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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Bate-papo com Maria Alice Vergueiro e Luciano Chirolli

Yale Gontijo

Publicação: 14/04/2011 07:04 Atualização: 14/04/2011 07:07

Maria Alice e Luch comungam da mesma forma antropofágica de ver e fazer teatro: cumplicidade exposta em espetáculo inquietante (Antonio Cunha/Esp. CB/D.A Press)
Maria Alice e Luch comungam da mesma forma antropofágica de ver e fazer teatro: cumplicidade exposta em espetáculo inquietante

Quem assistiu ao vídeo Tapa na pantera disponível no YouTube e não conhecia a trajetória da atriz Maria Alice Vergueiro teve, no encontro, a impressão de estar diante de uma intérprete até então desconhecida. Ou o depoimento verdadeiro de uma senhora, usuária de uma certa erva alucinógena. Mero engano. A atriz tem 76 anos e um currículo tão extenso quanto impressionante. A veterana de mil talentos recebeu o tratamento de “a dama suja do teatro underground” ou “paladina do teatro experimental no Brasil” por causa da trajetória quase guerrilheira nos principais movimentos teatrais no Brasil durante os anos 1960, o Teatro de Arena e o Opinião. Sempre evitou a assepsia estética da tevê a cores. Apesar dos 5 milhões de acessos em Tapa, a atriz de teatro Maria Alice continua ainda desconhecida do grande público. No palco do CCBB, ela dirige e atua em As três velhas, montagem na qual divide a cena com Luciano Chirolli e Pascoal da Conceição, em cartaz até 1º de maio.

Sensação de espanto experimentam também aqueles acostumados a assistir participações do ator Luciano Chirolli em novelas globais. Em As três velhas, ele se revela um “monstro”, capaz de enlevar muitas faces no mesmo personagem. O papel da marquesa Melissa rendeu a Chirolli o prêmio Shell de melhor ator em palcos paulistas de 2010. O texto é de Alejandro Jodorowsky. Multiartista, o chileno também tem um lado místico que lhe rendeu a alcunha de "mestre" dado por vários seguidores ao redor do mundo. Uma das seguidoras é a atriz Maria Alice, que participou de uma consulta de tarô feita pelo cineasta/tarólogo no Brasil em 2007. Do encontro, surgiu a inspiração para montar o espetáculo escrito por Jodorowsky.

Maria Alice disparou mais declarações numa conversa informal durante carona de carro do CCBB para o hotel. Uma polêmica: "Pode colocar aí. Maria Alice Vergueiro é a favor da pirataria." Outra, opinião própria: “Sim, Brecht liberaria a própria obra na internet sem parcimônia. Não tenho dúvidas disso.” E um desejo: “Gostaria de me reunir com a presidente Dilma Rousseff numa audiência como educadora mesmo (a atriz foi professora universitária durante muitos anos). Mas, não sei como conseguiria chegar até ela”. Luch e Maria Alice (os tratamentos que os dois dispensam entre si) celebram aqui, nesse bate-papo, a amizade profissional de 20 anos.


Um encontro místico com um texto de teatro já tinha acontecido antes?
Maria Alice — Acredito um pouco nessas coisas mágicas. Gosto de trabalhar com essas inspirações. Tinha ouvido falar do Jodorowsky nos anos 1960. Nem sabia que era chileno. Com esse nome, tinha a impressão de que fosse russo. Na consulta de tarô, ele falou que uma figura masculina me inspiraria. Pensei no Zé Celso e no Luch. Mas, eles já tinham me inspirado antes. Jodorowsky falou de uma figura nova. Descobri esse texto do próprio autor e estou muito presa a essa peça. Jodorowsky não fala que são dois homens interpretando papéis femininos. Resolvi trazer o Luch porque ele é um grande ator camaleônico, que te passa uma experiência profunda. Isso me estimulou muito. Poder trazê-lo para o palco como protagonista. Cada vez mais a ideia de fazer a peça se tornava imprescindível.

Luciano Chirolli — Levo a vida exercitando minha carreira, mas, quando me encontro com a Maria Alice, é sempre para ter um salto qualitativo como ator. Enquanto ela não me deu um prêmio Shell, ela não sossegou.

