Languages

domingo, 29 de maio de 2011

Teatro Cinematográfico

Eros Impuro, de Sérgio Maggio, com J. Abreu

O uso de vídeos se intensifica como Linguagem narrativa e cada vez mais se impõe nos palcos da cidade

Mariana Moreira


Foi-se o tempo em que o teatro era uma arte que envolvia apenas voz, pele e expressão dos atores. Desde que o desenvolvimento científico se desdobrou em aparatos tecnológicos, o universo cênico não para de se beneficiar. São cenários feitos de materiais inimagináveis, refletores potentes, mesas de som e luz com recursos que se superam a cada ano. Nos últimos anos, o palco foi invadido por outras formas de linguagem. É comum, por exemplo, presenciar músicos executando a trilha sonora em cena. Mas o mais frequente, atualmente, é o casamento da atuação in loco com o cinema. A cada dia, fica mais difícil contabilizar as peças em cartaz país afora que incluem as projeções de vídeo em cena, tamanha a proliferação da técnica.


Encerrando a temporada brasiliense hoje, a peça Antes da coisa toda começar, em cartaz, hoje, às 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil, é um exemplo. O diretor da Armazém Companhia de Teatro, Paulo de Moraes, começou a usar o recurso em 2001, na produção do espetáculo Da arte de subir em telhados. De lá pra cá, reconhece que deixou a ferramenta um pouco de lado, por achar que seu uso estava sendo exaustivamente explorado no teatro. Nesse novo trabalho, que conta a história de pessoas que “habitam” o fantasma de um ator, ele julgou que o contexto para retomar as projeções seria ideal. “Tínhamos a ideia de duplicar e triplicar os atores, trabalhar com o conceito de personagens partidos, em que um é a somatória dos outros e achamos que o vídeo poderia ajudar”, explica.

Um dos motivos para a popularização das projeções no teatro, aponta ele, é o barateamento dos equipamentos de vídeo. “Antes, era caro contratar alguém para fazer o vídeo, alugar o projetor. Hoje, os aparelhos são mais baratos e possuem mais recursos”, exemplifica. A facilidade, no entanto, não deve levar a uma banalização do uso de imagens filmadas no tablado. “A projeção precisa estar inserida na linguagem, encaixar-se, ser um complemento. Não pode ser meramente decorativa”, acredita Paulo de Moraes.

Espectros de formas
Em outubro do ano passado, o espectador brasiliense pôde ver Cartas de amor, peça idealizada, dirigida e encenada pelo artista multimídia Flávio Graff, também no CCBB. Além do quarteto de atores e de um cenário intrincado, que circundava a plateia, a montagem tinha um forte apelo visual por conta das projeções: quatro telões , instalados nas paredes do teatro, exibiam, ininterruptamente, clipes, imagens e trechos de filmes. Ainda havia dois monitores de televisão disparando cenas complementares ao espetáculo. “Essa tendência tem a ver com o hibridismo das artes. Desde Duchamp, passamos a olhar as artes a partir de outros elementos. O que a escultura pode levar a fotografia, e vice-versa. O teatro começa a pensar dessa maneira, abrindo seu espectro para outras formas de se expressar”, afirma Graff.

O diretor, que esboçou o espetáculo a partir de seu mestrado em cinema, vídeo e performance, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), decidiu transformar o espectador no editor de sua própria experiência teatral. Assim, dependendo da tela em que decidir acompanhar a história, verá planos diferentes, que, consequentemente, despertarão uma percepção distinta da do espectador que fez outras escolhas visuais. Os vídeos se sucedem como se fossem um longa-metragem e os atores precisam “perseguir” os tempos de atuação com base nas projeções.. “É um casamento entre o tecnológico e o artesanal, pois existe a presença, a performance, a ideia da casa, do aconchego. Em cena, também preparamos uma refeição, o que desestabiliza a tecnologia”, conta.

Uma produção da cidade decidiu radicalizar no uso da tecnologia. Sozinho em cena durante boa parte da peça Eros Impuro, o ator J. Abreu recebe, na cena final, a companhia de uma projeção. Por alguns minutos, interage com a tela, conversando com o personagem Amigo de Infância, vivido pelo ator Kael Studart. “O vídeo é mais um elemento que está vindo para ficar. O teatro pós-dramático absorve todas as linguagens, acolhe tudo. Se o cinema está disponível, passa a fazer parte”, afirma Abreu, que acredita ainda me uma sintonia entre grupos mundo afora para renovar a linguagem cênica e trazer cada vez mais público ao teatro.

Criada pelo cineasta Thiago Moysés, a cena foi feita em rotoscopia, uma técnica de animação em que se filma a cena e cada enquadramento é transformado em desenho, em um processo artesanal. A sequência ficou pronta uma semana antes da estreia, tempo que o ator teve para ensaiar diante do “companheiro de cena” e se acostumar aos tempos dos diálogos. “Mas as pessoas ficam encantadas. A cena tem muito impacto e a técnica suaviza”, relata.

Projeções estéticas

Diretor e produtor de cinema, o carioca Rodrigo Ponichi tem recebido cada vez mais encomendas de filmes para o teatro. “E não é só no teatro. Os vídeos estão nos ônibus, nos botecos, nos telefones celulares. Além de ser uma linguagem contemporânea, o vídeo é fácil de transportar. É possível viajar com uma peça de teatro sem levar cenário. Com um projetor, você pode criar uma floresta, por exemplo”, cita. Ponichi foi o responsável pelo videografismo do espetáculo Cartas de amor. “As projeções estão ali para somar na experiência estética, provocar sensações, lembranças. Na ilha de edição, o vídeo é totalmente diferente do que se percebe quando há o vídeo, o ator, a luz, a temperatura. A criação para o teatro, explica, é diferente do processo ao qual estava acostumado. “Você está a serviço de uma obra maior, não tem a obrigação de contar uma história completa”, salienta.

Um comentário:

Amanda Souza disse...

Lindo, lindo, lindo, amei Eros Impuro