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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O homem que devia demais

Sérgio Maggio

Quando eu conheci o homem que devia demais, ele tinha colocado as cartas na mesa. Ou melhor, os cartões de crédito, de diversas bandeiras e bancos, parecia um baralho multicolorido. Diante de mim, ele suplicava ajuda financeira. Já não conseguia mais pagar todas as faturas. Estava mais uma vez encalacrado, na parede, pensando em vender livros, CDs e DVDs aos sebos da cidade.

— O dinheiro que ganho mal dá para pagar o aluguel no Sudoeste e contas básicas, como lavanderia, supermercado e gasolina, disse quase murmurando.

O tom de segredo tinha uma explicação. Os amigos e conhecidos de última hora não sabiam do aluguel. Para todos, o homem que devia demais contava que o apartamento era próprio. A reforma, acertada com o consentimento da corretora, foi propagada aos sete cantos de Brasília.

— Gastei uma pequena fortuna com um dos arquitetos mais badalados da cidade, daqueles que vivem nas colunas sociais e têm estande na Casa Cor. Ficou um luxo, mas estourou dois cartões de crédito, disse quase delirando.

Para cobrir essa divída, o homem que devia demais teve que refinanciar o carro importado, que acabara de quitar. O automóvel automático chamava a atenção por onde passava. A cada quilômetro rodado, ele sentia olhares de cobiça na joia sobre quatro rodas, cujo seguro não conseguiu renovar, por motivos evidentes.

— Provavelmente, não terei dinheiro para a próxima revisão. Torrei dinheiro com shows em São Paulo e no Recife. Isso sem falar no passaporte completo pro Rock in Rio 2012 e a hospedagem na Vieira Souto. Nem sei como vou comer lá, mas isso eu dou um jeito, prospectou quase gargalhando.

O status do homem que devia demais não crescia na velocidade de suas dívidas, decerto, mas era respeitável em Brasília. Funcionário público de uma das instituições mais cobiçadas pelos concurseiros, ele chamava a atenção pelo fato de ter mais do que aparentemente podia. Era auxiliar administrativo 1. O cargo lhe envergonhava profundamente. Quando questionado nas baladas sobre a profissão, dizia que era consultor de tendências de mercados emergentes para a Euroásia. Mentir parecia algo tão natural como tomar um brunch aos domingos com espumante em cafés de luxo das Asas Sul e Norte.

— Tem café que nem posso aparecer mais porque só aceita pagamento em dinheiro. Para mim, é um investimento. Graças aos brioches, apareci numa matéria de duas páginas, com foto e tudo, no Correio Braziliense, revelou quase gozando.

O prestígio garantia a presença nas listas VIPs, em camarotes de shows, em vernissages e em estreias de espetáculos. A posse de Dilma, no entanto, ele preferiu acompanhar pelo home theather, numa recepção íntima com direito a pratos da cozinha contemporânea que cooptou do circuito gastronômico chique de Brasília.

— Votei nela com fé, mas não poderia pisar na Esplanada em 1º de janeiro de jeito nenhum. Primeiro, porque tinha aquele povo mal vestido e nada fashion. Segundo, poderia haver gente do meu setor. Terceiro, não consegui o convite VIP para a festa do Itamaraty. Então, preparei um risoto de camarão rosa com lascas de flores do campo sobre um leito de purê de peras vermelhas escoltadas por batatas baroas. Um prato feminino em homenagem à minha presidenta, revelou quase lacrimejando.

E eu acabei chorando com ele!

Um comentário:

Gilson Freitas Vilaça disse...

Parabéns Sérgio, gostei muito de seu texto. Conheço (principalmente aqui em Brasília) várias pessoas assim. Abraço, Gilsão. www.gilsonvilaca.blogspot.com