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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Lições de uma socialite


Por Sérgio Maggio

Dona Edite mora quase dentro do Lago Paranoá. As águas lambem o jardim da casa adquirida por uma bagatela na época da construção de Brasília. Naturalmente, essa senhora de rosto solar se sente especial, chique para ser exato, em ter um abrigo tão nobre. Quando o marido adquiriu o terreno, ninguém dava valor.
— O povo só queria saber das superquadras, de morar perto da W3 Sul. Hoje, o luxo é ter uma casa assim, do jeito da minha. Sou uma mulher de visão, gaba-se.

Dona Edite diz saber o que é ser chique na capital federal. Não frequentou nenhuma aula de etiqueta. Enche a boca para anunciar que Brasília foi a sua maior professora. Aqui, aprendeu a colocar laquê no cabelo e a combinar um echarpe parisiense com um vestido floral. Frequentou bailes presidenciais numa época em que faltava gente para figurar no salão. Ali, aprendeu mais a ouvir do que falar, sempre com uma cara de Cristovão Colombo — aquela que se maravilha com o novo mundo.

— Entrei na sociedade com o avançar dos dias. Depois, ser pioneira em Brasília é igual a adquirir título de condessa, observa.

Dona Edite recebe, com requinte, os convidados em sua casa. Tudo é sofisticado e simples ao mesmo tempo. Ela oferece suco de goiaba orgânica feita com a água do lago, filtrada em duplo carvão ativado. Faz biscoitos caseiros, mas põe no recheio geleia importada de mirtilos selvagens. Para ela, o segredo é combinar o artesanal com o chique. Se faz um peixe, procura variar no pirão. O último que experimentou foi de feijão branco. Se prepara uma carne, varia o molho. O da semana passada foi de carambola.

— Imagina se eu vou servir um frango com quiabo? É interiorano demais. Coloco sempre uma pitada de excentricidade, ensina.

Dona Edite gosta de ser única. Às vezes, corre risco de escorregar em certas medidas. Viu, na tevê a cabo, que a tendência é envelhecer com esportividade. Programou então uma festa de arromba de 80 anos, bem no clima clube de mulheres. Contratou umas produtoras lésbicas e descoladas, chamou gente da melhor estirpe, pediu música jovem no salão e algo que chocasse a plateia. Na lista de convidadas, havia até uma primeira-dama. Na hora do tradicional “parabéns pra você", saiu de bolo gigante um belo dançarino musculoso de sunga, que sapecou um beijo de língua de novela das nove numa dona Edite rubra pelo excesso.

— Confesso que exagerei no rímel. Mas até hoje não se fala em outra coisa, resigna-se.

Dona Edite não se considera uma mulher solitária. Possui amigas para cada dia da semana. Vive bem e com a cabeça a mil. Quer inovar esse papel de socialite. Ela considera que combinar o fútil com uma certa dose de humanidade em tempos de catástrofes naturais é século 20 demais.

— Agora, a onda é se associar a alguma ONG, de preferência aquelas que protegem animais em extinção.

Dona Edite contratou assessores, fez uma vasta pesquisa e constatou que a maioria dos bichos ameaçados está amparada por alguma organização. Só as ararinhas azuis têm uma dúzia e meia de madrinhas abastadas. Quando suspirava de tristeza, ela teve um estalo.

— É isso. Vou criar uma ONG para cuidar das baratas albinas. Nunca mais vi uma. Você quer colaborar?

Um comentário:

Celso Faria disse...

Adorei conhecer dona Edith. Ontem mesmo cruzei com várias delas em um evento... Parabéns, um texto engraçado e cheio de verdades da nossa sociedade brasiliense.