Languages

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O encontro de Camilla Amado com Denise Weinberg


Mariana Moreira

Publicação: 17/02/2011 08:17 Atualização:

Denise Weinberg Camilla Amado encontram-se pela primeira vez no palco do CCBB: afetividades  (Adauto Cruz/CB/D.A Press )
Denise Weinberg Camilla Amado encontram-se pela primeira vez no palco do CCBB: afetividades
Desde meninas, elas respiram teatro — cena, voz e movimento. Por caminhos diversos, descobriram palcos, coxias, textos e o prazer de se despir de si mesmas para dar lugar a muitas outras. Essas trajetórias, que incluem semelhanças (as duas têm forte vocação para o ensino, são professoras e preparadoras de elenco), só se cruzaram em Brasília. Camilla Amado e Denise Weinberg, duas damas do teatro brasileiro, acompanhavam-se à distância, nunca haviam trabalhado juntas antes. “Sempre quis trabalhar com a Camilla. Era uma aspirante e vi o Voo dos pássaros selvagens, com ela. Vi várias vezes essa peça”, conta Denise. Agora, descobriram-se nos bastidores da peça Quanto tempo da vida eu levo para ser feliz, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) até 27 de fevereiro, na qual vivem as mães dos protagonistas.Numa manhã de calor, elas receberam o Correio para um papo sobre o teatro.

O COMEÇO
Denise Weinberg —
Nunca pensei em ser atriz na vida. Sou bióloga, filha de pai judeu romeno, tive uma educação europeia. Ia a balé, teatro, concerto, fazia aula de francês e inglês.O teatro entrou como coisa de turma da praia de Ipanema. Aos 17 anos, a gente gostava de teatro, tinha as mesmas afinidades, então fui brincar. Tolentino (Eduardo, diretor do grupo Tapa) começou a escrever, fez papel para mim, para minha irmã, para os amigos da praia e eu comecei a gostar de ser atriz. O Tapa era um grupo extremamente autodidata e multidisciplinar: tinha gente da comunicação, biologia, arquitetura. Éramos profissionais liberais com angústias em comum e a arte era um bálsamo, uma necessidade, uma terapia diária.

Camilla Amado — Fui professora de latim, ajudei minha mãe, até ser expulsa do colégio Sion. Fui morar na Europa, tinha 16 anos e nessa época recebi um convite para fazer um teste para uma peça de teatro, concorrendo com 400 pessoas. Quando chegou a minha vez, não consegui falar nada, fiquei parada e fiz xixi na calça. Fui embora muito constrangida e derrotada. Dois dias depois, recebi um telegrama dizendo que tinha sido escolhida para fazer Pega-fogo (adaptação do filme francês Poil de Carotte). Pensei: uma profissão que me aceita na minha maior fragilidade é a profissão que eu tenho que seguir. Você só pode fazer qualquer arte se sentir que sem aquilo não se sente vivo.

O AGORA
Camilla —
Quando comecei, o teatro era feito em grupos e não havia a questão do patrocínio das empresas. Nós vivíamos de bilheteria. Ultimamente, os vereadores taxaram o decreto da meia-entrada generalizada, e, hoje, se você estuda francês ou cerâmica, paga meia. Os idosos, que são a parcela com maior renda, pagam a van, os salgadinhos, o motorista da van e pagam meia-entrada no teatro. O mais grave é a reação dos atores. Em vez de se unirem para questionar o decreto, a maioria optou por aumentar o preço das entradas. Perdemos nosso público real, a classe média baixa. Se você fizer espetáculos a preços populares, eles lotam.

Denise — O ofício do ator ficou extremamente banalizado. Hoje, qualquer pessoa é ator. O Brasil é o único país do mundo em que um ator de televisão é muito mais valorizado e bem pago do que um ator de teatro. Em qualquer lugar do mundo, um ator de teatro não faz novela. A educação teve um declínio e o teatro também. Há 15 anos, eu fazia teatro de quarta-feira a domingo, sete sessões por semana. Agora, a gente faz três, duas e já fiz temporada de uma peça por uma semana. Não é mais um ofício, é um hobby e para pagar as contas precisamos recorrer a outros trabalhos. Não vivemos mais da bilheteria, mas das migalhas que o governo dá, de editais. Um grupo de teatro de São Paulo ganha do estado, para fomentar a cultura, cerca de R$ 280 mil por ano. O que se faz com essa quantia? E os atores, os figurinos, o cenário?

TELEVISÃO
Denise —
Fiz televisão pela primeira vez há três anos. Teatro é a arte do ator, o cinema é a arte do diretor e a televisão é a arte do patrocinador. Na televisão, você fica refém do Ibope, a última coisa que faz é trabalhar artisticamente. Não ensaia, entra e se vira. Também tenho certo constrangimento pela fama, não gosto de ser reconhecida. Gosto do fazer teatral, de pessoas que se encontram para contar uma história. Na televisão, me sinto um E.T., mas os atores estão migrando para ela, para sobreviver. No teatro, a equação texto e atores é sempre a mesma, com pequenas mudanças, mas o público é uma variável constante. Existe uma energia que eu dou e recebo da plateia que não é possível na tevê ou no cinema. No palco, é preciso ser ator de cabeça, tronco e membros, um atleta físico e emocional. É preciso estar inteiro, não dá para editar, voltar, cortar e, naquele momento, tem gente olhando para o seu pé. Não é glamour, é ofício. Me sinto uma pedreira, bato pedra todo dia no teatro.

