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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Crítica// As três velhas

Divulgação

O banquete fino de Maria Alice Jodorowsky

Sérgio Maggio

Antropofagia. O conceito que ajudou a colocar o teatro brasileiro com os dois pés no terreiro da contemporaneidade é o norte estético de As três velhas. Não só pela cena explícita em que a personagem/persona de Maria Alice Vergueiro se oferece para ser devorada no palco. Mas, sobretudo, pela maneira como a diretora e atriz deglute não só a dramaturgia de Alejandro Jodorowsky como a si mesma. O mal de Parkinson da atriz, por exemplo, é regurgitado pela personagem Garga de forma tão intensa, que parece orquestrar todo o movimento descontrolado dos atores em cena. Como uma maestrina de mãos aflitas, Maria Alice rege e reflete esse frisson nos corpos de dois atores excepcionais: Pascoal da Conceição e Luciano Chirolli.

Uma das maiores atrizes brechtianas deste país, Maria Alice Vergueiro se distancia e se aproxima de Garga, com tamanha maestria, que é possível acessar o âmago da obra de Jodorowsky rapidamente. Ela por si só denuncia o peso do tempo sobre o corpo, o desarranjo do corpo físico — eixo central da narrativa, sem precisar avançar tanto nos diálogos cortantes do autor. Está ali a denunciar que o grande patrimônio de Maria Alice/Garga é o que se constrói no campo da experiência, "na alma", como bem diz Jodorowsky.

As três velhas arranca, sem pudor, as máscaras sociais. Põe diante do espectador as faces monstruosas de personagens movidas pelo poder, pela gana, pela mentira. Sem meias palavras, Jodorowsky e Maria Alice, aqui juntos num mesmo corpo, oferecem à plateia uma sociedade doente, quase em convulsão. É preciso olhar atentamente o menu: zoofilia, incesto e toda qualidade de hipocrisias. Isso tudo regado aos refrescos Lulu, ícone maior do sistema capitalista que patrocina as carruagens nefastas das marquesas.

Se, no primeiro momento, a montagem estranha e choca alguns iniciados no teatro, mais adiante eleva o espectador para dentro desse questionamento voraz sobre a dicotomia: decadência do corpo físico x amadurecimento da experiência/alma. As marquesas decrépitas, mesmo com suas centenas de intervenções cirúrgicas, mamam nos seios da mãe Garga, como se estivessem sugando o que resta de energia da criada moribunda. Ou sorvem o falo de um ser mítico, um Exu do candomblé, um Zé Pilintra da umbanda, como se fosse fonte de renovação de uma vida em frangalhos.

Apesar do natural tom de comédia grotesca, As três velhas ergue, no palco do CCBB, a farsa da aventura humana, expõe as misérias do homem como numa tenda de feira, com as vísceras penduradas pelos gancho, pingando sangue e postas à venda. Maria Alice Vergueiro e Alejandro Jodorowsky, juntos num corpo só, não poderiam fazer outra coisa a não ser trilhar naturalmente o que construíram no campo da arte inquieta. Salve a coerência artística, que não se abate diante de nenhum mal e sobrevive à inevitável falência do corpo humano.

4 comentários:

Celso Faria disse...

Assisti a peça. Realmente não me dignei a falar sobre ela no meu blog, não tinha tantas condições intelectuais para tanto. Parabéns e agora acho que entendi um pouco melhor a montagem impactante. Vc precisa colocar um link no seu blog para Twitter, por exemplo, para quando quisermos dividir seus posts.

Sérgio Maggio disse...

OI querido, obrigado, Obrigado pela dica, vou tentar fazer isso, bjs

Anônimo disse...

Caro Sérgio

Sua critica me emocionou, vc sacou a peça com inteligência e emoção e não deixou de valorizar
a corrosiva crítica que está intrínseca no nosso fazer teatral.
Saio de Brasília com a alma lavada !!!!!
Obrigado
Luciano Chirolli

Sérgio Maggio disse...

OI Luciano, que honra dialogar com você aqui. Este teatro é revelador. Saí de alma lavado, em êxtase e tragado. Obrigado