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terça-feira, 21 de junho de 2011

Dama das crianças

A crítica teatral Bárbara Heliodora escreveu, há alguns anos, um texto sobre o teatro infantil no país. Segundo seu relato, quando as cortinas do espetáculo Pluft, o fantasminha se abriram, e a alminha que dá nome à montagem perguntava: “Mamãe, gente existe?”, os espetáculos para criança entraram na modernidade, atingindo a qualidade cênica do que até então se produzia para adultos. A façanha era da diretora, dramaturga e atriz Maria Clara Machado, que chegaria aos 90 anos em 2011. Além de ser um divisor nas produções infantis, ela fundou o Teatro O Tablado, que se mantém no posto de um dos principais celeiros de atores do país, e completa 30 anos. Hoje, sua trajetória será revisitada, a partir das 20h, no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), na abertura da segunda temporada do projeto Mitos do Teatro Brasileiro.

Nesta edição, duas mulheres atuantes na cultura do país foram convidadas a fazer homenagens à artista. Uma delas é a sobrinha e herdeira da obra da Maria Clara Machado, a diretora Cacá Mourthé, que na certidão de nascimento é Maria Clara Machado Mourthé. “É um dos mistérios da vida. Ela tinha 18 sobrinhos, mas eu ganhei o nome dela e virei a herdeira do teatro”, conta Cacá, que atuou como assistente de direção da tia e hoje mantém O Tablado com pulso firme. Os muitos anos de convivência deixaram uma profusão de lembranças. “Ela criava usando a intuição. Me lembro dela pulando no palco, mostrando para o ator como ele deveria fazer. E fazia todos os personagens da peça melhor do que os atores”, relembra.

Maria Clara Machado é um divisor no teatro infantil brasileiro  (Andre Durão/AE)
Maria Clara Machado é um divisor no teatro infantil brasileiro
Também entrelaçada à biografia de Maria Clara, a atriz Zezé Motta, que deu os primeiros passos artísticos no palco de O Tablado, graças a uma bolsa de estudos concedida pela escola, também dará um depoimento sobre uma de suas mentoras. “Foi uma grande emoção, porque eu já tinha descoberto esse dom. Já havia dito para os meus pais que queria fazer um curso, mas não tínhamos recursos para pagar”, recorda. Zezé teve o privilégio de ter a fundadora de O Tablado como professora e chegou a ganhar um papel escrito especialmente para ela. “Ela compôs música que dizia sou negra internacional, sem complexo racial e me deu o papel da Rita, a personagem que cantava. Eu era a única aluna negra da turma”, destaca a atriz, que além de contar histórias da diretora, pretende mostrar alguns exercícios de improvisação e até soltara voz durante a homenagem.

Os depoimentos serão entremeados por três cenas inspiradas na vida e na obra de Maria Clara, criadas por Sérgio Maggio e vividas pelos atores J. Abreu, Vanessa Di Farias e Wilson Granja. “Muitas pessoas têm a ideia dela como autora de Pluft, o fantasminha, e O cavalinho azul, mas não sabem que ela foi professora, atriz, criou O Tablado”, argumenta J. Abreu, que além de codirigir a iniciativa ao lado do dramaturgo Sérgio Maggio, ainda fará cinco papéis diferentes. Para Granja, outro integrante do elenco, a experiência permitiu uma aproximação, inédita, com o trabalho da autora. “Fui criado no interior da Bahia, não vi suas peças, mas acompanhava na televisão. Alguns de seus trabalhos são referências presentes na minha memória”, afirma o ator.

Além de viver duas personagens criadas pela dramaturga, Vanessa Di Farias interpreta a própria Maria Clara em uma das cenas do projeto. O encantamento é antigo, já que Vanessa passou a infância na plateia de espetáculos escritos por Maria Clara. Para a atriz, a pesquisa relacionada à vida da criadora de O Tablado despertou admiração pela firmeza com que a diretora se agarrou à sua proposta artística. “Nos anos de ditadura, ela era cobrada por não fazer o que chamavam de teatro engajado, mas não se abateu. Dizia que sue front de batalha era o palco”, destaca.

A homenagem também contará com projeções de vídeos relacionados a Maria Clara. Um deles é O Tablado e Maria Clara Machado, documentário inédito no circuito comercial, que conta com mais de 50 depoimentos sobre a obra dela. A diretora do filme, Creuza Gravina, cedeu um trecho da película, e virá a Brasília acompanhar a exibição.

MITOS DO TEATRO BRASILEIRO
Direção e dramaturgia: Sérgio Maggio. Com Cacá Mourthé, Zezé Motta, J. Abreu, Vanessa Di Farias e Wilson Granja. Hoje, às 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil (SCES Tc. 2, lt. 22 – 3108-7600). Entrada franca. senhas distribuídas a partir das 19h . Não recomendado para menores de 12 anos.

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