Camilla — Quando era moça, fiz com muito prazer o Teatro da TV Tupi, que era ao vivo. Quando surgiu o videotape, perdeu-se a linguagem. Esse último trabalho que fiz na televisão (Aline, na TV Globo) busca uma linguagem televisiva. Quando criou a TVE, meu pai (Gilson Amado) queria encontrar essa linguagem própria. Ainda estamos em tentativas, mas vamos conseguir. Eu adoro tevê, ela é minha amiga e companheira, mas não me sinto confortável fazendo. Não gosto da empresa. Já larguei duas protagonistas de horário nobre e o médico de uma emissora me deu diagnóstico de resistência à massificação. Estava gravando uma cena com figurantes e na hora deles entrarem o diretor disse, aos berros, ‘manda entrar esse bando de animais’. Não gosto da falta de educação e de carinho da televisão.

O BOM TEATRO
Camilla —
Teatro é quando o ator entra em cena e a personalidade dele ficou no camarim. É puro ar, pura respiração e com essa respiração ele dá a ilusão de ser outra pessoa. Você aceita o teu caos e organiza o teu caos desconhecido na hora da atuação. Quando você entra em cena e diz a primeira fala, pronto, está salvo do caos. Essa fala vai organizar a outra e a outra. Assim, me organizo de maneira livre e diferente, respiro bem e escuto meus colegas. Estar inteiro é estar totalmente ausente de si mesmo. Teatro é a arte da presença, e a presença, no teatro, é a ausência

Denise — O que mais me encanta é quando vejo um bom jogo. Para mim, teatro é igual a futebol. Tem que ter a equipe, um passa a bola pro outro, tem vibração, tem gol. Quando fica no nível da pelada não me interessa o jogo cênico. Gosto de ver que aquelas pessoas que estão contando aquela história estão inteiras ali. A hora mais feliz é quando estou no palco, porque descanso de mim mesma. Deixo a Denise fora e entro numa outra vibe. Acho bonita essa responsabilidade que o ator tem. Peço licença sempre para entrar, estar na frente daquelas pessoas e revelar a minha alma.

EDUCADORAS
Denise —
Virei preparadora de atores por necessidade de sobrevivência. Fizemos A megera domada, no Rio de Janeiro, e fomos um fracasso retumbante, perdemos tudo. Voltamos para São Paulo com uma mão na frente e outra atrás, fui morar no quarto de empregada da casa do diretor. Na época, Paulo Giardini (ator) sugeriu que a gente desse aula na sede do grupo Tapa. Sempre resisti porque achei que não tinha a menor paciência para dar aula, mas começamos e lotamos todas as turmas. Comecei a me encantar com essa história, vi que meu trabalho melhorou muito dando aula, porque via nos outros uma resistência que às vezes eu tinha. A gente aprende muito dando aula. Comecei a sair um pouco de mim.

Camilla — É nossa obrigação. Comecei a dar aula porque minha mãe dirigia uma escola pública e me botou para organizar um teatro em francês, montei O pequeno príncipe. Aí, ela se entusiasmou e me pediu para fazer o Plauto em latim. Aí fiz a Auluária, de Plauto (dramaturgo romano), em latim, na escola pública dela. De repente, os pais assistiam e riam. Teatro independe da língua. Depois, uma companhia argentina que montaria O milagre de Ann Sullivan, peça sobre a Helen Keller, que era cega, surda e muda, me pediu para ensaiar a atriz que faria o papel dela. Fiz testes com várias meninas, até a neta da Bibi Ferreira. Um dia, liguei a televisão e tinha uma menininha (Mariangela Melatto) cantando “é hora do lanche, que hora tão feliz. Queremos biscoito São Luiz”. Escolhi ela e comecei a trabalhar um papel dificílimo. Fui aprendendo a lidar e me perguntando: como vou fazer ela se sentir cega, surda, muda? Ela ganhou todos os prêmios.

CAMARIM
Camilla —
Eu falei e falo nesse camarim coisas que não falo para o meu analista. Faço mais cerimônia com ele do que faço no camarim. Quando o camarim acontece, é de uma abertura total, porque a gente não pode estar presa a nada pra entrar em cena. É um exercício de despudor e de falta de compromisso com o que você gostaria de ser. Ali, você é o que é e pronto.

Denise — Uma peça boa tem uma boa coxia e um bom camarim. A gente vê a coxia pelo resultado da peça. Se o clima ali está ruim, a peça não vai rolar

MANIAS
Denise —
Antes de entrar em cena, me agacho na coxia, respiro fundo e vou. Para tirar a máscara.

Camilla — Atualmente não tenho nenhuma mania. Antigamente, ficava na coxia agarrada a um livro do Stanislavski. No camarim, a gente brinca de deixar a personalidade vir. Brinco de me permitir ser aquela pessoa. Penso como é que eu seria se fosse a minha personalidade agora, aqui.

QUANTO TEMPO DA VIDA EU LEVO PARA SER FELIZ
Centro Cultural Banco do Brasil (SCES, Tc. 2, Cj. 22; 3310-7087). De hoje a sábado, às 21h; e domingo, às 20h. Ingressos: R$ 15 e R$ 7,50 (meia, válida também para clientes e funcionários BB). Não recomendado para menores de 14 anos. Até o dia 27.

Nenhum comentário: