascinou o autor. Ele foi a campo escutar suas histórias em locais como a Ladeira da Montanha, antiga zona de prostituição do chamado "baixo meretrício" de Salvador, onde homens de família tinham sua iniciação sexual, e em hotéis em Brasília, onde as prostitutas alugam seus corpos.

Foi desse convívio que o autor tirou matéria-prima para o livro, com oito perfis dessas mulheres, que deu origem ao Cabaré das Donzelas Inocentes . "É um texto bastante universal, apesar do recorte em torno da prostituição. São quatro prostitutas que, antes de tudo, são mulheres", observa. Na espetáculo, Sérgio, que é subeditor de cultura do jornal Correio Braziliense , funde realidade e ficção para contar o fim de carreira melancólico de quatro prostitutas.

O texto mistura narrativas de muitas mulheres, como a da cafetina China, sobre quem Sérgio pesquisou. É no jogo da realidade e ficção que a trama se sustenta. "A memória e os relatos que ouvi aparecem no palco contaminados com as fantasias", explica. Para a pesquisa, Sérgio ouviu 17 mulheres, mas acabou selecionando apenas oito perfis para o livro-reportagem.

As mulheres que entrevistou rejeitavam a denominação cafetina porque atrelavam isso às profissionais que escravizavam menores. Cafetina era uma associação ao noticiário policial. Elas se consideravam "donas de casa", porque mantinham o funcionamento da casa sem problemas com a polícia, sobretudo. A relação quase familiar entre cafetina e prostitutas dá margem à discussão da própria condição feminina.

A peça encerra a turnê no Teatro Sesi depois de passar por cinco capitais. A turnê foi viabilizada pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz. No roteiro de viagem, além das apresentações abertas ao público, houve sessão do Cabaré das Donzelas Inocentes seguida de debate, com o autor, agentes de saúde e profissionais do sexo. Em Goiânia, o debate será na quinta, após a sessão das 21 horas.

"Em Recife, no Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, foi uma loucura essa sessão, com a plateia vibrando como se estivesse numa partida de futebol", conta Catarina Accioly, que na montagem vive a prostituta Cabeluda. Para Catarina, o sucesso do espetáculo se deve à maneira como Sérgio escreveu o texto. "Ele não se baseou naquela visão fetichista, estereotipada ou romantizada da prostituição. A peça conta a história de quatro mulheres com suas histórias, dores e frustrações que estão juntas porque não têm mais para onde ir", define. O mundo lá fora já não as recebe mais.