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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Eros no palco

Quando o erotismo brinca com a loucura

Em Eros impuro, o ator J. Abreu injeta cargas de emoções num monólogo que trata de sexualidade e opressão social

Mariana Moreira

J. Abreu entre delírios e rompantes de sanidade, o pintor se relaciona com pessoas que habitam suas memórias (Sérgio Maggio/Divulgação)
J. Abreu entre delírios e rompantes de sanidade, o pintor se relaciona com pessoas que habitam suas memórias

Durante o período em que dava aulas de história da arte para adolescentes e precisava abordar a nudez de forma apropriada para a idade dos alunos, o ator e artista plástico J. Abreu começou uma pesquisa ligada ao erotismo. Dessa autoprovocação artística, surgiu o desejo de pintar o esboço de um quadro: o torso nu de um homem. “Não é nada explícito, apenas sugere algo que pode ser erótico”, explica ele. A tela foi feita há 13 anos, mas acabou instigando o jornalista e dramaturgo Sérgio Maggio, que viu o quadro durante uma visita, e decidiu criar uma história para este homem sem face. “Percebi que a imagem tinha muita energia sexual e, numa brincadeira, passamos a especular sobre o que estava por trás dessa figura”, conta Maggio, autor da peça Cabaré das Donzelas Inocentes. O exercício dramatúrgico ganhou camadas e se transformou em Eros impuro, monólogo que estreia hoje, às 21h, no Teatro Goldoni, e celebra os 25 anos de carreira teatral de J. Abreu.

Desde que começaram a desenvolver o texto, em 2007, autor e ator criaram Andrei, o Eros do título, um homem obcecado pela necessidade de pintar uma imagem que o atormenta desde a infância, o tronco masculino que deu origem à peça e que Abreu volta a esboçar na tela, no início de cada sessão. O artista, no entanto, não consegue terminar a obra, oscilando entre estados de lucidez e loucura. Seus lapsos de insanidade são o reflexo de uma sexualidade mal resolvida. “A humanidade vai caminhando em função do que a sociedade dita, e isso causa problemas muito sérios. Esse personagem, por exemplo, está perdido em uma carga de emoções ligadas à sexualidade que a sociedade oprimiu”, explica o ator. Entre delírios e rompantes de sanidade, o pintor se relaciona com pessoas que habitam suas memórias e com outras que se cristalizam em cena, todas vividas por J. Abreu.

Enquanto o espetáculo ia ganhando forma, a dupla decidiu tentar um patrocínio que permitisse a montagem. Acabaram conseguindo uma verba do Fundo de Apoio à Cultura (FAC). Maggio, autor do livro Conversas de cafetinas (Prêmio Jabuti), acabou elegendo o trabalho para ser seu projeto final da pós-graduação em direção teatral, na Faculdade Dulcina de Moraes. “A pesquisa envolveu uma imersão literária, conversas com psicólogos e até uma visita do ator ao Hospital de Pronto Atendimento Psiquiátrico (Hpap), em Taguatinga. Neste mergulho no universo da loucura, Abreu pegou emprestados a postura, o gestual, a impostação vocal e o comportamento de alguns dos pacientes com quem conviveu. “É uma experiência bruta, distante da nossa vida. No hospital, ainda encontrei a Valéria (uma paciente), que tem muitas semelhanças com o percurso de Andrei. Ele é 80% Valéria”, afirma J. Abreu.

Criação coletiva
Aproximar-se da loucura não foi a única exigência do processo. Acostumado a destrinchar o texto teatral antes de ensaiar as cenas, o ator teve de se submeter a uma criação compartilhada proposta pela direção. Tendo como guia o texto original, artistas de áreas variadas deram sua contribuição para o monólogo. “Com um parceiro em cena, você relaxa e brinca. Sozinho, você concentra os olhares, que por mais que sejam olhares amigos e carinhosos, também são críticos. Afinal, é um trabalho”, explica.

O carioca recém-chegado à cidade Carlos Chapéu criou a cenografia, a iluminação ficou por conta de Vinícius Ferreira, Maria Carmen assinou os figurinos e a trilha sonora é de autoria do DJ Biondo. João Angelini responde pelo visagismo e o cineasta Thiago Moysés ainda criou uma projeção para a cena final, em que Andrei/Eros contracena com a imagem do ator Kael Studart. “Estou feliz por ter conhecido, nesses 25 anos, centenas de atores, dezenas de diretores, técnicos maravilhosos e por ter um leque de amigos e de mestres bacanas”, comemora.

Eros impuro
Espetáculo escrito e dirigido por Sérgio Maggio. Com J. Abreu. De hoje a 22 de maio, no Teatro Goldoni (Casa D’Itália - EQS 208/209 Sul - 3443-0606). De quinta-feira a sábado às 21h e aos domingos, às 20h. Ingressos a R$ 20 e 10 (meia). Não recomendado para menores de 16 anos.


PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS
» O encantamento com a arte se manifestou aos 7 anos, quando J. Abreu foi com a mãe a uma peça religiosa. Da arquibancada, ele mal distinguia as falas ou o enredo, mas a atenção foi fisgada pelas roupas dos atores, de inspiração greco-romana. “Ali encontrei o caminho”, revela. As primeiras experiências no palco foram nos tempos da escola. Ele foi convidado por Jesse Moreira, antigo colega que se profissionalizou, para montar a peça Natal na praça, dirigida por Carlos Félix. O ator acabou cursando artes plásticas, mas foi o teatro que definiu seus rumos profissionais. Nos últimos 25 anos, já atuou em mais de 40 espetáculos. Entre eles, Reveillon, espetáculo de Guilherme Reis que inaugurou o Teatro Goldoni, em 1991, palco ao qual ele volta para comemorar 25 anos.

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