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quinta-feira, 12 de maio de 2011

Eros Impuro - Uma peça sobre obsessões e sonhos

Por Celso Araújo
J.Abreu em Eros Impuro_foto divulgação


Em cartaz no Teatro Goldoni até 22 de maio, a peça Eros Impuro, de Sérgio Maggio, traz um único ator em cena, J. Abreu (antes Jones Schneider), no papel de um homem tomado por uma obsessão. Ele é um pintor que não consegue capturar umaimagem que o atormenta desde menino. Andrei, o personagem, nasceu de um esboço de trabalho para pintura em acrílica do próprio ator.


Diante do quadro, Sérgio Maggio, jornalista, crítico de teatro e autor de outras peças, resolveu escrever a peça que ele próprio dirige. Para o ator J. Abreu, conhecido em Brasília como Jones Schneider, o monólogo, o primeiro de uma carreira de 25 anos, é um desafio e um presente.


Eros Impuro, segundo o autor, transita entre a arte e a pornografia. Com cenografia de Carlos Chapéu, figurino de Maria Carmem e iluminação de Vinícius Ferreira, o espetáculo tem apoio do FAC, da Secretaria de Cultura do DF. Em entrevista ao brasiliagenda, Sérgio Maggio nos fala do seu processo de trabalho como autor e diretor.

a descoberta de uma dramaturgia

Como o teatro se tornou um interesse seu? Quem veio primeiro? O jornalista,o crítico de teatro, o escritor?
Na verdade, eu descobri o teatro como adolescente, aos 15 anos, na Escola Técnica Federal da Bahia, em uma disciplina de Português. Tínhamos que adaptar uma crônica e transformá-la numa peça de teatro. Em questão, estava a metade da nota do bimestre e uma das professoras mais severas que tínhamos. Nunca tinha ido ao teatro. Minha família estava à margem disso. Éramos pobres, morávamos num bairro popular, muita luta dos meus pais para criar cinco filhos e alguns agregados. Então, ao mergulhar nesse processo, eu descobri uma experiência potente, reveladora. Fiz parte da equipe de adaptação, também atuei e, no dia da estreia, sem querer, a pasta do meu personagem abriu em cena e cairam roupas que usei na educação física. Na hora, gritei "Meus documentos!". O teatro veio abaixo em risos. Senti ali o poder do teatro. Essa experiência abriu minha sensibilidade, virei rato de teatro, descobri espetáculos universitários e fui entendendo o mundo. Na militância estudantil, me deparei com Brecht. No movimento sindical, com o teatro invisível de Boal. Então, o teatro me educou, me ensinou a ser uma pessoa melhor, a discutir a minha condição de vida, a minha ética. O crítico surgiu por casualidade. Estava trabalhando com jornalismo cultural e o teatro regurgitava em mim.


Quais são as referências próprias do autor de peças Sergio Maggio? Que dramaturgia você busca com as peças que já encenou?
Eu li e vi muita dramaturgia nacional. Era muito nacionalista, sonhava com um país de cultura forte e autônoma. Então li os nacionais. Nelson Rodrigues, Plinio Marcos, Vianinha, Gianfrancesco Guarnieri, Jorge Andrade, Dias Gomes. Augusto Boal. Quando surgiu a urgência de escrever, tudo isso estava dentro de mim, acho eu. Procurei contar as histórias que me agoniavam. O Cabaré veio em função de uma extensa pesquisa com prostitutas. Eros surgiu a partir de um quadro que vi na casa de J. Abreu. Então, percebi que perdi fórmulas. Queria só vomitar obsessões.

Há algum paralelo entre o seu primeiro texto encenado em Brasília, O Cabaré das Donzelas Inocentes, e este novo espetáculo, Eros Impuro?

A forma é bem diferente. Cabaré é mais textual. Eros mais imagético, mais fragmentado. Os dois tocam âmbitos marginalizados, fora do eixo, do centro. Em comum, talvez o desejo forte de falar da vida imperfeita, bandida, cheia de sabores, doces e amargos. De gente que deu certo pelos caminhos tortos

Em que aspecto Brasília também colaborou para o surgimento do homem de teatro que você é?
Foi fundamental, porque eu amadureci em Brasília. Cheguei aqui com 34 anos, há dez anos, achando que, com 40, estava com a vida ganha, tranquila. De repente, vi a batalha, a luta cotidiana para, ao menos, garantir o aluguel, as despesas com a educação da filha. A cidade, cheia de silêncios, me jogou diante de um espelho, tirei máscaras, fui ao chão e vi que eu poderia ser menos cruel comigo mesmo. Poderia voltar a sonhar como sonhei quando adolescente na disciplina de português. Aí não havia outro caminho a não ser o teatro, que me pegou lá aos 15 anos. Esse portal se abriu e senti o forte desejo de ocupar este terreiro, com cuidado, respeito. Sinto que a cidade me levou pelas mãos porque entendeu que meu desejo era delicado, era de sonho e de vida.

Como autor e diretor, o que é pra você Eros Impuro?
É uma experiência de unificação. Compreendi que preciso continuar escrevendo na cena, no corpo do ator, no cenário, na luz, no figurino, tudo de forma compartilhada, ouvindo pessoas, projetos e pontos de vistas. Eros Impuro foi esse batismo.

Há mesmo uma fronteira entre erotismo e pornografia?

Do ponto de vista da sociedade moral, essa fronteira é forte e cruel. Do ponto de vista do artista, não há fronteira, porque não há moral, há ética. Então o que é erótico para um pode ser pornográfico para outro. No caso de Andrei, personagem de Eros, é tudo junto numa mesma pincelada, é arte.

Enfim, como foi o processo de trabalho com o ator J. Abreu?

Jones é um ator muito generoso, intuitivo e disciplinado. Tem uma história fantástica no teatro e foi de uma generosidade muito grande comigo, um diretor iniciante. Propus para ele uma criação compartilhada, onde ele também seria um co-autor. Ao mesmo tempo em que fazíamos as leituras de mesa, ele aceitou participar de exercícios. Criamos uma partitura corporal pré-expressiva e passamos a trabalhar de terça a sexta nas cenas. Na segunda, apresentávamos cenicamente aos artistas cênicos (cenógrafo, iluminador e figurinista) pra que eles assitissem e opinassem. Isso foi formando uma onda criativa que contagiou o processo.

O que você espera que o público descubra neste espetáculo?
Espero que o espectador acesse as linhas de força do espetáculo, que flerta com discussões potentes. Espero que Eros Impuro toque em desejos, seduza e inquiete. Esses foram sonhos que se acenderam na loucura da sala de ensaio.


Eros Impuro
peça de Sérgio Maggio
com J. Abreu
temporada até 22 de maio
horário: de quinta a sábado às 21h e domingo às 20h
local: Teatro Goldoni
endereço: Casa D’Itália
208/209 Sul
ingressos: R$ 20 e R$ 10
classificação 16 anos

2 comentários:

Vanessa Maia disse...

Linda entrevista, parabéns. Eros Impuro é um espetáculo marcante. Vou rever

Pedro Marques disse...

Pôxa, Sérgio que bacana conhecer mais a sua história