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domingo, 8 de maio de 2011

Mãe guerreira

Foto de Adele Enersen

Sérgio Maggio

Hoje, Dias das Mães, ela acordou cedo e foi à missa de morte do filho primogênito, que se estivesse vivo comemoraria aniversário neste 8 de maio. Chorou quando o padre pronunciou o nome dele entre os mortos. Nenhuma Mãe deveria enterrar um filho, todos nós sabemos disso. Mas a morte não obedece essas hierarquias, não tem regras, todos nós deveríamos saber disso. E Ele, que um dia tinha sido o seu primeiro grande grito parido do ventre, caiu ao chão com o corpo morto e entorpecido pelas drogas. A Mãe viveu duas mortes em vida. A primeira do que não deu certo, do desencanto dele em ser filho, da alma que não suportou mais cumprir o rito de crescer, envelhecer e morrer. A segunda a da ausência física, da luta para não fazer a imagem Dele borrar como uma imagem desfocada da memória.
  • Hoje, Dias das Mães, ela saiu da missa em pedaços e foi pra casa encontrar outros filhos, netos e a primeira bisneta. Vai ao fogão fazer a feijoada daquele mesmo jeitinho quando todos eram pequeninos e estavam em sua ninhada. Nem todos foram. Há os que estão distantes. Um Deles orava, quando criança, todo dia para que “o Deus do mundo não tirasse a vida dessa Mãe”, que a deixasse viver por longos tempos.
Certa vez, Ele ficou bem doente, com sintomas esquisitos, não se mantinha mais em pé, o mundo girava em vertigens. A Mãe o carregava de médico e médico, como gata que leva o filhote pela boca. Acho que Ele se curou só porque não queria mais vê-la daquele jeito, desesperada com a perda da cria.

Essa Mãe, guerreira, loba, leoa, gata, cadela feroz que ameaça os predadores, habita como arquétipo nas mulheres e ampara a dor insuportável de velar por um filho num dia em que todos querem enchê-la de flores.

Essa Mãe, guerreira,
loba, leoa, gata, cadela feroz que ameaça os predadores, vai dormir hoje assim, misturada pela dor e pelo carinho de ser Mãe e sobreviver, com dignidade, ao mundo triturador de sonhos.

3 comentários:

Laura Liz disse...

Lindíssimo texto, estou emocionada

Paula Barros disse...

Dá vontade de chorar. E me fez agradecer mais uma vez pela minha família nunca ter sofrido assim.

Ayêska Paulafreitas disse...

Lindo, Maggio!