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terça-feira, 5 de abril de 2011

Salve, Chico!


Sérgio Maggio


Artista múltiplo, Chico Anysio ganha livros de contos e extensa mostra no Canal Brasil: reverências ao mestre (Antonio Cunha/Esp.CB/D.A Press )
Artista múltiplo, Chico Anysio ganha livros de contos e extensa mostra no Canal Brasil: reverências ao mestre

Depois de quase quatro meses de internação e do risco de morte, Chico Anysio está em casa, mais tranquilo e recuperando-se a olhos vistos. Diariamente, a mulher, Malga di Paula, informa detalhes da melhora dele pelo Twitter (@oficialchico). No domingo, ela divulgou uma foto do avô ao lado das netas, as filhas do comediante Nizo Neto.

— Domingo feliz para vovô Chico. Isabela e Sofia passaram a tarde com ele.

Dias antes, contou detalhes sobre o retorno à rotina. Conhecido bom de garfo, o humorista tem se alimentando bem e dado trabalho à cozinheira.

— Ela faz tudo o que ele quer. Tomou uma bela sopa de feijão, assistiu (a jogo de) tênis, depois vôlei e agora dorme feito criança. Delícia tê-lo aqui, conta Malga.

Durante a internação, Chico Anysio parou de falar por conta dos aparelhos da UTI e de sucessivas traqueostomias (ele ainda exibe o curativo na garganta). Agora, retomou o diálogo.

— Acabo de acordar com as vozes de Chico Anysio e Bruno Mazzeo na varanda de casa. Muito bonitinho os dois conversando sobre tudo, exalta Malga.

Enquanto o mestre do humor brasileiro se restabelece da luta para recompor a saúde, a arte construída em seis décadas circula em alta velocidade. Além das reprises de A escolinha do Professor Raimundo e do Chico Total, que lideram a audiência no Canal Viva, os trabalhos em diferentes linguagens ganham natural visibilidade. No Canal Brasil, entre os dias 11 e 21, começa a mostra Chico Anysio 80 anos, com filmes, entrevistas e especiais, enquanto, no mercado literário, é lançada a coletânea O fim do mundo é ali, da Editora Prumo, exibindo a voraz verve narrativa.

Multicriador, o dramaturgo, roteirista de cinema, diretor, radialista, comentarista esportivo, contador de anedotas, pintor de marinhas, escritor e ator de televisão, cinema e teatro, com mais de 11 mil apresentações de stand-up comedy (ele é um dos pioneiros desse gênero de comédia no país ao lado de Dercy Gonçalves e José Vasconcellos), Chico Anysio apura o olhar cotidiano para desfiar o humor próprio em narrativas fluídas no livro O fim do mundo é ali. Como em Chico festeiro, que abre a obra estimulando o apetite dos leitores, numa história, em clima de “causo”, com uma crítica social forte aos pequenos delitos do dia a dia. Marca que caracterizou o humorista, fortemente censurado na época da ditadura militar, por fazer de Chico city, nos anos 1970, um microcosmo do Brasil rasgado ao meio pela corrupção.

No conto, um sujeito esperto, apropriando-se da capacidade de organizar os festejos da cidade de São Roque, acerta, em contrato com a prefeitura da cidade, que, a cada citação feita no discurso ao nome do santo padroeiro, ele ganhará um dindim a mais. Uma parte do longo palavrório diz:

— Vejam que até os sapos da lagoa cantam hosanas ao poderoso São Roque, naquele seu cantar característico: roque, roque, roque, roque…
É a qualidade desse riso algo que faz dos contos de Chico Anysio um instigante mapa de humor. Em Menor abandonado, toda a narrativa dramática explode na última linha, que aqui vale bem guardar o segredo, num desfecho crítico, anedótico e até corrosivo. É irônico como nas primeiras frases de Dois silvos breves: pare!


— A história aconteceu naquele período em que, neste país, era passível conseguir-se pistolão. Airosa época de padrinhos de deputados que nos davam merecidos empregos vitalícios e polpudos acréscimos salariais. Hoje, é essa imoralidade de tudo nas regras, tudo de acordo com os cruéis regulamentos e correndo os antipáticos trâmites legais. De que vale, neste tempo indecente atravessamos, um tio senador ou general?
Muitos contos, aliás, vêm marcadamente influenciados pelo olhar de cronista e de homem de televisão. Explodem aos olhos do leitor como uma forte narrativa imagética. Entre Estácio e Realengo é um dos mais emocionantes.


— Tinha já quase cem anos, já quase cem, bem vividos. Bem vividos é o modo de se falar, é só isso. Nunca ter tido doença das que matam ou maltratam era o único motivo de se usar “bem vividos”. Mas tinha quase cem anos — coisa dura de se achar… Quase um século vivido é de se admirar…


Programação Chico Anysio - 80 anos (Canal Brasil)

# 11/04 às 18:30 Chico Anysio - 80 Anos - MPBambas, com Chico Anysio
# 11/04 às 19:00 Chico Anysio - 80 Anos - Chico Anysio É
# 12/04 às 10:30 Chico Anysio - 80 Anos - MPBambas, com Chico Anysio
# 12/04 às 11:00 Chico Anysio - 80 Anos - Chico Anysio É
# 12/04 às 18:30 Chico Anysio - 80 Anos - Tarja Preta, com Chico Anysio
# 12/04 às 19:00 Chico Anysio - 80 Anos - Doce Esporte do Sexo, O
# 13/04 às 10:30 Chico Anysio - 80 Anos - Tarja Preta, com Chico Anysio
# 13/04 às 11:00 Chico Anysio - 80 Anos - Doce Esporte do Sexo, O
# 13/04 às 18:30 Chico Anysio - 80 Anos - Todos os Homens do Mundo, com Chico Anysio
# 13/04 às 19:00 Chico Anysio - 80 Anos - Eu Sou O Tal
# 14/04 às 10:30 Chico Anysio - 80 Anos - Todos os Homens do Mundo, com Chico Anysio
# 14/04 às 11:00 Chico Anysio - 80 Anos - Eu Sou O Tal
# 18/04 às 18:30 Chico Anysio - 80 Anos - Entrei de Gaiato
# 19/04 às 10:30 Chico Anysio - 80 Anos - Entrei de Gaiato
# 19/04 às 18:30 Chico Anysio - 80 Anos - Tanga - Deu no New York Times?
# 20/04 às 10:30 Chico Anysio - 80 Anos - Tanga - Deu no New York Times?
# 20/04 às 18:30 Chico Anysio - 80 Anos - Mulheres à Vista
# 21/04 às 10:30 Chico Anysio - 80 Anos - Mulheres à Vista

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