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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Crítica crônica // Eros Impuro//

O que ainda não tínhamos visto?

Um Eros Impuro


JOSÉ DO ESPIRITO SANTO

Blog Minhas Crônicas/ Meu Sentir


A foto tem base em Klint, o exótico pintor da sensualidade sutil. Já a pergunta ( titulo ) é o nome de uma peça teatral. Foi, por aqui, mostrada pelo viés do inédito, desta vez e mais uma vez, com a evocação do Beckett transpondo a fronteira entre o dramático e o pós-dramático, um personagem com um tema especialíssimo para o teatro, o erotismo colocado sob investigação e, porque não a acusação, de “ ser impuro”, pelo trabalho de um artista plástico que pintava suas telas, à “modelo-vivo”, semi-nús, homens, jovens e adultos, aos quais não perguntava a idade. O fato acaba lhe causando uma acusação de perversão sexual e ele, instado a prestar contas à “policia dos homens” e à “policia moral”, ambas temidas por seus naturais métodos inquisitivos.

O Eros, tão invocado na literatura desde tempos bíblicos e greco-romanos, assume, na temática do texto, a conotação de “impuro”, e por isso, alvo de castigo, das leis e do julgamento moral. Quando os personagens expõem, na representação, sua agonia, no sagrado palco do teatro, atuam dividindo suas sombras e emblemas com as luzes, sons e objetos que se revelam tão potentes quanto eles, como a “luz inquiridora” que exige deles um palavreado rápido e inteligível de uma narrativa vocal. Um modo de gritar ao mundo. Aquela cena das grades da prisão construídas com elástico foi surpreendemente magistral!

Não tínhamos ainda visto um Eros, naturalmente tão discreto, desde suas imagens, na fotografia, nas telas ( em suas variadas fases da humanidade), nas esculturas, e agora no teatro, onde, na peça, com o título de Eros Impuro, se mostrando como acusado de “fora da lei, um erótico obsceno e orgiástico, que bebe os modelos em largos goles de vinho.” Na prática, porém, nada mais é mostrado que um “torso nú” de um homem, em poucas pinceladas, mas que leva às indagações do mais e mais, para uns, a manifestação de um porco sujo, para outros, a divinização da beleza. É que aí entra a imaginação, que diante do “nada”, se propõe a ver o “ tudo”.

Mais um dia eu me lembrei do tema sobre “A vida e sua dramaturgia”, tal como a vi, há uns dois meses, quando encontrei, na livraria do Açougue Cultural, num ponto de ônibus, um libreto de poesias que poucas pessoas devem ter lido, velho, surrado, sujo, ensebado, me encantou o seu nome “Letras da Vida”. O escrevera há uns 30 anos, Geraldo Ernesto dos Santos. Um “ninguém” , mas que dizia da vida ( tema recorrente na poesia). Num soneto em que trata da ilusão, ele pergunta a alguém que, passageiro de um barco apinhado de gente (mas gente só): "Pensas que só tu navegas nesse mar de tristeza e pó?"

Quem sabe, de volta, o tema da solidão, personagens, cada um no seu momento de desconstrução, tal como o Eros Impuro, tentando exorcizar os demos que os acompanham, falando, gritando, bebendo, sofrendo, com tristeza e pó, como diz o Ernesto. Assim mesmo, uns rindo, outros chorando, gritando, se desesperando, um por um, ninguém vai só.

Após o contato com o Eros do J. Abreu, que vi ontem no Teatro Goldoni, quanto na poesia do livro ensebado, muitos haverão de concluir que o ser humano está em declive. Mas os vejo como intrigantes. Evoco Beckett e também, um dos aforismas de Sergio Abaldi, que numa sentença visceral, diz que "é antagônico que o homem seja seu próprio protagonista já nunca pode afirmar-se como tal, dado que sua conduta é a negação constante de si mesmo." ( In “El eterno grito de la existência”, Ed Centro Cultural Borges, Buenos Aires, 2007).

Escrito por JOSÉ DO ESPIRITO SANTO às 12h35
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Eros impuro
Espetáculo escrito e dirigido por Sérgio Maggio. Com J. Abreu. De hoje a 22 de maio, no Teatro Goldoni (Casa D’Itália - EQS 208/209 Sul - 3443-0606). De quinta-feira a sábado às 21h e aos domingos, às 20h. Ingressos a R$ 20 e 10 (meia). Não recomendado para menores de 16 anos.

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