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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Crítica // Recordar é viver

Foto/Divulgação

Duelo de feras

Sérgio Maggio

Vai ser difícil esquecer o som da melodia das palmas alongadas da plateia que foi a pre-estreia de Recordar é viver, no Teatro Sesc Anchieta. Quando espetáculo acabou, Sergio Britto e Suely Franco receberam o carinho de um público extremamente agradecido e admirado com o trabalho desses dois grandes nomes do teatro nacional.

Recuperado de uma internação hospitalar em meados de 2010, Sergio Britto aparece pulsante, em cena, num personagem que dialoga com a fragilidade da velhice, quase que numa metáfora a sua força de homem de teatro que vence barreiras físicas para estar firme no palco, como fez, em 2009, com a excepcional peças curtas de Samuel Beckett.

Em seu ritmo, Sergio acompanha o furacão Suely Franco que cresce a cada cena como uma mãe atormentada com o destino selado de sua família. Em algumas sequências, o humor cortante do personagem Alberto arranca palmas em cena aberta, num trabalho que o deixa extremamente à vontade no palco.


Sergio Britto é um ator de composição de personagens. E Alberto ganha contornos sutis nas mãos de um dos maiores atores brasileiros de sua geração.

- Tem tempo, diz Alberto para marcar o quase-bordão do personagem, que atravessa a montagem marcado pela complacência do pai com um filho em desacerto.

A voz hesitante, o andar cambaliante, as mãos nervosas, as palavras que se atropelam criam um Alberto muito próximo de uma humanidade solicitada pela encenação realista de Eduardo Tolentino. O contraste com a Ana, de Suely Franco, dá ebulição ao espetáculo. A atriz cresce cena a cena e carrega a narrativa num desempenho, por vezes, de tirar o fôlego. O diretor prioriza a mecânica do texto do jornalista Hélio Sussekind, no qual as personagens secundárias servem mais como combustão aos protagonistas. O encontro de Suely e Sérgio sufoca, em parte, os coadjuvantes, dando a sensação de serem fragéis demais diante desse duelo de feras.

Recordar é viver, que faz um painel sobre o desencanto de um núcleo familiar de classe média, é uma boa estreia de Hélio Sussekind, apesar de um excesso de clichês, sobretudo, nos diálogos.

Sergio Britto e Suely Franco têm pontos comuns na carreira. Um deles é a estreia de Beijo no Asfalto (1961), de Nelson Rodrigues, peça escrita especialmente para Fernanda Montenegro e encenada pelo Teatro dos Sete, com Ítalo Rossi também no elenco. A temporada é histórica, com direito a interrupções de espectadores irados com o atentado à moral e aos bons costumes.


Em tempo: Sergio Britto era um dos homenageados do projeto Mitos do Teatro Brasileiro, Ano I, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília. Mas infelizmente não pôde vir para ser celebrado por conta de recomendação médica, que o impediu de pegar voos.
- Agora, querido, só fico entre Rio e São Paulo, contou ao fim da sessão do Sesc Anchieta.

- Desculpe, não dá lhe muita atenção. Você viu o que aconteceu ao final? Quantas palmas? Estou muito emocionado. Nem ia falar nada, mas resolvi voltar e agradecer a esse público contagiante, obrigado!, contou Sergio Britto.


RECORDAR É VIVER

SESC Consolação
28/01 a 27/02.
Sextas e sábados, às 21h e domingos às 19h
Drama familiar que se passa no início dos anos 90 num bairro de classe média do Rio de Janeiro. De Hélio Sussekind. Direção de Eduardo Tolentino de Araújo. Com Suely Franco, Sergio Britto, José Roberto Jardim, Camilo Bevilacqua, Ana Jansen e Anna Cecília Junqueira.


Não recomendado para menores de 14 anos
R$ 32,00[inteira]
R$ 16,00[usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante]
R$ 8,00[trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes]

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