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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Nossa Olímpia// Trair e coçar é só começar

Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, Anastácia Custódio, protagonista do fenômeno Trair e coçar é só começar, comemora as mil apresentações que já fez da peça

Sérgio Maggio


A empregada doméstica mais famosa do teatro brasileiro já varou a noite no Conic, ensaiando o sonho de se tornar atriz. Deliciava-se no Mutirão de Arte que tomava conta do metro quadrado mais pulsante do Plano Piloto, transformando-o num efervescente território cultural. Arrebitava o nariz quando lembrava que teve a honra de inaugurar a Sala Conchita de Moraes com Inspetor geral, e tinha suspiros ao encontrar, nos corredores e elevadores da faculdade, o mito Dulcina de Moraes — ali em carne, osso e perfume francês.

— Ah, era um presente dos deuses do teatro, conta Olímpia, ou melhor, Anastácia Custódio, que desde 2005 encarna a espevitada serviçal, que faz de Trair e coçar é só começar, de Marcos Caruso, um dos fenômenos do teatro brasileiro no século 20.

Dona de um recorde registrado no Guinness book (edições de 1994 a 1997), como o espetáculo de maior temporada ininterrupta do teatro nacional, a peça está para a história artística de Anastácia Custódio assim como a atriz para a lista de célebres atrizes que viveram Olímpia. Suely Franco, Marilu Bueno, Ana Rosa, Denise Fraga, Vic Mitello e Iara Jamra foram algumas das 13 Olímpias que Trair e coçar teve em 25 anos de palcos, com seis milhões de espectadores em cerca de nove mil apresentações.

— Não sei precisar quantas sessões já fiz ,mas, com certeza, já foram mais de 1.000. Antes de assumir o papel, em junho de 2005, eu já substituía esporadicamente a Carlinha (Fioroni), que fazia a Olímpia nessa época. Só de 2005 pra cá, foram mais de 900, contabiliza.

Anastácia Custódio se encontrou com Olímpia pela primeira vez em São Paulo. Ela na poltrona; a personagem, no palco, dando o show de confusões que movimenta a comédia de costumes de Marcos Caruso. Ela riu de se esbaldar e, ao fechar as cortinas, foi enfrentar os desafios da vida. O maior deles: estabelecer-se como atriz, numa das mais concorridas praças do mercado brasileiro. Certa vez, estava matriculada no curso de interpretação de Attílio Riccó, o diretor de Trair e coçar, quando a produção apontou a necessidade de uma intérprete para ser stand in (eventual substituta) da empregada.

— Fui fazer o teste e passei. Jamais imaginei que um dia fosse fazer Trair e coçar, ainda mais a Olímpia, que é um grande presente pra carreira de qualquer intérprete. É uma personagem riquíssima e um grande desafio diário. Não há como não se tornar uma atriz melhor depois dessa experiência. Aliás, graças ao talento do Marcos Caruso, o Brasil tem esse marco que é o Trair e coçar na história do teatro.

Como Dulcina
Com o papel de Olímpia, Anastácia Custódio passou a experimentar o sonho de viver de teatro. As turnês se emendavam Brasil afora, algumas com apresentações de terça a domingo, como era nos tempos da companhia de Dulcina de Moraes e Odilon Azevedo. Em algumas cidades, havia sessões duplas, e, às vezes, a temporada ocupava dois teatros diferentes no mesmo município. Em São Paulo, por exemplo, ela fazia Olímpia quarta e quinta na Zona Norte e, de sexta a domingo, na Zona Sul. O trabalho corrido, no entanto, nunca maculou o que há de mais sagrado no teatro: o encontro do artista com o público.

— Todos os dias, sem exceção, sinto um frio na barriga. O nervosismo e a insegurança estão sempre presentes. Aliás, é essa insegurança que nos motiva a buscar o acerto a cada espetáculo. Todas as noites, assim que saímos do palco, comentamos a peça sugerindo alterações, ajustando cenas, corrigindo falhas etc. Acho fundamental para manter o frescor da montagem e, tudo isso, aliado aos ensaios que acontecem periodicamente.

Diariamente, Olímpia ensina à Anastácia o traquejo de enfrentar teatros lotados e fazer uma multidão rir em uníssono como se ela fosse uma maestrina que rege um concerto afinado. A atriz conta que aprendeu raras lições com a personagem.

— Como pessoa, valorizei ainda mais a essência de cada ser humano. E percebi a riqueza da simplicidade. Como atriz, tive a certeza de que, quanto mais exercitamos, mais temos a aprender.

Não à toa, Anastácia adora a frase que Olímpia responde ao patrão, Dr. Eduardo, quando este lhe pede um certo favor:

— Ela diz que pode fazer, mas tem um pequenino porém: “Levanta o polegar, estica o indicador e agora esfrega.”

Evoé, Olímpia!



BODAS DE PRATA
» O texto de Trair e coçar é só começar, de Marcos Caruso, acaba de sair numa edição comemorativa de 25 anos. Anastácia Custódio comemora a publicação. Lembra que antes só os atores e técnicos tinham acesso à peça, que estreou em 26 de março de 1986, com direção de Atillo Riccó. O autor escreveu o texto num período de grandes dificuldades financeiras. Assim que chegou aos palcos, a montagem o tirou do sufoco. A peça é um vaudeville, gênero de comédia de costumes em que ele, Jandira Martini e Juca de Oliveira são ases no Brasil. Os produtores Radamés Bruno e Viviane Procópio planejam, nessa bodas de prata, realizar uma apresentação com renda integral para a o Retiro dos Artistas, ir à praça pública em São Paulo, fazer uma exposição comemorativa, lançar produtos da linha Trair e coçar e montar temporada festiva no Rio.

Três perguntas - Anastácia Custódio

Quando você olha para trás e vê a Olímpia dos primeiros tempos, o que você acha que essa temporada lhe permitiu burilar na personagem?

A proposta para essa temporada de 25 anos é o resgate da versão original. Os produtores do Trair e coçar, Radamés Bruno e Viviane Procópio, contrataram José Scavazine, atual diretor assistente, para realizar esse trabalho. Na temporada passada, tivemos a direção artística do Alexandre Reinecke, que imprimiu uma outra linguagem. A cada temporada, estamos em busca da “perfeição”, tornando as personagens ainda mais minuciosas e, como jamais a alcançaremos, a busca será incessante e o desafio permanente.

Viver de teatro no Rio e em São Paulo é o sonho de muitos atores que estão fora do eixo, a exemplo de Brasília. Como você venceu essa batalha?

Continua sendo uma batalha diária e, apesar das dificuldades e percalços, a paixão e o desejo de viver da profissão são ainda maiores. Mas, graças a Deus, tem sido uma vitória a cada dia. Talvez o caminho seja exatamente esse: nunca desistir.

Tem acompanhado alguma produção brasiliense?

Sempre vou a Brasília visitar a minha família e procuro acompanhar o que está acontecendo na cidade. Aliás, Brasília tem atores maravilhosos, e as produções da cidade não deixam nada a desejar a nenhum dos grandes centros culturais. Fico muito feliz quando vejo uma produção brasiliense fazendo sucesso em São Paulo.

Um comentário:

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