Maria Alice — Eu não pensava em ser atriz desse espetáculo. Luch revelou para mim a possibilidade de atuar também. Estava muito amedontrada por causa da minha deficiência física e, sobretudo, por causa do Parkinson que vai me deixando trêmula. Eu coloco as minhas deficiências na personagem. Isso é uma cura também. Catártica! Se eu estou tremendo em cena, deixo tremer. Faço virar uma outra coisa.

Então, também é uma maneira de ir além do seu limite pessoal?
Maria Alice — É o que o Jodorowsky fala na teoria dele. É preciso ultrapassar o seu limite, a sua fronteira pessoal. Ser uma pessoa do mundo. Do mundo interior também. Isso continuou me inspirando e parti para a possibilidade de fazer. A vinda a Brasília é a continuação desse trabalho. Conheço a plateia de Brasília, acho a turma instigada, curiosa. Aqui se concentra a curiosidade. É uma moçada legal.

Esse destemor também vale para o seu trabalho de direção?
Maria Alice — O teatro nasce do encontro. Acho muito difícil que alguém conceba um espetáculo sozinho. No âmago da questão, é um encontro. É um fenômeno que acontece na frente do público. Não adianta tentar fazer outra coisa. E o Jodorowsky traz as coisas para o naturalismo. Ele discute o aqui e o agora. Ele discute o mito. Mas, bate sempre em um ponto: a tomada de inconsciência sem partir para o irracional. Ele não abandona o racionalismo.

Luciano Chirolli — O que me impressiona, no texto e na direção de Alice, é a possibilidade de falar do trash, trágico, cômico, bizarro, patético num melodrama grotesco. Isso tudo em uma hora. Nós quisemos entrar no caminho místico primeiro. Fábio Furtado tirava tarô entre nós. Maria Alice gosta de tirar o I-ching. Com o passar do tempo, a gente percebeu que a situação era clara. Dada pelo autor em diálogos rápidos, cortantes. É pragmático nesse sentido. Não adiantava muito misticismo.

E a relação com a atriz Maria Alice?
Luciano Chirolli — É misteriosa a entrega da Alice. Ela está no limite em que se constrói um mistério para quem vê. Isso a torna uma atriz única nesse país. As atrizes que estão por aí não podem chegar a esse despudor. Na peça, a personagem Garga se oferece para ser comida pelas marquesas (Pascoal da Conceição completa o elenco fazendo o papel da marquesa Graça). A gente ia sugerir na palavra. O Jodorowsky sugeriu assim. Mas, a Maria Alice resolveu se oferecer de verdade. A sabedoria que ela está ofertando para nós dois mais jovens se concretiza por meio da antropofagia.

Maria Alice — Eu vejo que, no meu caso, não quero mais ser a personagem, quero ser a persona. Eu, Maria Alice, já posso oferecer aos jovens uma experiência verdadeira. Foi o que aconteceu no Tapa na pantera. Os jovens sempre me perguntam se eu fumo maconha de verdade. É como se o ator pudesse abandonar sua personalidade. Querem saber onde está a divisão entre atriz e pessoa. Ser ator é abandonar também a sua personalidade. Se você for muito pessoal, deixa de ser atriz. Onde está o limite então?

Mas ela pode fazer isso também por não ter se estabelecido como atriz de televisão. Isso não influenciou?
Maria Alice — É também. Eu não preciso salvar nada. Mas, são os meus 76 anos também. Agora não dá para se dar de uma maneira simplória. Você (Luch) também faz isso.

Luciano Chirolli — Eu sigo a sua escola. Não sigo o seu caminho, mas sigo os caminhos que você me abre.


AS TRÊS VELHAS
Direção: Maria Alice Vergueiro para texto de Alejandro Jodorowsky.
Com Maria Alice Vergueiro, Luciano Chirolli e Pascoal da Conceição. De hoje a sábado, às 21h e domingo, às 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil (SCES, Tc. 2, Cj. 22; 3310-7087). Ingressos: R$ 15 e R$ 7,50 (meia). Não recomendado para menores de 16 anos
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