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terça-feira, 10 de maio de 2011

Nova Crítica // Eros Impuro

segunda-feira, 9 de maio de 2011

EROS IMPURO

Por Noel, do blog Um dia após outro, que faz interessante mapeamento cultural da cidade


Um comentário em minha postagem sobre a pré-estreia da peça do grupo Armazém na quarta-feira da semana passada feito por Sérgio Maggio me aguçou a curiosidade. Era um breve texto sobre a "cobertura" que faço dos eventos culturais de Brasília e ao mesmo tempo um convite para assistir a peça Eros Impuro, em cartaz até o próximo dia 22 de maio, de quinta a domingo, no Teatro Goldoni (Casa D'Iália - EQS 208/209, Asa Sul). Tinha lido sobre a peça no jornal, bem como nas postagens de Sérgio no Facebook, que sempre acompanho, já tendo agendado para conferí-la no próximo final de semana, entre os dias 13 e 15 de maio, mas a curiosidade foi grande e ao invés de ir ao cinema, hobby que deixei um pouco de lado em 2011, para ir ver Eros Impuro no último domingo, sessão de 20 horas.
Cheguei 19:45 horas, me dirigi à bilheteria, comprando o ingresso na primeira fila, pelo qual paguei R$ 20,00 a inteira. Fiquei sentado no saguão, lendo um jornal que peguei lá mesmo. Fiquei triste em saber que o restaurante O Convento que ali funcionava fechou as portas. Há um banner dizendo que no local será um restaurante de culinária italiana. Vi chegando pessoas do mundo teatral brasiliense, como Guilherme Reis, Adeilton Lima, Adriana Lodi, Carmem Moretzohn, Catarina Accioly e outros que não sei o nome. Como sempre acontece no Goldoni, um funcionário do local desceu as escadas para tocar o sino, dar as boas vindas ao teatro e dizer que todos podiam subir, pois o espetáculo já iria começar. Ele ainda pediu para todos desligarem os aparelhos sonoros antes de subirmos, uma vez que o ator já estava em cena. Pouca gente estava no teatro na noite de domingo.
Cenário com o branco dominando, já lembrando um ambiente asséptico, um ambiente hospitalar. Apenas uma pintura e alguns apetrechos utilizados por artistas plásticos davam um colorido no lado esquerdo do cenário. O ator J. Abreu vestia uma roupa toda branca, com algumas manchas de tinta, inclusive nas mãos. Andava de um lado para o outro, falando coisas incompreensíveis e colocando as mãos na cabeça. Enquanto as pessoas se sentavam, ele continuava a andar freneticamente pelo cenário ao som de uma música também frenética. Atitude típica de internados em clínicas psiquiátricas. Com mãos ágeis, ele parou em frente a mim e começou a esboçar um desenho em uma folha de papel. Fez o mesmo em frente a outra pessoa. Era como se fóssemos modelos vivos para sua arte. Só então começou o monólogo, um diálogo com um ser que não está presente, um modelo que está ali para fazer pose para sua arte. A partir de então, o personagem, o tal Eros Impuro, derrama na plateia uma série de vivências ou histórias inventadas, quem pode ter certeza?
São histórias sobre a incompreensão das pessoas com sua arte, tachada de pornográfica. Ele aproveita esta verborragia para contar histórias e cenas em festas, cinemas especializados em filmes de sexo explícito, quando o fundo branco do cenário serve de tela de projeção para algumas cenas retiradas de filmes pornográficos, mas sem a identificação do rosto dos que atuam. O que vale é a história da pegação, das trepadas e da orgia que ocorre durante a sessão. O ator, comemorando 25 anos de palco, mostra toda a sua versatilidade ao interpretar vários tipos, incluindo uma prostituta velha, um homem que gosta de fazer sexo em pleno cinema, o próprio artista plástico em fases de loucura e de sanidade. Na cena em que ele conta sobre sua exposição que foi classificada de pornográfica, no mesmo telão branco, são projetados quadros, desenhos e fotografias reais de artistas que, de alguma forma, foram censurados ou repreendidos pelo caráter sexual ou erótico que elas continham.
Entre as obras mostradas, cito um desenho de Tom of Finland, artista finlandês famoso pelos desenhos homoeróticos e hoje bastante cultuado no circuito artístico e a fotografia de Márcia X, chamada "Desenhando em Terços" onde terços utilizados pelos católicos fazem o contorno de um pênis. Tal fotografia foi censurada à época em uma exposição no CCBB do Rio de Janeiro que tratava justamente do erostismo na arte, retirada da mostra após uma reclamação de um beato qualquer. Tive a feliz oportunidade de visitar a exposição antes da obra ser censurada, podendo apreciá-la, ainda no Rio de Janeiro. Quando a exposição veio para o CCBB de Brasília, a censura já estava consolidada e nada da fotografia de Márcia X ser exposta. Achei interessante esta foto fazer parte do acervo de obras não compreendidas que foi passado rapidamente durante esta cena da peça.
Os efeitos cênicos são interessantes também, especialmente a simulação de uma sala de interrogatório, com várias luzes penduradas do teto, em ambiente localizado atrás do pano que serviu de tela de projeção. Mas o melhor efeito é quando o ator se emaranha em elásticos brancos esticados do teto ao chão, dando a impressão que ali ele estava em uma camisa de força. Belo efeito. Há também espaço para a provocação, quando o ator fica na mesma posição clássica do Cristo crucificado, logo após explicar que a cruz em civilizações antigas representavam o coito e que a interseção dos dois traços era justamente a penetração. Outra provocação, que também para mim remeteu à religião, foi quando o personagem coloca a tela que estava pintando em frente ao seu corpo. Com o efeito de iluminação, tive um lampejo de estar vendo uma espécie de véu de Madalena com o rosto de Cristo ensanguentado ou mesmo o Santo Sudário.
O texto inteiro é forte, portanto há vários momentos de provocação. Uma provocação à sociedade conservadora, hipócrita, que dita normas de comportamento e condena quem foge às suas regras de comportamento. Foram aproximadamente cinquenta minutos de espetáculo onde presenciei uma ótima atuação, um excelente texto, uma cenografia criativa e impactante e uma direção segura. Texto e direção são de Sérgio Maggio, atuação de J. Abreu, cenografia de Carlos Chapéu. Todos dignos de se tirar o chapéu, sem trocadilhos provocativos. Gostei muito. Achei uma pena o teatro não ter muita gente. Para quem é de Brasília e lê este blog, recomendo a ida ao Teatro Goldoni, pois verão um belo espetáculo.

2 comentários:

Leandro Lins disse...

Adorei ler este artigo, crítico e de importante descrição. Parabéns. Vou ver Eros Impuro neste fim de semana, estou curioso

Vanessa Aquino disse...

Curiosa para ver o espetáculo. Desse fim de semana não passa!