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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Que coisa mais linda!


Sérgio Maggio

Se Brasília, a cidade, falasse, poderia confirmar esta história que começa a ser narrada agora. Tenho, para mim, que ela se divertiu diante da câmera de uma baiana que reside na Ilha de Itaparica e tem o dedo nervoso para fotografar. Cristina, ou Tininha, é uma cinquentinha com jeito de menina moleca. Desde que comprou a máquina digital, ela corre ávida em direção a qualquer coisa que possa virar um retrato. O jeito alvoraçado lembra até os turistas coreanos e japoneses, que disparam flashes esquizofrênicos diante dos modelos.

—Nossa, que coisa mais linda, dizia ela, logo que avistou a Esplanada.

Ali, no espaço mais monumental da cidade, tudo virou belas imagens. Até o esquecido pombal de Niemeyer, ganhou dezenas de cliques e elogios rasgados. Pipoqueiro, esculturas, palácios, vendedor de lembrancinhas, cabeça de JK, Dragão da Independência. Nada escapou do visor de Tininha. É claro que tinha a série em que ela aparecia linda e loira com os monumentos ao fundo. Nessa hora, o sorriso largo ensolarou o rosto, e o corpo acomodava-se sempre numa diagonal, tipo cabeça para a Asa Norte e bunda para a Asa Sul.

— Quero tirar as fotos com os reis magos, que coisa mais linda.

Correção básica: os três reis magos em questão eram, na verdade, os profetas da Catedral. Ainda fechada para a reforma, uma das obras mais fotografáveis de Niemeyer não escapou da gana dessa amadora. Cristina deu um jeito de arranjar um buraco num tapume e conseguiu pegar um ângulo não muito favorável dos anjos suspensos.

— Que coisa mais linda, meu pai. Eu acredito tanto em anjos, comentou e aproveitou para balbuciar provavelmente algum pedido.

Dona de fé inabalável, ela correu a rota mística de Brasília. Com a máquina em punho, fez o caracol da LBV e perdeu a respiração quando ficou diante dos vitrais da Igreja Dom Bosco. Não sei como a memória da máquina suportou tantos arquivos. Na sede da Seicho-no-iê e no Templo Budista da 315 Sul, os detalhes ganharam as lentes. Pelas imagens que pesquei pelo visor, os jardins japoneses, com certeza, dariam uma bela exposição. Minha cabeça anda tão avoada, que eu estava esquecendo a cara de êxtase quando ela ficou diante da mesquita islâmica. Isso sem falar na praça do Setor Militar Urbano, com o lago onde os cristais de Burle Marx brotam da água. Ali, confesso, a mulher ficou tão doida que fiquei preocupado. As garças, coitadas, correram garbosas como se fugissem de um paparazzo.

— Que coisa mais linda, em Salvador não tem um negócio desse.

Quando parecia que o álbum de lembranças estaria completo, eis que Tininha adentra na avenida que separa o Sudoeste do Cruzeiro.

— Meus Deus, o que é isso?

— São jacas, respondi.

— Para o carro, preciso mostrar isso. Ninguém vai acreditar numa coisa dessas. Uma fila de jaqueiras no meio da rua, que coisa mais linda.

Tenho a impressão de que nunca as jacas da cidade foram tão fotografadas, em todos os ângulos, poses e planos. Que coisa mais linda!

Um comentário:

Tininha cricri disse...

Serginho, só vc estou extasiada de tanto rir.Mas eu adoro rir.Há,há....
Amei, adorei, estou muito feliz.
Adoro clicar, mas a máquina pifou não tem mas conserto, vou pedir aos Anjos e a Deus para fazer um milagre e mandar timtim para mim...Há, há Milagres acontece.
Mande para todos.
Fiquei famosa...Há,Há.....
Adorei, adorei.............