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quinta-feira, 12 de maio de 2011

Beijos de iguais



Conceição Freitas
conceicaofreitas50@gmail.com
Não vou fingir que eu não sou boa nisso — fingir é uma arte, elogiável arte de se livrar de pequenos ou grandes aborrecimentos. Não sou boa nela. Então, vou logo dizendo: uma das fotos da capa do Correio de ontem me causou certo incômodo. Estranho é que não foi a das duas moças, Renata e Franciely, uma delas envolvendo a outra com o braço direito e beijando-a na bochecha. A foto que me deixou retorcida dentro de mim foi a dos dois homens se beijando na boca, beijo sensual, de olhos fechados e lábios carnudos. Evaldo envolvia com seus lábios o lábio superior do parceiro. Sérgio recebia a carícia com boca de desejo e língua pronta para agir.
O beijo das moças não me incomodou porque tentou me enganar. Fez de conta que era um beijo de amigas ou de irmãs, um beijo assexuado. Era o que uma delas expressava com seus olhinhos abertos e sorriso de boca fechada — uma menina aprontando uma desobediência e dizendo ‘liga, não, é brincadeira de criança’.
O beijo dos dois homens não teve essa ingênua malícia, foi beijo cheio de desejo. Eles diziam, com suas bocas coladas, os olhos Sérgio fechados e de Evaldo entreabertos que ali havia luxúria, que eles fazem sexo, sim, seja lá como cada um dos espectadores do beijo imagine que seja essa atividade sexual.
Foi aí que descobri: o beijinho doce das garotas não me incomodou porque conseguiu direitinho me tranquilizar. ‘Não há nada estranho aí, só duas meninas brincando de selinho’. O beijo carnívoro dos homens não pretendeu suavizar o que afinal significa um casamento gay — a união afetiva e sexual de dois iguais.
Estranhei sim, porque não estou acostumada a ver beijo sexualizado entre dois homens nem entre duas mulheres — as novelas não mostram, o cinema só de vez em quando, e os jornais, por conservadores que são, evitam ferir a retina dos leitores.
Eu que vá cuidar do meu estranhamento. A foto dos dois homens se beijando lubricamente bate no estômago dos que ainda não aprenderam a lidar com a democracia sexual que começou a ser construída nos anos 1960. O corpo e o desejo são propriedade e responsabilidade de cada um. O que farei de minha boca e de minha língua é problema meu. E a boca do Sérgio e do Evaldo são pertencimento deles. Se eu estranhei, azar o meu. Meu desconserto não me dá o direito de abrir a minha boquinha para julgá-los.
Trata-se de amor, de afeto, de duas pessoas querendo cuidar uma da outra, dispostos a pegar a estrada por quanto tempo durar o desejo de combinar os passos, o ritmo e a intensidade da caminhada e de tudo o que fizerem juntos. O amor é lindo de qualquer jeito. É o que de melhor dois humanos podem fazer juntos, amar um ao outro. Mais meia dúzia de fotos como a de ontem e meus olhos vão se acostumar com o beijo sensual de bocas do mesmo sexo.

Um comentário:

Amanda Sá disse...

Conceição, que lindo, eu queria beijar a sua boca